sábado, 31 de março de 2012
«Eu faço se tu fizeres», A Hora do Planeta, 'bora jantar à luz das velas?
Centenas de monumentos em mais de 5000 cidades e vilas (83 em Portugal) vão ficar às escuras às 20.30h de sábado, hora local, com a Líbia, a Argélia, o Butão e a Guiné francesa entre os países que participam pela primeira vez.
A Hora do Planeta começou em 2007 como uma iniciativa de apenas uma cidade, Sydney na Austrália, e desde então tem crescido para ser hoje a maior acção voluntária do mundo pelo ambiente.
Este ano, a Hora do Planeta lançou a campanha ‘Eu Faço se Tu Fizeres’ para incentivar acções sustentáveis para além da hora. Milhares de pessoas, organizações e governos criaram um desafio, inspirando amigos, familiares e colegas a fazerem parte da sua acção por um mundo mais sustentável.
"Cada um de nós desempenha um papel importante para fazer a diferença no mundo em que vivemos. Amanhã vamos celebrar o nosso compromisso com o planeta e inspirar pessoas à nossa volta a agirem", sugeriu Angela Morgado, da WWF em Portugal.
O último país a ficar às escuras, Samoa, este ano vai desligar as luzes à medida que o evento atravessa o globo terrestre, ao longo de um período de 24 horas. O último ‘apagão’ acontece nas Ilhas Cook.
Os marcos que aderem ao apagão incluem a Sydney Opera House, Sydney Harbour Bridge, a Torre de Tóquio, Taipei 101, Grande Muralha da China, Estádio Nacional de Pequim (Ninho de Pássaro), Orchard Road Singapore, Lumbini Jardim Sagrado, Gateway of India, o BurjKhalifa, o Museu da Líbia , Table Mountain, Biblioteca Nacional da Bielorrússia, paredes da cidade de Dubrovnik, a Torre Eiffel, o Louvre, o Portão de Brandenburgo, Allianz Arena, a Torre de Pisa, a cúpula da Basílica de São Pedro no Vaticano, Palácio de Buckingham, a Tower Bridge, Casas do do Parlamento (Reino Unido), Big Ben, Cristo Redentor, CN Tower, Las Vegas Strip, Times Square, o Empire State Building, a sede da ONU e muito mais. Em Portugal, a Torre de Belém, o Mosteiro dos Jerónimos, o Cristo-Rei, a Ponte 25 de Abril, o Museu da Electricidade, Santuário dos Remédios em Lamego, Mosteiro do Landim, Castelos do Pinhel, Igreja Matriz em Fafe, Casa da Cultura em Câmara de Lobos, Castelo de Leiria, Ponte e largo de S. Gonçalo em Amarante, o Museu Marquês de Pombal, em Pombal, o Castelo de Campo Maior, Muralhas de Serpa e muitos outros.
A Hora do Planeta usa as redes sociais para chegar às comunidades, por todo o mundo, inspirando as pessoas a mudarem o mundo em que vivemos.
Parada de Velas ‘Acende uma Vela pelo teu Planeta’
Em Lisboa, a noite de 31 de Março vai ter como ponto de encontro a Praça do Município, em Lisboa onde se realiza a parada de velas ‘Acende uma Vela pelo teu Planeta’ .
A Hora do Planeta 2012 acontecerá entre as 20.30 e as 21.30h de sábado, 31 de Março
Vozes de lá e de cá, um proposta fantástica agarrada com unhas e dentes
Conheci a Teresa Maria Queiroz na net, no Facebook, claro, e porque tínhamos as mesmas raízes, os Olivais, claro! Sou mais velha do que a Teresa, quatro anos na adolescência fazem muita diferença, por isso nessa altura, se nos cruzámos, não dei por isso!
Na Semana da Leitura, no ano letivo passado, a BE convidou a TMQ para ir falar com os miúdos sobre ler e escrever. Foi um sucesso, os miúdos gostaram imenso dela, houve ali alguma magia, sem preciosismo, sem vaidade, sem galões.
Esse encontro deixou um espaço aberto, espaço que a TMQ agarrou e, a meio do verão, recebo um sms a dizer o seguinte: «... Estava aqui a pensar que para o próximo ano lectivo a vossa escola podia colaborar com um projecto, crianças a escrever poemas para outras crianças e nós fazíamos a produção do DVB...».
Obviamente que eu ia aceitar a proposta, na altura ainda era coordenadora de Português, já não o sou... (não interessa!), e ia fazer de tudo para que as pessoas que trabalham comigo aderissem ao projeto. Não foi muito complicado, porque a nossa querida professora bibliotecária, Helena Quadrado, envolve-se naquilo que mexe com a BE e com os miúdos e a minha querida amiga Helena Perdigão, coordenadora de Português do 3º Ciclo, nunca me disse «não». Três Helenas prontas para dar vida e voz a um projeto que se queria internacional, lusófono, mas que, infelizmente, não chegou tão longe quanto desejaríamos. Ainda não obtivemos qualquer resposta de Timor, Angola e Moçambique nada, mas temos textos, dois(!) do Brasil. É bom que fique claro que quantidade não significa qualidade!
Os nossos alunos aderiram e de que maneira. Os mais pequenos levam-se muito bem e adoram encontrar os seus textos publicados no blogue vozesdelaedeca.blogspot.com e isso faz com que o prazer da escrita seja recompensado. Os mais velhos são diferentes, já estão noutra dimensão, a adolescência tem o que se lhe diga. Houve , no entanto, uma turma, a da Carla Jorge, que tem miúdas fantásticas, que adoram escrever e que produziram textos de uma elevadíssima qualidade. Um antigo aluno meu, o Rodrigo Nogueiro, fez um poema lindo... Conhecendo-o bem, sei que redigiu com alma e coração, nada ficou por dizer! Sensacional!
E agora a melhor parte... Vamos ter o nosso trabalho publicado num livro editado pela TMQ, a Pastelaria Studios! TMQ escreveu assim: «um projecto pensado pela Pastelaria Studios Editora, a ideia foi abraçada de imediato por duas pessoas que, tal como nós, querem fazer "coisas"!! Lena Barreto e Helena Quadrado
Com este projecto vamos acordar alguns sonhos .
Os autores são alunos da Escola Básica André de Resende, em Évora, onde já tive o prazer de ter sido convidada a falar sobre todas estas coisas da escrita e do que se sente quando se escreve :)
Esta iniciativa não tem patrocínios, ninguém respondeu ao apelo.
É este o país que temos!
Mas não podemos deixar de acordar sonhos, e estes são sonhos de crianças ... :)
O projecto vai ser financiado, na sua totalidade, pela Pastelaria Studios Editora :) com esforço e...com muito prazer!»
Por isso, digam lá, não temos razões para estarmos felizes?
Em maio teremos as vozes gravadas, serão cinco os textos selecionados a partir dos trinta escolhidos para o livro. Estamos nesta altura de pausa letiva a fazer as nossas escolhas, e confesso, não é fácil... Nada fácil!
Um prazer trabalhar com a Teresa, estou-lhe duplamente grata. Tenho um texto editado por ela numa antologia, a Antologia Inverno, é hoje o lançamento, mas eu não vou... E agora os nossos alunos, crianças e adolescentes podem ver as suas criações publicadas numa edição fantástica! Obrigada, Teresa! Precisamos de pessoas assim, com vontade e garra, simples e descomplicadas, com quem podemos contar!
sexta-feira, 30 de março de 2012
Johnny Cash - 'Hurt"
I hurt
myself today
To see if I
still feel
I focus on
the pain
The only
thing that's real
The needle
tears a hole
The old
familiar sting
Try to kill
it all away
But I
remember everything
What have I
become?
My sweetest
friend
Everyone I
know goes away
In the end
And you
could have it all
My empire
of dirt
I will let
you down
I will make
you hurt..
I wear this
crown of thorns
Upon my
liar's chair
Full of
broken thoughts
I cannot
repair
Beneath the
stains of time
The
feelings disappear
You are
someone else
I am still
right here
What have I
become?
My sweetest
friend
Everyone I
know goes away
In the end
And you
could have it all
My empire
of dirt
I will let
you down
I will make
you hurt
If I could
start again
A million
miles away
I would
keep myself
I would find a way
quinta-feira, 29 de março de 2012
O grilo falante
Nunca gostei de mentirosos, apesar de, quando era pequena, volta não volta, pregar a minha dose de aldrabices. Também não adorava o Pinóquio! Para além de mentiroso, era demasiadamente ingénuo, manipulável, fazia sofrer um velhote que o adorava e, ainda por cima, era de madeira.
Toda aquela história, da Disney,claro, desenhos, bonecada, não me agradava! Os bons, os maus, os assim-assim, tudo aquilo não me seduzia, mas o que mais me enervava era mesmo o Grilo Falante!
Que coisa! Feioso, sempre ao ouvido a mandar palpites, como se adiantasse de alguma coisa! Aquele miúdo de madeira havia de fazer o quer queria, falasse o outro ou não!
Grilos, não lhes acho graça nenhuma! Nem nunca entendi por que raio de carga de água é que punham os pobres coitados numa horrível gaiola de plástico! São uns bichos pouco simpáticos, a atirar para o feio. Sim, está bem, têm a sua utilidade, e no verão gosto da presença deles no jardim, desde que não muito próxima de mim!
Juntar ao grilo, feioso, a capacidade de falar, debitando a voz da razão, é um dois em um um pouco agastante, como se diz por estas bandas alentejanas.
Ora que nome me foram arranjar numa formação que fiz há uns tempos: Grilinho/Grilinha! Nem mais!
Porquê? Porque, como Costa Santos que sou, não me consigo calar! É um bocadinho como o outro «A mim ninguém me cala!». E vai de vomitar razão por todos os lados, como se ter razão fosse algo de extraordinário!
Ganho alguma coisa com isso? Claro que sim, cada dia que passa mais gente se afasta... Não que me faça mossa, antes assim do que ter um séquito de hipócritas! Mas que os há, há! Como as bruxas. E com eles convivo numa base diária...
Ganho alguma coisa com isso? Claro que sim, cada dia que passa mais gente se afasta... Não que me faça mossa, antes assim do que ter um séquito de hipócritas! Mas que os há, há! Como as bruxas. E com eles convivo numa base diária...
A minha mãe, fiel seguidora do «A mim ninguém me cala!», foi posta de lado no trabalho, depois de carradas de anos de serviço público de excelência. Eu, para além das fuças cuspidas e escarradas dela, ainda fui herdar a mania de ter razão. C'os diabos!
Não pretendo ser a consciência de ninguém, nunca pretendi tal coisa! A minha nem sempre está tranquila, como ser a consciência de alguém? Nem o queria, nunca! Ficar com a minha consciência pesada à conta de quem não a tem! Nem pensar! Só não calo injustiças e não defendo o que não tem defesa possível, o que, nos dias que correm, começa a ser raro. É bem mais fácil a omissão, o silêncio, os falsos sorrisos do que encarar a verdade, sendo-se frontal.
E é assim que vamos ficando, mais sós, menos apreciados, mas de consciência, cada vez mais, tranquila.
Sensata? Talvez não! Porque os sensatos, por vezes, calam-se para evitar constrangimentos, não por serem sensatos! Confundir sensatez com comodismo é um erro crasso, que custará caro à nossa consciência...
quarta-feira, 28 de março de 2012
Um Amigo
«Um amigo é fruto de uma escolha.
É uma opção de amor
É a descoberta da alma irmã.
É a consciência clara e permanente de algo sublime
que não está na natureza das coisas perecíveis.
É um tesouro sem preço, um gostar sem distância,
de alguém presente em nosso caminho,
nas horas de dúvida, de alegria, demais para ser perdido,
importante para ser esquecido.»
Antoine Saint Exupéry
A um ausente
«Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.
Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?
Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.
Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.»
Carlos Drummond de Andrade
Loucos e Santos
«Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer,
mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e aguentem o que há de pior em
mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam
perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade disparate, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de
aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e
velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos,
nunca me esquecerei de que «normalidade» é uma ilusão imbecil e estéril.»
Oscar Wilde
E tenho um Amigo...
«Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações da infância.
Preciso de um amigo para não enlouquecer, para contar o que vi de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade.
Deve gostar de ruas desertas, de poças d´água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim. Preciso de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já tenho um amigo.
Preciso de um amigo para parar de chorar. Para não viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas.
Que bata nos ombros sorrindo e chorando, mas que me chame de amigo, para que eu tenha a consciência de que ainda vivo.»
Vinicius de Moraes
terça-feira, 27 de março de 2012
domingo, 25 de março de 2012
Olhos Castanhos, Alves Coelho
Teus olhos castanhos
de encantos tamanhos
são pecados meus,
são estrelas fulgentes,
brilhantes, luzentes,
caídas dos céus,
Teus olhos risonhos
são mundos,são sonhos,
são a minha cruz,
teus olhos castanhos
de encantos tamanhos
são raios de luz.
Olhos azuis são ciúme
e nada valem para mim,
Olhos negros são queixume
de uma tristeza sem fim,
olhos verdes são traição
são cruéis como punhais,
olhos bons com coração
os teus, castanhos leais.
de encantos tamanhos
são pecados meus,
são estrelas fulgentes,
brilhantes, luzentes,
caídas dos céus,
Teus olhos risonhos
são mundos,são sonhos,
são a minha cruz,
teus olhos castanhos
de encantos tamanhos
são raios de luz.
Olhos azuis são ciúme
e nada valem para mim,
Olhos negros são queixume
de uma tristeza sem fim,
olhos verdes são traição
são cruéis como punhais,
olhos bons com coração
os teus, castanhos leais.
João José Liveri da Costa, o meu trisavô, um padre!
Durante muito tempo não se falou do nosso trisavô, mas sim da linda italiana de olhos claros por quem ele se apaixonou. Segundo diz a minha mãe, as minhas irmãs herdaram a sua cor de olhos, já eu não, tenho os olhos castanhos, encantos tamanhos...! Não se falou dele, por vergonha, era um padre, um dos confessores do rei D. Carlos.
Agora, não há reunião de família em que não se fale dele e da sua coragem ao criar e dar o seu nome aos vários filhos que teve, todos Costa (por parte de pai) e Santos (claro, como todos os filhos de padres...).
sábado, 24 de março de 2012
Na capital, por várias razões: o meu livro, já cá canta! Uma oferta para a mãe que faz 89 amanhã!
Há uma primeira vez para tudo... esta tem um significado especial! O nosso nome conta, o que fazemos também, é o que deixamos.
terça-feira, 20 de março de 2012
Podia chover...
O dia deu em chuvoso.
O dia deu em chuvoso.
A manhã, contudo, esteve bastante azul.
O dia deu em chuvoso.
Desde manhã eu estava um pouco triste.
Antecipação! Tristeza? Coisa nenhuma?
Não sei: já ao acordar estava triste.
O dia deu em chuvoso.
Bem sei, a penumbra da chuva é elegante.
Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante.
Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante.
Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante?
Dêem-me o céu azul e o sol visível.
Névoa, chuvas, escuros — isso tenho eu em mim.
Hoje quero só sossego.
Até amaria o lar, desde que o não tivesse.
Chego a ter sono de vontade de ter sossego.
Não exageremos!
Tenho efetivamente sono, sem explicação.
O dia deu em chuvoso.
Carinhos? Afetos? São memórias...
É preciso ser-se criança para os ter...
Minha madrugada perdida, meu céu azul verdadeiro!
O dia deu em chuvoso.
Boca bonita da filha do caseiro,
Polpa de fruta de um coração por comer...
Quando foi isso? Não sei...
No azul da manhã...
O dia deu em chuvoso.
Álvaro de Campos, in Poemas
O dia deu em chuvoso.
A manhã, contudo, esteve bastante azul.
O dia deu em chuvoso.
Desde manhã eu estava um pouco triste.
Antecipação! Tristeza? Coisa nenhuma?
Não sei: já ao acordar estava triste.
O dia deu em chuvoso.
Bem sei, a penumbra da chuva é elegante.
Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante.
Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante.
Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante?
Dêem-me o céu azul e o sol visível.
Névoa, chuvas, escuros — isso tenho eu em mim.
Hoje quero só sossego.
Até amaria o lar, desde que o não tivesse.
Chego a ter sono de vontade de ter sossego.
Não exageremos!
Tenho efetivamente sono, sem explicação.
O dia deu em chuvoso.
Carinhos? Afetos? São memórias...
É preciso ser-se criança para os ter...
Minha madrugada perdida, meu céu azul verdadeiro!
O dia deu em chuvoso.
Boca bonita da filha do caseiro,
Polpa de fruta de um coração por comer...
Quando foi isso? Não sei...
No azul da manhã...
O dia deu em chuvoso.
Álvaro de Campos, in Poemas
segunda-feira, 19 de março de 2012
domingo, 18 de março de 2012
Uma carta de uma filha que perdeu a mãe para uma escola que não nos merece
CARTA AOS PROFESSORES - para pensar...
O Joaquim Fidalgo, jornalista, é o Provedor do Leitor do Jornal Público. A Estefânia era a sua mulher. Professora. Fazia 59 anos no dia 8 de Março. Suicidou-se no princípio deste mês. A sua filha Sara escreveu esta carta a toda a gente mas, principalmente aos professores. A Sara é filha do Joaquim Fidalgo.
Carta a professores, alunos, pais, governantes, cidadãos e quaisquer outros que possam sentir-se tocados e identificados.
As reformas na educação estão na boca do mundo há mais anos do que os que
conseguimos recordar, chegando ao ponto de nem sabermos como começaram nem
de onde vieram. Confessando, sou apenas uma das que passou das aulas de uma
hora para as aulas de noventa minutos e achei aquilo um disparate total.
Tirava-nos intervalos, tirava-nos momentos de caçadinhas e de saltar à corda e obrigava-nos a estar mais tempo sentados a ouvir sobre reis, rios, palavras estrangeiras e números primos.
Depois veio o secundário e deixámos de ter ?folgas? porque passou a haver professores que tinham que substituir os que faltavam e nós ficávamos tristes. Não era porque não queríamos aprender, era porque as ?aulas de substituição? nos cansavam mais do que as outras. Os professores não nos conheciam, abusávamos deles e era como voltar ao zero.
Eu era pequenina. E nunca me passou pela cabeça pensar no lado dos professores.Até ao dia 1 de Março.
Foi o culminar de tudo. Durante semanas e semanas ouvi a minha mãe, uma das
melhores professoras de Inglês que conheci, o meu pilar, a minha luz, a minha companhia, a encher a boca séria com a palavra depressão. A seguir vinham os tremores, as preocupações, as queixas de pais, as crianças a quem não conseguimos chamar crianças porque são tão indisciplinadas que parece que lhes falta a meninice. Acreditem ou não, há pais que não sabem o que estão a criar. Como dizia um amigo meu: Antigamente, fazíamos asneiras na escola e quando chegávamos a casa
levávamos uma chapada do pai ou da mãe. Hoje, os miúdos fazem asneiras e os
pais vão à escola para dar a dita chapada nos professores?. Sim, nos professores. Aqueles que tomam conta de tantos filhos cujos pais não têm tempo nem paciência para os educar. Sim, os professores que fazem de nós adultos competentes, formados, civilizados. Ou faziam, porque agora não conseguem.
A minha mãe levou a maior chapada de todas e não resistiu. Desculpem o dramatismo mas a escola, o sistema educativo, a educação especial, a educação sexual, as provas de aferição e toda aquela enormidade de coisas que não consigo sequer enumerar, levaram deste mundo uma das melhores pessoas que por cá andou. E revolta-me não conseguir fazer-lhe justiça.
Professores e responsáveis pela educação, espero que leiam isto e acordem,
revoltem-se, manifestem-se (ainda mais) mas, sobretudo e acima de qualquer outra coisa, conversem e ajudem-se uns aos outros. Levem a história da minha mãe para as bocas do mundo, para as conversas na sala dos professores e nos intervalos, a história de uma mulher maravilhosa que se suicidou não por causa de uma vida instável, não por causa de uma família desestruturada, não por dificuldades económicas, não por desgostos amorosos mas por causa de um trabalho que amava, ao qual se dedicou de alma e coração durante 36 anos.
De todos os problemas que a minha mãe teve no trabalho desde que me conheço
(todos os temos, todos os conhecemos), nunca ouvi a palavra ?incapaz? sair da boca dela. Nunca a vi tão indefesa, nunca a conheci como desistente, nunca pensei ouvir ?ando a enganar-me a mim mesma e não sei ser professora?. Mas era verdade. Ela soube. Ela foi. Ela ensinou centenas de crianças, ela riu, ela fez o pino no meio da sala de aulas, ela escreveu em quadros a giz e depois em quadros electrónicos. Ela aprendeu as novas tecnologias. O que ela não aprendeu foi a suportar a carga imensa e descabida que lhe puseram sobre os ombros sem sentido rigorosamente nenhum.
Eu, pelo menos, não o consigo ver.
E, assim, me manifesto contra toda esta gentinha que desvaloriza os professores mais velhos, que os destrói e os obriga a adaptarem-se a uma realidade que nunca conheceram. E tudo isto de um momento para o outro, sem qualquer tipo de preparação ou ajuda.
Esta, sim, é a minha maneira de me revoltar contra aquilo que a minha mãe não teve forças para combater. Quem me dera ter conseguido aliviá-la, tirar-lhe aquela carga estupidamente pesada e que ninguém, a não ser quem a vive, compreende. Eu vivi através dela e nunca cheguei a compreender.
Professores, ajudem-se. Conversem. E, acima de tudo, não deixem que a educação seja um fardo em vez de ser a profissão que vocês escolheram com tanto amor.
Pensem no amor. E, com ele, honrem a vida maravilhosa que a minha mãe teve,
até não poder mais.
Sara Fidalgo
P.S. - Não posso deixar de agradecer a todos os que nos ajudaram neste momento de dor *
Sara Fidalgo
P.S. - Não posso deixar de agradecer a todos os que nos ajudaram neste momento de dor *
sexta-feira, 16 de março de 2012
terça-feira, 13 de março de 2012
O lançamento do livro... e eu não posso ir :-(
Gosto de escrever, como costumo dizer, lava-me a alma! A Teresa Maria Queiroz decidiu acordar sonhos, acordou o meu enquanto eu lavava a minha alma!
Mas não vou ao lançamento do meu primeiro passo no mudo dos livros, acho que tenho pena, apesar do misto de emoções... Queria estar ao pé do Domingos e dos meus filhos, mostrar-lhes como me sinto bem quando estou com eles ao fazer o que gosto. Mas não vou...
À Teresa agradeço a ousadia de enfrentar as grandes editoras para dar voz àqueles que escrevem em silêncio. À Pastelaria agradeço o empenho em tornar visíveis os invisíveis, tantas vezes amachucados de tão invisíveis.
Obrigada...
domingo, 11 de março de 2012
sábado, 10 de março de 2012
sexta-feira, 9 de março de 2012
domingo, 4 de março de 2012
E quando eles estão constipados...
Pachos na testa, terço na mão
Uma botija, chá de limão
Zaragatoas, vinho com mel
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher
Ai Lurdes, Lurdes, que vou morrer
Mede-me a febre, olha-me a goela
Cala os miúdos, fecha a janela
Não quero canja, nem a salada
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada
Se tu sonhasses, como me sinto
Já vejo a morte, nunca te minto
Já vejo o inferno, chamas diabos
Anjos estranhos, cornos e rabos
Vejo os demónios, nas suas danças
Tigres sem listras, bodes de tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes, que foi aquilo!
Não é a chuva, no meu postigo
Ai Lurdes, Lurdes, fica comigo
Não é o vento, a cirandar
Nem são as vozes, que vêm do mar
Não é o pingo de uma torneira
Põe-me a santinha, à cabeceira
Compõe-me a colcha, fala ao prior
Pousa o Jesus, no cobertor
Chama o doutor, passa a chamada
Ai Lurdes, Lurdes, nem dás por nada
Faz-me tisanas, e pão-de-ló
Não te levantes, que fico só
Aqui sozinho a apodrecer
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.
António lobo Antunes
sexta-feira, 2 de março de 2012
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