terça-feira, 4 de setembro de 2018

Nas vésperas do recomeço...

domingo, 2 de setembro de 2018

Goodbye

A nós, aos que gostam de nós, os outros que se fodam!

31/8/2018, 33!

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Como o ogre o e o gigante

      E ao fim de sete anos, sem mais nada para dizer, porque já tinham dito tudo um ao outro, o gigante regressou a casa... E como o gigante, já tenho pouco para dizer. Fico à espera que as letras das canções falem por mim, que digam o que eu já tentei dizer tantas vezes, que me preencham os silêncios. E fala pelos cotovelos, fecha a matraca, isto era mais ou menos o cenário de antigamente, tudo era assunto, tudo era tema, uma alegria no falar, na conversa, nunca me faltavam as palavras, mas não era falar por falar, era falar para conhecer, por prazer, para descobrir, para marcar posição, defender pontos de vista. Hoje «estás muito calada» e é verdade. Falo mais por falar, mais para não estar calada, mas digo pouco, porque quando digo, já vem tudo tão processado, tão pensado, tão mal digerido que nunca é coisa boa o que sai. Filha de quem sou, de um falar interminável e de um silêncio ensurdecedor, este é o resultado. Cada vez mais parecida com um e outro no pior de cada um. 
        «I´m in this house, I´m in this home all my time», «I'm ok»
      

segunda-feira, 30 de julho de 2018

P'ra mesa!

           «- Sim, gostei de as pessoas se sentarem à volta dela e falarem. (...) um dia, quando for crescido, vou ter uma mesa grande como aquela para mim e para a minha família. Quero sentar-me à volta dela e conversar, como eles fazem.» O Fio do Destino, Laura Schroff, ASA, 2012

         Uma casa de jantar é uma casa de jantar! Longe dos sofás, da televisão,  um espaço privilegiado para se comer e conversar. Quando era miúda, a nossa sala era grande, mas dividida nos dois espaços distintos, o de estar e o de jantar, em casa do Domingos também!  Quando me casei, as casas eram tão minúsculas que era impossível fazer essa divisão, apesar de a mesa, uma pequena camilha, estar num espaço definido, mas a televisão estava sempre lá e não a desligávamos.  A primeira casa de jantar que tive foi nas Caldas, na Rua Fonte do Pinheiro, um prédio decrépito, mas que me serviu lindamente! A casa de jantar era muito pequena, dava para a mesa (já tinha podido comprar uma e o Domingos tinha desenhado umas cadeiras que custaram uma ninharia na altura) e para as cadeiras, não havia espaço para mais nada, as cortinas fi-las eu, com o tecido do Kilo Americano, em verde e cru. Tinha tanto gosto naquele espaço... Ainda hoje conservo o tecido, agora a cobrir as cabeceiras de um dos quartos vazios cá de casa. Em Montemor, a cozinha era tão grande que era lá que fazíamos as refeições, esporadicamente na sala, onde repousava a mesa nova herdada da Assunção, e que ainda hoje é a nossa mesa de jantar.  Nesta casa, felizmente conseguimos ter o meu espaço de estar a comer, primeiro na divisão mais pequenina da casa, o sr. Luís dos móveis São Francisco, que acabou por nos ir fazendo ao longo de mais de uma década os móveis, dizia que a nossa casa de jantar parecia uma casinha de bonecas, e parecia mesmo. Hoje a casa de jantar é a divisão maior, forrada a papel de parede da Laura Ashley, comprado a preço de saldo no e-bay.
     Nos Olivais, estar à mesa significava, sobretudo comer. As conversas normalmente não acabavam bem... Também não acabavam bem os jantares que implicavam explicações forçadas de Matemática! Por isso o estar à mesa não era aquele momento. Uma vez, de tão farta que estava do mesmo, levantei-me para ir acabar de «comer» na cozinha. Levei com os berros do costume e voltei a sentar-me. Variedade era coisa que não havia, nem nos assuntos nem na ementa, normalmente eram bifes com batatas fritas ao jantar, grão com bacalhau às quartas ao almoço, aos fins de semana havia feijoada, carne guisada, cozido, carne assada no Natal e peixe assado na Sexta-Feira Santa. Sopa, sempre, mas só para as magras, a Paula e eu. A mais velha estava dispensada, porque era gorda. Aos sábados, no tempo da Clarinda, faziam-se pastéis de massa tenra e rissóis, mas foi um tempo que acabou depressa. O arroz era  uma espécie de «unidos venceremos» e a massa que a mãe fazia costumava ficar a nadar no prato, o ketchup ia disfarçando, mas só nos livrámos deles quando começámos a ser nós a cozinhar. Aí víamos o meu pai a pôr de lado as coisas esquisitas que queríamos fazer e dar a conhecer, não gostava de mistelas, de disfarçados, de esquisitices, de modernices e, às 19.30h, tinha de estar à mesa! Começava a olhar para o relógio com uma impaciência que dava dó! Até parecia que o Carmo e a Trindade cairiam se não almoçasse ao meio-dia e meia e jantasse às sete e meia! Encontrei isso, há vinte anos em Montemor-o-Novo, quando um dos nossos vizinhos, um senhor já de idade avançada apareceu à porta de casa a reclamar com a mulher que eram horas de jantar! Deve ser por isso que agora não me preocupo minimamente com horários, quando está pronto está pronto! Até parece que estamos em Évora, dizem os meus filhos quando, em Lisboa, em casa deles, almoçamos ou jantamos tarde. 
          «P'ra mesa!», «Tou a ir», «Vou já» normalmente eram as respostas, agora em casa somos só os dois, não precisamos de gritar para nos chamarmos, estamos aqui, à mesa. Mas já lá vai o tempo em que era preciso chamar montes de vezes, «ou vens ou não comes!», «não chamo outra vez!»... Mas a mesa é a mesa! Pôr a mesa, com tudo no sítio certo, os lugares definidos, as horas mais ou menos concertadas. Nas Caldas era um horror, não havia horas para nada, só para mim e para os miúdos, tantas vezes sem o pai à mesa... Foram tempos muito difíceis, sobretudo para mim, porque para os miúdos era sempre fácil recompensá-los com a risota do costume.
               Fico sempre fascinada com uma mesa cheia de gente, as conversas, as gargalhadas, o bem-estar e o bem comer, adoro! E tenho sempre saudades dos tempos em que juntávamos gente cá em casa e não saíamos da mesa durante horas. Mas já não digo a ninguém para vir... No inverno é muito frio, no verão muito calor, fico sempre a achar que as pessoas vêm contrariadas, quando ouvi a Graça a dizer que se era para trazer a mãe, havia mais gente... Perdi a vontade, disso e de muito mais. Mas tenho sempre a porta, literalmente, aberta! E arranja-se sempre qualquer coisa para aconchegar quem chega, apesar de chegarem poucas vezes...

domingo, 29 de julho de 2018

Ao fim e ao cabo, resume-se tudo a isto: amor ou falta dele.

              Chamem-lhe o que quiserem... Quando se é profundamente amado a vida tem outro sabor! Mesmo os que nascem com limitações, essas atenuam-se com o amor... Lembro-me de uma história de um bebé abandonado que tinha as feições marcadas pela deficiência, mas que de um dia para o outro, depois de ser adotado por uma FAMÍLIA, recuperou as suas feições, o seu ar saudável com que tinha nascido, pronto para a vida! Graças ao amor com que foi acolhido, recebido, criado... É esta a linha que nos separa, a linha do amor. Nada tem a ver com correntes de psicologia, de pedagogia! Nada disso, pura e simplesmente amor. «Amai-vos uns aos outros» nada mais simples, nada mais puro e cru, tão só amor. A falta dele é um veneno, corrói, transmite-se de geração em geração, deixa marcas indeléveis, cria correntes de ódio, de desprezo, os abusados tornam-se em abusadores numa réplica interminável de maldade, crueldade, de terror...
              Crescer no amor não é pedir muito! Fiz muitas coisas mal... Tantas! Mas penso que os meus filhos sobreviveram a tudo isso, porque sabiam que, apesar dos meus gritos, choros, de dizer coisas horrorosas «achas que eu pensava que ser mãe era assim?» e ser demasiado exigente nos comportamentos, eles eram e são, sobretudo, muito amados. Vi-me muitas vezes sozinha, com três filhos numa terra que detestava, num ambiente hostil, sem família que me apoiasse, quer de um lado quer do outro, sim, nem me venham com merdas... Mas eles sabiam que, apesar de tudo, ao fim e ao cabo, tinham um pai e uma mãe que os amavam incondicionalmente. «Gosto mais do pai do que da mãe» dizia o Afonso, e tinha razões para isso, eu, desequilibrada, como sempre fui, emocionalmente, lidava, e ainda lido, muito mal com as falhas nos compromissos, horários, presenças... Tive de engolir muito, demais... Acho que muitas das coisa que nunca engoli fazem-me andar muitas vezes engasgada. «Nunca dei conta do que fazia à minha mãe, não é a ti...», tinha o Afonso meses! 

Agora, imagine-se...

           Com uns catorze ou quinze anos, a ordem foi a seguinte: 
«vens lavar-me as costas!»! Mas o que é que é isto? Isto é o quê?
          Olhei para ela? Para a minha irmã mais velha, a menina dos seus olhos, a mais inteligente, a mais sábia, a melhor em tudo? «O que foi? Vais!» E fui quando me chamou. Naqueles segundos antes de entrar na casa de banho pensei que o ia ver nu! O que é que ele me queria? Onde é que se via uma coisa daquelas, um pai a mandar uma filha adolescente entrar na casa de banho e ir lavar-lhe as costas... E pior! A outra, sem qualquer hesitação, a dizer-me para ir! E por que é que não ia ela? Fui. Aterrorizada. Entrei e dei com ele de cuecas, aquelas a que hoje chamamos boxers. Lavei-lhe as costas, uma treta! Saí dali o mais depressa que pude. Nessa altura não se falava em pedófilos, em abusadores, só havia pessoas más e lobos maus que comiam criancinhas. Havia também o meu avô Luís, maluco, a quem a minha mãe não podia fazer uma visita sozinha, porque ele não era bom da cabeça e nunca se sabe... No fundo, ele sabia bem de que matéria era feito. Via nos outros o que ele, de facto, era, um abusador, um agressor, um vexador... De quem não se podia falar, cuja imagem, com os fatos do Lima, era impecável. 
           Não me venham com merdas! A parva da minha irmã mais velha diz que não tem razão de queixa dele, porque ela sempre se portou bem... Pois eu portei-me mal e, por isso mesmo, devia ter tido um pilar que me orientasse, um pai que me desse colo e que me dissesse que, se tinha feito mal, havia de fazer bem, que ninguém nasce ensinado, que temos de cair e de nos levantar montes de vezes até conseguirmos andar... Nunca soube fazer nada disso. «Podias voar alto!», mas nunca me deu o balanço necessário para o fazer...
           Não se deve falar mal dos mortos... Porquê? Se foram eles que nos criaram os medos, as angústias, os que nos fizeram desejar a sua própria morte. Não se deve falar mal da família, porque lhes devemos tudo... O quê? A indiferença, o desprezo, o vexame? Ingrata! Se calhar, porque nem tudo foi mau. A escola foi sempre uma prioridade e, quando hesitei entre ir ou não para a faculdade, foi ele que me perguntou se eu quereria ficar a minha vida toda atrás de um balcão. E fui para a faculdade. 
            No batizado da Matilde, o Domingos leu um trecho, escrito pela Inês e pelo António, que se referia aos bisavós «para que sejam sempre exemplos de amor, de família, de amizade e de muita alegria na vida da Matilde», todos menos o bisavô Paulo.

Vira o disco e toca o mesmo

           Quero crer que um dia, nesse dia em que a minha cabeça estiver realmente arrumada, conseguirei seguir em frente, mas para isso tenho de saber conviver com todos os meus fantasmas que, como as bruxas, existem e atormentam!
         Não quero, como a minha mãe dizia, esquecer! Perder a memória ou torná-la tão seletiva assim seria esquecer parte da minha vida e sem memória não existimos plenamente. Mas queria saber conviver com dignidade com as memórias más, com as menos boas, aquelas que, cada vez mais, me incomodam, me atormentam, que, tantas vezes, me roubam o ar!
              A começar por aquelas em que o meu pai é o herói. Raras são as boas! Talvez as dos Natais de quando era pequena, em que apesar de tudo, com a companhia do tio António, o ambiente era mais festivo! Quando íamos beber as lambretas (hoje em dia, impensável), ou quando íamos comer fora, bitoque ou frango assado! Ou talvez quando íamos comer marisco! E quando íamos ao café em 78/79, não sei porquê, talvez porque com a saída da Paula de casa o ambiente se tornara diferente... Mas as coisas corriam sempre melhor fora de casa, os dias passados em casa eram, por norma, sem qualquer alegria. As rotinas, por vezes, eram penosas, sobretudo a partir do dia em que o meu pai foi «dispensado» do trabalho. Enfiou-se dentro de casa, percorria o corredor, para trás e para a frente, saía a determinadas horas para ir beber café, ia, às vezes, ter com o tio António à Baixa, mas não saía disto. Sentava-se a ver televisão e a fumar, de boquilha permanentemente na boca, uma nuvem sempre de volta dele. A mãe chegava do trabalho, a primeira coisa que fazia era ir dar-lhe um beijo na testa, sem resposta, mesmo que estivesse profundamente magoada com ele, e devia estar muitas vezes, nunca deixou de fazer o seu cumprimento. Nunca o vi dar-lhe a mão, um beijo, um carinho, um elogio, nada. Uma secura completa, um vazio... Ela dava-lhe o braço quando andavam na rua, mais nada. Os silêncios eram mais frequentes dos que as conversas, que, normalmente, acabavam mal, com um murro na mesa, com um «a culpa é tua» e depois seguiam-se meses de silêncio. Continuo convencida de que os seus segredos eram tão poderosos que, quando as coisas azedavam a sério, prevalecia a vontade da mãe. Apesar dos gritos, dos silêncios, nunca chegou a agredir fisicamente a mãe. Já eu e a Paula não podemos dizer a mesma coisa. Já referi o voo que fiz por lhe ter chamado urso, mas com quatro anos já não tolerava os seus gritos com a mãe, levei um tal estalo que voei da cadeira ao jantar, lembro-me como se fosse hoje. Nunca lhe perdoei, não pelo voo, mas pela recorrência dos berros. Era  um homem calado, mais  valia que não abrisse a boca, porque quando o fazia era só para magoar, insultar, rebaixar... Raras vezes o vimos rir, quando estava com os irmãos ou com os sobrinhos, sim. Connosco era raro. Era um homem de aparências. Escondido debaixo de um fato feito à medida pelo Lima, vivia um homem com um passado de que não falava, alguém que não tomou decisões, nem em relação aos seus estudos nem ao seu casamento. Deixou que o fizessem por ele. Cheio de rancores, viveu a sua vida a «castigar» os mais próximos, mas sobretudo as mais frágeis, a mãe, a Paula e eu. Porque na menina dos seus olhos ninguém tocava! 
         Enfrentei-o várias vezes, apanhei por isso! Não me arrependo, só me arrependo de não o ter enfrentado mais vezes, já que era para levar, então que fosse por tudo e não só por aquilo que muitas vezes nem entendia. Pontapés, estalos... Mas os pontapés eram mesmo o que mais parecia refletir o desprezo que ele sentia e que, finalmente, acabei também por sentir. Quando batia na Paula e a deixava estendida no chão... Incompreensível! Para! Não lhe bates mais! E a mãe a suplicar! Nada... Só pondo-me à frente, e isso a mãe não fazia. Claro que quem levava era eu, por me pôr à frente, mas, principalmente, por lhe fazer frente... Um monstro. Não era um urso, era mesmo um monstro. Teria continuado com os netos, disse-lhe várias vezes «não lhes bates!», vontade não lhe faltava. Não sabia falar, a violência era sempre mais segura e, seguramente, mais eficaz.
         
                

sexta-feira, 27 de julho de 2018

Recomeçar? Ou começar de novo?

          Já lá vai quase um ano... Já fiz 57! O Zé Pedro morreu logo a seguir! Já fui avó! Já me zanguei mais mil vezes! E não fiz qualquer registo de felicidade, angústia, tristeza. Já fechei o blogue aos olhos de quem me olha de esguelha, sobretudo para ter tempo de pensar no que tenho escrito, feito, sido...
          Este é o meu «diário» que de diário tem sido pouco, mas é o espaço onde relembro e registo o que vivo e sinto. Às vezes a dor é enorme, a escrita alivia-a, mas, apesar de sentir essa enorme vontade de escrever, não sei se partilhar «tudo» neste mundo será o que quero. As minhas «coisas» são, de facto, minhas. Preciso de as escrever. Preciso de as processar, de as pôr em perspetiva. Não sei se as posso dar a ler a quem nada entende, a quem, como eu, faz juízos de valor, sem que consiga, minimamente, entender o que vai no coração e na cabeça de quem sofre mágoas de escola, mágoas de família, e, sobretudo, de uma solidão encapotada, longe de quem mais gosta, do que mais gosta, percebendo que muito dificilmente vai recuperar o que, aos poucos, vai perdendo, a autoestima e o amor próprio.
          Houve cortes profundos, radicais. A família alargada deixou de existir. Deixou de fazer sentido. O corte foi tal que nem sei quem, dos mais velhos, ainda está vivo! Soube que a A., que tanto atormentou a minha mãe, morreu. Soube-o pela Mila que encontrei em Santana, onde ela tem uma casa de férias que conhecemos em miúdas, quando ela deixou de ir para a Várzea. Já do Armando nada sei. O Mário ainda me mandou um sms nos meus 57. Mais nada. A Paula, descaradamente, depois de anos sem uma palavra, ou sequer uma conversa sobre a morte da mãe, contactou-me para fazer o que sempre soube fazer, cravar! Dos meus sobrinhos nada sei... E, assim como assim, não quero saber! Anos de mentiras, intrigas, abusos, manipulação... Chega. Foi tudo demais. A minha mãe teve uma boa dose de responsabilidade nesta tragédia anunciada. Fez escolhas, escolheu proteger uns, porque sim, porque tinha de ser assim, deu no que deu! Imaginou que a vida dela seria na sua casa até morrer com a filha que nunca lhe tinha dado problemas. Dessa nem quero falar... Deu no que deu, um triste fim anunciado, a maior parte do tempo sozinha, em conflito constante, triste, triste, triste! «Fui muito infeliz» disse ela no dia antes de morrer. E foi-o. E todos nós contribuímos em larga escala para essa infelicidade. Eu tenho uma bela quota-parte na coisa. Corrigi muitos dos meus comportamentos nos últimos anos, mas não foi o suficiente para apagar o que nunca poderia ser apagado. Incompatibilidades viscerais minaram as nossas vidas, salvaram-se os netos, os meus filhos, que, apesar de tudo, nunca a rejeitaram e no final foi com eles que a avó pôde contar.
           Olho para mim, não gosto do que vejo. Tenho razões, carradas delas, para inverter este percurso, mas deixo-me ir, engordo descomunalmente, como que para me castigar, porque me estou nas tintas para mim própria, e para muitos dos outros. Depois, vejo-me grega para emagrecer, até porque, como não me olho, nem vejo o estado lastimável a que chego, com a maior das facilidades, a não ser quando vou ao médico e me mandam subir para a balança. Aí... Não há como fugir da realidade, da vergonha, do peso...Fico em casa, escondida, longe dos olhares, dos comentários nas costas e, sobretudo, da pouca correção com que os outros acham que podem tratar quem é «diferente». Mas, convenhamos, só posso queixar-me de mim própria. Deixo-me ir abaixo por dá cá aquela palha, quando devia dar uns bons murros na mesa! Às vezes nem sei bem o que quero. 
            Já me aconteceram coisas inconcebíveis! Receber uma carta anónima foi uma delas! Mas depois quero acreditar no que sempre acreditei, no fundo ficam as dúvidas que nunca se dissipam e acabo por viver com elas todos os dias! E tudo aquilo que eu disse que nunca admitiria vou consentindo, na esperança que os dias sejam bons dias. Mas nem sempre o são. Porque a memória é viva e está sempre presente e, de repente, assalta-me como se eu precisasse de reviver o que mais me feriu... 
         Vim para o Alentejo para nos salvar das más línguas caldenses, de uma perseguição desenfreada à nossa família por alguém que assegurava saber de comportamentos menos próprios... Era a nossa família ou nada... Escolhemos a nossa família, o calor, a distância, a falta do mar, da praia na esperança que tudo passasse... Passaram-se anos... Os filhos saíram de casa, extraordinários! Apesar da minha inconstância, desequilíbrios, bipolaridade, são Pessoas de valores. A mãe dizia que tinham sido educados pelo pai... Por vezes, magoam-me! Oh como! Mas faz parte. Crescemos, com embates, com divergências, com muitas lágrimas e saudades. Mas faz parte.
          Agora sou avó! Tenho uma Matilde. Linda, doce! Longe! Fiz casacos e casaquinhos  à espera que ela chegasse, tal e qual como o fiz à espera da Inês. Conto os dias que faltam para a próxima visita, espero, ansiosamente, pela fotografia do dia, pelas novidades. Gostava de ser uma avó (p)Lena, presente, disponível. Para já, sou uma avó condicionada pela distância e pelo respeito que tenho pela privacidade dos pais. Não quero ser abusadora, invasiva... Seja lá o que isso for! 
           Tenho um longo trabalho pela frente: pôr a minha cabeça em ordem, a partir daí, se a saúde não me falhar, as coisas começam a encaixar umas nas outras. Não vou escrever sobre a escola, é uma angústia e não tenho solução, para já, para o que se aproxima! Em setembro penso no assunto, agora é só mais uma razão para andar deprimida.