quinta-feira, 31 de março de 2016
Mentiras
Nunca fui dada a mentiras, apesar de ter dentes de mentirosa, tinha medo de ser apanhada e se o fosse as consequências eram um problema. Mas às vezes, não era por uma questão de coragem, a mentira era mesmo uma necessidade.
Numa casa onde o «sim» era uma raridade enquanto resposta a um pedido para sair, ir ao cinema, a um concerto, até a casa de algumas pessoas, ou viagens, o mais certo seria um «talvez» que significava sempre «não», uma e outra mentira teriam de fazer o serviço.
Tanto que eu pedi para ir ao concerto dos Genesis, «talvez», claro que não fui, ainda por cima no dia a seguir em parangonas no jornal podia ler-se, «Música, fumo e cheiro a droga», mais uma razão para eu não ter ido. Não fui a esse e a um monte de outros, enquanto toda a gente que era gente ia a tudo e mais alguma coisa, nós ficávamo-nos pela Festa do Avante, porque, normalmente, nos ofereciam as EP e, acima de tudo, porque, supostamente estávamos acompanhadas pelos nossos primos mais velhos (o que nunca impediu valentes pielas e outros excessos).
As restrições eram tantas e tais que cada saída, autorizada ou não, era sempre um desafio à normalidade, havia sempre que ir para além dos limites, do aceitável. Depois eram os horários impostos, às tantas horas com meia hora de tolerância, ou então, porque tinha havido alguma falta de pontualidade, sem qualquer tolerância. Se só podia sair por três horas, entrava e saía de casa tantas vezes que o pai lhe perdia a conta. Mais uma provocação do que outra coisa qualquer, mas irritava viver assim, silêncios alternados com gritos, ordens porque sim, não vais porque não!
Mas, mais tarde, a provocação não ficou sem resposta, nunca ficava, nem de um lado nem do outro. Davam-nos sempre algum dinheiro no Natal para podermos comprar presentes, nunca era muito e tinha de ser bem gerido. Nunca sabia o que havia de dar ao pai, sempre seco, sem nada para fazer ou dizer, já não lia, não ouvia música, andava para trás e para a frente naquele corredor horas a fio. O dia todo fechado em casa ou no carro ao sol, quando estava frio ou quando ia lá a casa uma das tias com quem ele não queria estar. Elas entravam por uma porta enquanto ele saía pela da cozinha. Por vezes saía para ir ter com os irmãos, outras nem nunca soube para onde ia. A casa era sua, entrava e saía quando assim o entendia, não dava cavaco a ninguém, nem se despedia, nem anunciava a chegada. Éramos estranhos. Um dia encontrei-o no regresso a casa no autocarro, o normal seria ir para o lado dele, sair com ele e com ele ir para casa. Mas não foi isso que aconteceu. Mas retomemos aquele Natal, comprei uma agenda. Não sei o que me passou pela cabeça, oferecer uma agenda a quem nada fazia, a quem gastava as solas dos sapatos num corredor andando para trás e para diante. Pois foi logo o que eu lhe dei no Natal. E soube dar-lhe uso, começou a anotar naquelas páginas as horas a que eu entrava e saía e para onde ia. Bem feito!
terça-feira, 29 de março de 2016
Não me apoquentes!
«Professora, o que é apoquentar?», desatei-me a rir! Lembrei-me logo da Mãe, «Não me apoquentes!» Luís, imagina-me a «melgar» insistentemente a minha Mãe. Já imaginaste? Então, aí ela dizia-me, furibunda, não me apoquentes...
E era mesmo assim, se uma dizia branco, a outra dizia creme, cinzento, preto, se era carne, devia ser peixe, se era melhor dormir mais uma hora, eram horas de ir para a mesa, se era domingo, eram horas da missa. Nunca havia um consenso, era uma guerra pegada de manhã à noite. E durou anos, décadas, até 2010, aí, sei lá porquê, a coisa parou. Mesmo enquanto estive doente, havia discussões ao telefone, por tudo e mais alguma coisa, mas sobretudo por causa de uns monstros criados debaixo dos nossos tetos, dos nossos narizes, que cresciam a olhos vistos e eram alimentados diariamente à custa de um sofrimento incomensurável, indescritível, interminável. Tinha sempre uma boa desculpa, os malandros, os fulanos, os coitados... e lá ia mais uma dose de ajuda, para o telemóvel, para jantar fora, o marido fazia anos, para pagar o IMI do mesmo que fazia anos, pois ele não podia, coitado, não tinha trabalho, «vó, não tenho dinheiro para dar de comer à não sei quantas», «vó, não tenho dinheiro para os tratamentos do meu menino, tadinho», vó para cá, vó para lá, «não posso trabalhar, não tenho onde deixar a criancinha»... e por aí fora, sem dó nem piedade, sem apelo nem agravo, dia sim dia sim... Um calvário de décadas. Não se despediram de quem as sustentou a vida toda, não mostraram a mínima consideração por quem tudo fez, o que devia e o que nunca deveria ter feito. Uns monstros. «Eu criei uns monstros...».
Mas o não me apoquentes era para mim, e a maioria das vezes tinha razão para o dizer. Achei sempre que a única forma de me mostrar, de dizer que existia era contrariá-la, «eu não pedi para nascer, o mínimo que podias fazer era dar-me a porcaria do sutiã de que preciso!», «as meias caem-me pelas pernas abaixo, preciso de meias, eu não pedi para nascer, preciso de meias» e o argumento até ia resolvendo a coisa, porque, de facto, precisava das meias, das cuecas e dos sutiãs! Já a outra tinha direito a roupas da Migacho, casacos da Materna (que morriam por falta de uso no armário), calças Levi's (rotas até mais não, que o pai escondia no mesmo armário só para não a ver com aquilo vestido) e tudo o que quisesse, portanto se eu não reclamasse da vida, andaria com as cuecas e as meias a cair, porque era assim, «Não me apoquentes!». Sempre que era confrontada com uma daquelas verdades incontornáveis, a resposta era essa, não havia mais nada para dizer, portanto eu que não a apoquentasse.
Mais tarde, o não me apoquentes já não chegava, então rematava com «não tenho nada para te dizer». Foi a pior fase e não tinha mesmo, porque só falava da outra ou do fulano, e eu também já não aguentava tanta merda. «Mãe, não podes passar a vida a falar dessa gente, eu já não aguento», «Então não tenho nada para te dizer». E como não tinha, houve muitos períodos, longos períodos de um silêncio gritante. E se ia a Lisboa, não a ia visitar, e deixei de lhe falar várias vezes, ainda me descompôs na minha última gravidez, e por outras razões que nunca o foram. Sempre maldisposta, sempre amarga, transtornada, alterada, irreconhecível com as suas fúrias incontroláveis, «Mãe, está uma senhora vestida de preto na casa de banho!», «Ó filho, é a avó!». «É esta a imagem que queres deixar aos teus netos?», «Eu quero lá saber da imagem que deixo aos netos, não me apoquentes!»
Mas no fim, foram estes netos que a acompanharam, «não guardei os teus filhos para isto», «Pois, Mãe, mas é para isto que a família serve!», cada vez que eles chegavam a Mãe esticava as mãos para lhas dar e ficava de mão dada, sem largar, até ser substituída por outra mão que chegasse. «Olá, Vó!», e esticava os braços, sem falar, e agarrava-se a eles com toda a pouca força que ia tendo...
Ninguém se esqueceu do mau feitio, das amarguras, dos gritos, dos comentários desagradáveis, mas lembramos sobretudo as gargalhadas, as piadas que não compreendia, as politiquices, o ódio visceral ao Cavaco e a todos os malandros, as manhãs passadas no Parque de Santa Marta na Ericeira, ou nos Navegantes, o café, os pastéis de bacalhau, o carapau grelhado ou o peixinho frito, as Línguas de Veado, os Suspiros, os Babás, os seus pequenos grandes prazeres.
segunda-feira, 28 de março de 2016
Pascoela
A segunda-feira logo após a Páscoa é chamada Pascoela.
Diga-se o que se disser, essa é que é essa, hoje é Pascoela, dia de almoço no campo, dia de festa para tantos e tantos, por esse Mundo fora, feriado em França, na Bélgica... E a Mãe morreu na Pascoela, faz hoje, portanto, um ano. A data será sempre um registo oficial, 25-03-1923/6-04-2015, mas foi na Pascoela de 2015, um dia frio, cinzento, chuvoso, de trovoada, um dia triste depois de um domingo de Páscoa cheio de sol, «Mãe, podes descansar, hoje é dia de Páscoa, está um dia lindo, cheio de sol, podes descansar...» e assim foi, na Pascoela já descansava, finalmente, na paz do Senhor. Diz-se que quem morre na Páscoa tem as portas do Céu abertas, mesmo assim, a sua chegada ao Céu foi anunciada por uma tremenda trovoada, tenho a certeza de que queria que soubéssemos que já lá tinha chegado sã e salva.
sexta-feira, 25 de março de 2016
Da Inês...
Querida Avó Locas,
hoje no dia em que fazia 93 anos, agradeço-lhe por me ter ensinado a trilhar o caminho do bem, pelas mãos dadas, pelos mimos, pelas histórias, pelas conversas infinitas sobre "aqueles malandros", pelas manhãs à mesa e pelas tardes na cozinha mas acima de tudo obrigada por ter lutado, com muita garra, contra o tempo, contra a saudade, contra a doença, contra a indiferença e contra o cansaço dos anos.
Obrigada por ter sido uma avó cheia de paciência, uma avó muitas vezes alegre, que a todos serviu.
Obrigada por tudo!
Até já, querida Avó!
Mãe, hoje falamos de fulanos, malandros, vamos rir, se calhar, chorar com pastelinhos de bacalhau e arrozinho de tomate! E vêm todos!
quinta-feira, 24 de março de 2016
terça-feira, 22 de março de 2016
segunda-feira, 21 de março de 2016
Arte Poética, Adília Lopes, Dia Mundial da Poesia
Arte Poética
Escrever um poema
é como apanhar um peixe
com as mãos
nunca pesquei assim um peixe
mas posso falar assim
sei que nem tudo o que vem às mãos
é peixe
o peixe debate-se
tenta escapar-se
escapa-se
eu persisto
luto corpo a corpo
com o peixe
ou morremos os dois
ou nos salvamos os dois
tenho de estar atenta
tenho medo de não chegar ao fim
é uma questão de vida ou de morte
quando chego ao fim
descubro que precisei de apanhar o peixe
para me livrar do peixe
livro-me do peixe com o alívio
que não sei dizer
Adília Lopes, in Um Jogo Bastante Perigoso
Escrever um poema
é como apanhar um peixe
com as mãos
nunca pesquei assim um peixe
mas posso falar assim
sei que nem tudo o que vem às mãos
é peixe
o peixe debate-se
tenta escapar-se
escapa-se
eu persisto
luto corpo a corpo
com o peixe
ou morremos os dois
ou nos salvamos os dois
tenho de estar atenta
tenho medo de não chegar ao fim
é uma questão de vida ou de morte
quando chego ao fim
descubro que precisei de apanhar o peixe
para me livrar do peixe
livro-me do peixe com o alívio
que não sei dizer
Adília Lopes, in Um Jogo Bastante Perigoso
domingo, 20 de março de 2016
Do Lycée para o Liceu
E o martírio continuou por mais três anos, em duas fases, 4ª classe e o Ciclo preparatório, 1º e 2º anos. Basicamente, foi mais do mesmo, menos os estalos da Madame C. Eram outras as Madames, mais comedidas, menos amargas, mas as miúdas eram as mesmas, o ambiente o mesmo, por isso o desapego cada vez maior. As viagens as mesmas, os viajantes também, assim como os enjoos das quartas-feiras e suas inevitáveis consequências. Quero sair desta porcaria de liceu, estou farta disto, desta gente, destas olheiras, fruto de noites mal dormidas e alvoradas às 6.30h da manhã, que ainda hoje carrego. Entretanto o maio de 68 chegou a Lisboa, tarde mas ainda a tempo de mudanças. As fardas tiveram o seu fim, chegaram as calças à boca de sino, as mini-saias, as golas e as botas altas. As modas citadinas dos anos 70 chegaram com todo o seu esplendor ao liceu. Logo a seguir, abriu o D. Diniz em Chelas e eu fui estreá-lo no ano letivo 72/73. O primeiro liceu oficial misto de Lisboa, um misto à medida dos tempos de mudança moderada, os rapazes de manhã, as miúdas de tarde, 6º e 7º anos, os crescidos, esses sim em turmas mistas de manhã e de tarde, até ao sábado. Uma experiência muito pouco agradável, tendo em conta que mais ninguém lá em casa tinha aulas ao sábado. Mas não houve período mais feliz da minha vida, os primeiros tempos do D. Diniz, Liceu Nacional de D. Diniz, hoje com s. As minhas primeiras impressões fora daquele outro mundo... Eu, só eu, não era a irmã de ninguém, nem a prima do esquimó, era eu na minha bata branca, pasta preta, as primeiras amizades, as pessoas normais, as boleias da Sofia com o Rolim, o motorista, o chauffeur dos G. Viana, as idas a pé para as aulas e para casa com as «colegas», atravessar aquela imensa rua crivada de motards, de um lado e do outro, que esperavam as miúdas à saída das aulas, a quinhentos metros da escola! Motas sensacionais, rapazes grandes e giros à espera delas. Mas as mudanças seriam ainda mais e maiores nos anos seguintes.
domingo, 13 de março de 2016
Os meus mortos
Já mencionei o suicídio da mãe de uma miúda do Liceu, foi o meu primeiro contacto com a morte. A seguir foi a do Rigoletto. Pouco tempo depois foi o Sr. Jorge, funcionário da portaria do Liceu que, à falta de um cabeça de giz, controlava o trânsito na avenida, os carros, os autocarros e a miudagem que atravessava aquela avenida perigosíssima de onde vinham os carros desembestados acabados de sair do viaduto Duarte Pacheco. Morreu em serviço a proteger as crianças.
Também já referi que deambulava pelo Liceu entre as 8h e as 9h, hora a que as aulas da primária portuguesa começavam no Anexo. Mas antes dessa deambulação havia um ritual, telefonar para casa do tio Zé que estava doente. Pedia à Madame Lampreia para fazer a chamada e falava com a tia que nunca foi. Tantas foram as chamadas que fui chamada ao diretor Cardoso para dar uma explicação. O meu tio estava muito doente e eu queria ter notícias! Aí o diretor falou com a mãe que ficou a saber que, sem exceção, todos os dias ligava para casa do tio Zé, até ao dia da sua morte. Mas porquê? perguntava a mãe! Porque sim, porque talvez tivesse má consciência por um dia lhe ter falado muito mal, porque ele fez chorar a mãe... Dois dos meus tios a fizeram chorar, um deles ficou para sempre fora da nossa vida. O outro não, continuámos a ir ter com ele todos os sábados à farmácia, mas eu ia de trombas e acabei por deixar de ir. Porquê?, porque fizeste a minha mãe chorar. Éramos as únicas a ir visitar aquela tia que nunca o foi, nem sei o seu nome. Querem lanchar? Quero um chá da mãe e bolachas Maria, era sempre o meu lanche quando íamos visitar aquela senhora que teve um filho do meu tio mas com quem nunca chegou a casar. Ninguém a respeitava, ninguém a visitava, ninguém lhe falava, não havia cerimónias familiares para que fosse convidada, era uma não-tia, não-cunhada, não-pessoa. O filho deles já tinha morrido há muito tempo, chamava-se João, como o pai, morreu doente. O meu tio Zé andava sempre vestido de preto e tinha uma boina também ela preta, tinha sido anarquista em novo e isso tinha-lhe custado a audição de um dos ouvidos ao transformar um chapéu de chuva numa espingarda, a experiência correu, obviamente, mal. Dedicou toda a sua vida à farmácia de um dos tios proscritos, de cuja existência só soube mais tarde, aquele que era pai da minha madrinha, que nunca o foi, e que prometeu ao meu pai que a farmácia seria um dia dele se estudasse Farmácia e se fosse o seu Diretor-Técnico, o que, muito contrariado, acabou por fazer. O que não aconteceu foi o meu pai ter ficado com a farmácia, mas a palavra de uns, por vezes, de nada vale. Por isso, quando o tio Zé morreu, nunca mais soubemos nada da tia que nunca o foi, o pai foi buscar alguns remédios à farmácia, cortesia do outro dos tios proscritos, e da farmácia nunca mais ouvimos falar.
Pouco tempo depois, morreu o meu avô Luís. Fomos à missa de sétimo dia lá nos Olivais. A tia Lourdes estava grávida, nunca mais esqueci aquela fatiota que se usava na altura, calças e «blusa» de malha. Estávamos no outono, na primavera nasceu a Catarina. Um ano depois, na véspera do seu primeiro aniversário, morreu no colo da minha tia, a caminho do hospital com uma meningite. A tia nunca mais foi a mesma, nem ela nem ninguém...
Anos mais tarde, já depois de abril de 74, melhor dizendo, em 75 quando andávamos todos em pé de guerra, o pai foi chamado a Madrid para lhe anunciarem que ao fim de mais de vinte e cinco anos de trabalho na Lilly o dispensavam com uma indemnização. Foi então pedido um qualquer favor ao tio proscrito e mandaram-me ir lá a casa. Toquei à porta, veio abrir a minha tia, irmã da minha mãe, casada com o tio proscrito, irmão do meu pai. Não saí da porta, não entrei em casa, o tio nem veio ver-me. Gente boa e muito educada... Depois, pouco tempo depois, ele morreu. E logo a seguir, um ano depois, foi a vez dela e a seguir o outro tio proscrito.
Foi uma época de mortes, quando fomos para os Olivais, falava-se daquele que se tinha atirado do terraço do prédio da frente, aquele que, mais tarde, seria o Monte, o irmão do Topa, quando andava de biciclete, caiu e morreu, o Ricardo num desastre de mota no Algarve, o Bicos que se envenenou, o outro que se enforcou na fita do estore... Foi horrendo, eram umas atrás das outras, depois começaram a desaparecer com overdoses, tantos que lhes perdi a conta. Tantos que nos fomos habituando a considerar aquelas mortes como naturais. Depois foi a vez do meu sobrinho, o segundo filho da minha irmã. Uma tragédia, não sei se anunciada.
Já não tenho tias, tios, o pai morreu em 84, a minha querida Noca em 2009, e a mãe no ano passado.
Ontem preenchi o meu testamento vital, apesar de já o ter comigo há uns tempos. Faltam-me os dados dos meus filhos para o ir entregar e deixar, bem claro, que a mim nunca me farão o que fizeram à minha mãe.
sábado, 12 de março de 2016
quarta-feira, 9 de março de 2016
A febre de malta
Depois da Páscoa doíam-me os joelhos. Era uma dor constante, permanente. Levava o tempo a queixar-me, mas não me ligavam nenhuma, até que um dia a mãe apareceu em casa com uma almofada verde, podia ser que assim eu parasse com os queixumes. Mas qual quê! As dores não passavam. Aí a mãe pensou que talvez eu tivesse razão para me queixar, coisa em que o pai nunca acreditou, achava-me fiteira, poucas vezes me levava a sério. Mas lá fui ao médico, ou melhor, lá foi o médico a casa, análises e resultado: febre de malta, a chamada brucelose, parece que causada por um queijo fresco, artesanal, que eu tinha comido na Várzea, na Páscoa.
O Dr. Pecegueiro, o médico que me acompanhava, era um simpático, atencioso, explicou-me que teria de ficar de cama, que teria de fazer muitas vezes análises e que uma enfermeira iria lá a casa fazer esse serviço, entretanto o pai teria de ver a febre com regularidade e fazer os registos para se poder avaliar a evolução/regressão da doença. Nunca tinha visto o meu pai assim, também nunca voltei a ver. De roda de mim a toda a hora, a fazer gráficos com os registos da febre, com horas, dias, tudo ali nos trinques para os mostrar ao médico.
Cada vez que a enfermeira lá ia a casa era uma festa, gritava só de ver o tamanho da p... da seringa! Gritava tanto que a nossa vizinha de cima ia lá abaixo ver o que se passava. Convenhamos que uma seringa daquelas metia medo a qualquer um, e, francamente, devia haver agulhas menos grossas para enfiar no braço de uma miúda franzina de oito anos! Depois de tanta gritaria, mudaram a criatura que lá ia a casa, passou a ir um enfermeiro com umas seringas bem mais pequenas assim como as agulhas, e a miúda acomodou-se, porque também não havia nada a fazer.
Os pais trabalhavam, as irmãs tinham aulas, por isso fiquei em casa sozinha e doente durante um tempaço. Ia, de vez em quando, lá acima a porteira, a Senhora Margarida, uma alentejana de Alcácer do Sal, que se tornou uma espécie de extensão da casa. Fazia de tudo, arranjos de costura, passava a ferro, ia às compras, tomava conta de nós e de quem vivesse no prédio e precisasse de ajuda. Quando precisávamos dela, tocávamos no trinco do telefone do prédio e falávamos com a Senhora Margarida. Foi então ela a minha guardiã na doença. Ia lá de manhã, de tarde, assegurava-se que eu estava bem e deixava-me com os meus lápis de cor e com os poucos livros que tinha. Ao fim de algum tempo, farta de estar sozinha, de cama, doente, comecei a achar que aqueles prédios que estavam em construção ao cimo da rua, baixinhos e de aspeto simpático, seriam o local ideal para mim, era ali que eu gostava de morar. Então, fui buscar um saco de plástico, das compras, daqueles que eram usados, lavados, estendidos como uma peça de roupa, para serem reutilizados, enfiei lá as minhas coisas, não eram muitas, obviamente, já que só enchiam um saco, e encostei-o à parede, atrás da porta do quarto. Quando a mãe entrou, perguntou-me o que era aquilo e eu respondi que quando estivesse boa ia morar para aquele prédio ali ao fundo...
As vozes e o escuro
Quando era pequena, mesmo pequena, cresciam-me vozes na cabeça, não sei explicar melhor do que isto. Elas começavam como sussurros e iam crescendo, em gritos, até se tornarem insuportáveis. Lembro-me de segurar a cabeça com as mãos nas orelhas, mas o som ainda se tornava mais abafado, mais audível, mais ensurdecedor. Em desespero punha o gira-discos a tocar, fechava os estores da sala e encolhia-me toda na mais profunda escuridão à espera que as vozes se calassem. Acabava, eventualmente, por adormecer e as vozes desapareciam. Era mínima, incapaz de explicar o que sentia, acho que nem nunca tentei. Nunca ninguém entendeu o porquê da escuridão em que me iam encontrando, quando a mãe chegava do trabalho e me encontrava assim na sala, desatava a barafustar comigo, a mãe nunca fechava os estores e detestava estar às escuras. Nem valia a pena tentar explicar. Depois eram as idas infindáveis à casa de banho, sempre cheia de vontade de fazer xixi, deitava-me, levantava-me, casa de banho, cama, casa de banho... até à exaustão. Nada que não fosse resolvido com Atarax, abençoado! E passou. De repente as vozes sumiram, deixaram de me atazanar.
terça-feira, 8 de março de 2016
A parte francesa vs a parte portuguesa
Percorria-se um caminho ladeado de árvores, canteiros com flores para se chegar ao limite do edifício onde ficava o ginásio e a 12ème. Havia duas salas, contíguas e com uma porta a separá-las. A maior humilhação era, quando nos portávamos mal, ir de castigo, virados para a parede no «coin» da outra sala, não da nossa. Era insuportável, calhou-me isso uma vez, depois de ter pregado um estalo num imbecil que resolveu tirar-me a cadeira quando me ia sentar. Claro que fiquei no chão, mas no imediato ele não se ficou a rir. Talvez mais tarde...
O nosso recreio não era o mesmo que o dos «grandes», estávamos resguardados. Foi lá que tirámos as fotografias com os fatos lindos em papel que fizemos, com pedraria colada, enfeites para a cabeça, tudo «comme il faut» para a festa de Natal, uma dança à maneira ao som do «Minuet» de Boccherini. Um espetáculo, memorável, guardado como uma relíquia nas minhas memórias. Eu e o meu companheiro inseparável, o Toninho Coelho, um miúdo lindo, querido e meu amigo, o primeiro.
Depois 11ème, pequenos, muitos, A entrada no edifício obedecia a normas muito claras, fazíamos uma fila, dois a dois à frente das janelas correspondentes à nossa sala, no rés do chão. A professora encaminhava-nos, então, para a sala de aula. O almoço era na cantina, à sexta sempre peixe, mas havia a compensação de um biscoito em forma de um paralelepípedo comprido, grosso, que acompanhava um iogurte. A minha irmã mais velha nunca soube o que era comer peixe na cantina, davam-lhe dinheiro para ir com as amigas comer bitoques... Depois havia a hora da sesta, corriam-se as cortinas pretas de flanela e deitávamo-nos sobre a mesa a descansar. E os dias repetiam-se sem grandes embates.
10ème, A. Gomes, a professora que nos dava Português à tarde, penso que não seria todos os dias, mas não me lembro. Lembro-me, sim, que não achei muita graça, depois de ter feito um trabalho sobre o bairro para onde eu tinha ido morar, feito com amor e carinho com a preciosa ajuda da mãe, ao comentário que não teria sido eu a autora do trabalho. Ainda hoje o guardo: capa e contracapa em cartolina encarnada, com umas folhas pautadas preenchidas com fotografias de um bairro em início de vida, legendadas com tinta permanente. O remate «mais lindo» era a fita que atava as folhas, uma daquelas de embrulho que havia na altura, com uns fios de aço para dar consistência e as letras desenhadas a dourado. O pai tinha umas coisas que funcionavam como decalcomanias com as quais se escrevia a ouro. O máximo, aos olhos de uma miúda de sete anos que não achou nada bem aquele comentário. Deve ter sido por essa e por outras que me decidi a sair da parte francesa, queria fazer como as minhas irmãs, ter aulas no anexo, por que havia de ser diferente? Seria preciso um exame de admissão. Está bem! Qualquer coisa para ir para a parte portuguesa! Ia perder os meus colegas, amigos, o Toninho! Não faz mal. Eu quero. E queria mesmo...
Mal sabia eu o que me esperava. A A. Gomes ao pé da Madame C. era um anjo. Nunca conheci ninguém tão amargo como aquela senhora. Naquele liceu não era permitido bater nos alunos, éramos repreendidos pelos surveillants, surveillant-général, pelo proviseur, pelo diretor, íamos para o canto, virados para a parede, mas um estalo, uma palmada? Nunca. Perguntem lá se com aquela senhora era assim? Levávamos todos os dias, estalos na testa, sabes? Toma! Não sabes? Toma. Sabias e não disseste? Então toma, podias ter evitado que as outras levassem... Vi uma a ser arrastada pelos cabelos até à casa de banho, ouvia-se o autoclismo a correr sem parar e os gritos da desgraçada, que nada tinha feito ao chegar à sala depois do almoço. A outra que fazia coleção de lápis, borrachas e afias, quando entrava a pasta dela chocalhava por todo o lado. Um dia, mal entrou, viu a pasta despejada no chão, tudo espalhado pela sala, lágrimas, humilhação, gritos, vergonha...
Uma vez, estava a brincar, vi-a a vir, fui a correr para dentro e avisei a turma da sua chegada. Levei um par de estalos. Sabes porquê? Sei. Nunca soube... Mas não dei parte fraca.
As minhas aulas começavam às 9h, íamos numa das muitas camionetes do liceu, saía da porta do nosso prédio às 7h, éramos as primeiras a entrar, depois íamos aos Olivais Norte, Encarnação e percorríamos o resto do trajeto a recolher a miudagem toda até chegarmos às 8h ao Liceu. Ficava uma hora a deambular por aquele espaço que era cada vez menos meu. Um dia, com uma das amigas, andava pelo campo de jogos, do outro lado lá estava o animal do meu primo com um dos seus amigos. Claro que dali só podia vir merda e veio! Começaram à pedrada e no foge que foge a pobre criatura que estava comigo apanhou com uma pedrada em cheio na cabeça. Cabeça partida, claro, e eu um estalo, o que estavam ali a fazer? Não sei se aqueles dois foram castigados, cobardes como eram, cavaram a sete pés, deixando a desgraçada da miúda cheia de sangue.
Já por essa altura estava farta daquele liceu, queria sair dali! Por favor, não quero mais isto, detesto aquela gente, detesto andar no Liceu. As minhas irmãs nunca se chegavam a mim, só a mais velha é que ia ter comigo no fim das aulas de culinária, patrocinadas pela Vaqueiro, porque sabia que eu nunca comia os bolos que fazíamos, eu só gostava de pão-de-ló, nem tocava nos outros, por isso, religiosamente, ela e as amigas lá estavam à espera dos docinhos.
No regresso a casa havia dois horários de saída, às 4.30h e às 5.30h, só este permitia viagem de camionete até casa, quando era às 4.30h, ficávamos no «Relógio» e ou o pai nos ia buscar de carro ao «Relógio» ou íamos de autocarro, no 10. A maioria das vezes íamos às 5.30h, aí era ver as minhas irmãs a correr rua abaixo, aflitas, sempre, para fazer xixi... E chegavam sempre tarde demais, era sempre no elevador que a desgraça acontecia! Lá ia a mãe de balde e pano lavar chão!
Uma vez, estava o meu pai fora de Lisboa em trabalho, (quando isso acontecia, muitas vezes, o carro ficava com o meu tio A.) a Madame C. num dos seus ataques de fúria, fez-nos perder a todas as inúmeras camionetes que faziam fila à porta do Liceu, de uma ponta a outra do edifício. Tirando aquelas cujos pais as iam buscar, todas as outras, eu incluída, ficaram em terra, sem transporte. Lá telefonei para casa, o tio foi buscar o carro e lá me foi buscar. Horas de espera, porque uma megera sem sentimentos de gente usava e abusava do seu estatuto de mulher enjeitada que descarregava dia sim dia sim em cima de um monte de miúdas.
O martírio com essa senhora só acabaria no ano seguinte. Na 3ª classe tive «febre de malta» e fiquei de cama três meses. O 3º período foi o princípio das minhas férias.
segunda-feira, 7 de março de 2016
O Avô Luís e os «devoirs»
Já instalada na casa nova, mas ainda na parte francesa do Liceu, recebi a visita do único avô que conheci, o Avô Luís, figura peculiar, gordo, muito gordo, bonacheirão e simpático. Lembro-me muito bem dele, apesar de só guardar na memória poucos momentos com ele. O Avô na Moita, muito vagamente, na João XXI, essa ida aos Olivais, uma viagem com almoço à Praia Grande, em pleno inverno com as ondas gigantescas que destruíam, todos os anos, a piscina do hotel, e um telefonema estapafúrdio, já em plena demência, à procura da minha mãe, se ela lhe teria telefonado, pouco tempo antes de morrer.
Estava então na casa nova, no meu quarto, com o Avô à espera do jantar. Perguntou-me se eu não tinha trabalhos da escola para fazer, ao que respondi, prontamente, que não. Então, deixa lá ver o teu caderno. Está bem, muito orgulhosa do meu caderninho muito bem organizado, contas a lápis, escrita a tinta permanente, com os devidos borrões a manchar aqui e ali aquelas páginas. Então, o que é isto? O quê, Avô? Isto: «devoirs»? Não sei!
sábado, 5 de março de 2016
O piano
- Sabes, Arlette, quando nasceste a mãe chorou muito, lembro-me da mãe a chorar muito nas escadas. Tinhas uns caracolinhos... Tinhas muito jeito para a música, querias tocar piano, mas nós não tínhamos um piano. E também não havia lugar em casa para o piano.
- Sim, mãe. Sou a Lena. Não sou a Arlette.
- Eu chegava a casa do trabalho e via a A. a sair daqui. Ela vinha cá quando eu não estava em casa...
Pronto, está explicada a questão do piano.
Em trânsito...
Ainda na casa velha, assim denominada desde sempre, lembro-me, especialmente, de um banho, aquele depois de uma queda monumental na Boca do Inferno, naquelas rochas medonhas, numa correria desenfreada atrás das minhas irmãs... penso que esse terá sido sempre o meu mau fado! Escavaquei-me toda, «parti os queixos» era o que me ocorria dizer, e estive muito maltratada durante muito tempo. Nessa queda «ganhei» a minha primeira cicatriz, no lábio inferior, do lado direito. Mas retomemos o banho, encarnado de tanto sangue que aqueles joelhos deitavam, cheio de lágrimas misturadas com as dores no corpo e na alma. Quando as feridas começaram a sarar, parecia-me que as crostas eram feitas de amendoim, tal eram grossas, duras e bicudas como os amendoins partidos, como aqueles restos que me ficavam nas algibeiras da bata azul quando ia às máquinas de moedas que havia no recreio enchê-las daqueles frutos secos e apetitosos.
Recordo ainda o suicídio da mãe de uma colega nossa do Liceu Francês, foi a primeira vez que ouvi tal palavra, a dor de toda uma escola, o horror de saber que havia gente que, sabia lá eu porquê, se matava, deixando os filhos na maior das tristezas.
E houve aquele dia, cheio de sol, em que fomos ver a casa nova, subimos ao 5º Esq. De lá via com todo o seu esplendor o Tejo! Os Olivais estavam a crescer mas ainda não havia prédios que tapassem aquela vista. O sol dava naquele lado do prédio de manhã, era o último andar e lembro-me, como se fosse agora, de a mãe dizer «Aqui só os passarinhos nos vão acordar!». Não sei o que se passou, mas fomos parar ao 3º Dtº. Não que me tivesse incomodado, mas aquela vista e o sol da manhã ficaram-me sempre atravessados. Acabaram por ir para o 5º Esq. as Coutinho, três miúdas queridas, filhas de uns pais queridos.
E depois chegou o dia da mudança. Cada uma tinha o seu quarto, ainda havia o quarto para a Floripes, a nossa Maria. Três casas de banho! Janelas grandes. Uma cozinha onde se podia correr e um corredor que atravessava toda a casa, o quarto da do meio, o da mais velha, o meu e desembocava no dos pais. Dava para fazer tudo ali, andar de patins, subir às paredes e saltar para o chão, andar à bulha... Não havia muita coisa para levar. Os nossos quartos só tinham os tais divãs, mais tarde substituídos por camas de ferro. Lembro-me dos ecos da casa vazia. A sala e a casa de jantar foram arrumadas e mantiveram essa arrumação a vida toda da minha mãe. Entre um espaço e outro colocou-se um armário em mogno envernizado, com portas de vidro, onde iriam ser organizados os imensos volumes da Enciclopédia Portuguesa-Brasileira que vinham da casa velha. Claro que fui eu que os arrumei até à altura em que me saltou de um dos volumes uma barata. Santo Deus, aquilo é que foi um susto, gritei desalmadamente, mas foi a última vez que vi tal bicho dentro de qualquer uma das minhas (futuras) casas.
Nessa altura já andava na formação musical da Gulbenkian e ainda estava na parte francesa do Liceu. Não sei por que razão não me deixei ficar quieta! Estava na 10ème, o equivalente à 2ª classe, tinha uma professora que adorava. A mãe ia buscar-me ao liceu para irmos para a Gulbenkian que, entretanto, iria entrar em obras, o que me desalentou (imagine-se) e pior do que isso, não havia vagas para piano, que era o que eu mais queria! Só para violino. As mais velhas não perderam tempo, «vais ficar com a cabeça à banda!», ora não bastava ser a mais pequena, franzina, morena de olhos castanhos, o próprio fósforo queimado, ao pé de duas loiras de olhos azuis e verdes, ter umas orelhas saídas e não ser nem a preferida, nem do pai, que já tinha o coração tomado pela mais velha, nem da mãe que tomou para si as dores da do meio, ainda tinha de ficar com a cabeça à banda? Não, violino não. Ou piano ou nada. Então ainda se pôs essa possibilidade, mas era preciso ter um piano. A A., inimiga visceral da mãe, por razões perfeitamente aceitáveis, ofereceu-se para me dar o piano dela. Ninguém o usava e assim o problema deixava de o ser. Qual quê? Um piano vindo dali? Nunca, até porque não havia espaço, claro que não, a arrumação da sala estava feita para a vida, não era a vontade de um pingente encardido que ia fazer a diferença... E não fez. Abandonei a música e pronto.
sexta-feira, 4 de março de 2016
Rua Morais Soares, 58, 1º Esq, telf: 836883
Duas entradas para uma casa escura, quartos interiores sem janelas, uma varanda para a rua com uma tabuleta «Dr. Joaquim Martins, Cirurgião» pertença de uma sala com mobiliário em pau-santo, escuro, uma marquesa, sala essa de acesso restrito ou proibido. À entrada, uma mesa com um telefone, um telefone que precisava de moedas de cinco tostões para trabalhar. Punha-se a moeda numa cavidade que se cobria com um mecanismo que a empurrava e a deixava cair num recetáculo. Depois era só ir lá buscar a moeda e fazer mais uns quantos telefonemas «sem pagar» para as contas nunca darem certo. Um quarto ainda mais escuro do que os outros, arrumado a meio do corredor, do lado esquerdo de quem entra. O quarto das Marias, porque eram todas simplesmente Marias, mesmo que não o fossem. Uma cama estreita, uma mesinha de cabeceira com o candeeiro e um roupeiro ao fundo. Ainda uma casa de banho com uma janela que dava para um saguão, um quintal onde morava o Rigoletto, com umas escadas de ferro que cheiravam a ferrugem, um vizinho chamado Tony que comia pão com banana ou com tulicreme, mas sempre apelidado de Toddy por dificuldades de articulação. Mais uma sala estreita, também ela com uma varanda que enfeitávamos com colchas coloridas em dias de procissão, com o teto de estuque com desenhos, onde via televisão, as touradas e o folclore da minha infância enquanto comia, deliciada, mioleira(!), sentada na cadeirinha alentejana, encarnada, à mesa, aquela de madeira que se abria e fechava como uma mala (hoje em dia nem mioleira nem touradas!). Não sei se foi nessa sala que voei, literalmente, depois de ter chamado urso ao meu pai, terei voado com razão, mas o nome ter-lhe-á ficado assente que nem uma luva. Talvez o nosso quarto fosse nessa sala, há alguma confusão nos espaços que eu consigo recordar. Três divãs que se abriam à noite e que se recolhiam durante o dia para dar lugar a outro espaço, penso que o das refeições.
O quintal era o meu lugar preferido, desde que o animal do meu primo João não estivesse lá, pois adorava fazer xixi para cima de nós! O cheiro da ferrugem era insuportável, mas o Rigoletto estava lá e isso chegava-me. A cozinha dava para o quintal, por isso havia luz, era o lugar cobiçado pelo gato Rigoletto que, em podendo, subtraía tudo o que podia. Daí, quando um dia soubemos da sua morte, a minha mãe não se apoquentou nem um pouco.
Depois havia o consultório, um local solene, onde se tiravam as falhas das pernas, ganhas nos fabulosos escorregas dos parques, ou onde íamos tratar das mazelas que íamos arranjando, como daquela vez em que eu estava com o lápis na boca e que aquela extremidade de latão que cobria a borracha se enfiou no céu da boca, deixando-me com um bocado de «carne» pendurada e que foi preciso cortar.
Mas do que não consigo esquecer-me é das baratas. Montes de baratas, em fila, em trânsito à porta da cozinha. O ódio, o asco, a repulsa que sinto por essas criaturas é tal que ainda hoje me enojo quando vejo uma.
Depois havia a rua, o café da frente onde comia as saborosas sandwiches de manteiga (as minhas irmãs comiam de queijo ou fiambre) e os deliciosos rebuçados da Heller, à vista naqueles frascos gigantescos nos respetivos expositores. Havia ainda a padaria das vianinhas e das arrufadas e uma loja onde a mãe me comprou um conjunto de camisola e casaco cor-de-rosa que eu adorava e estimava por ser o único que tinha.
Ao cimo da rua ficava o centro vacinação, detestava lá ir, mas gostava dos cubos de açúcar que me davam depois de engolir aquelas gotas horrendas que nos enfiavam goelas abaixo. Perto, do outro lado da rua, ficava a Praça Mouzinho da Silveira onde morava o meu tio preferido, o meu padrinho. Às vezes ia lá dormir, era o meu programa favorito, mas tinha de levar comigo o Cenoura e o Atarax, sem eles nada feito, a minha adição estava traçada... Lá ia o tio rua abaixo buscar-me as cenas, normalmente o Atarax, o Cenoura era o meu amigo inseparável, o meu primeiro peluche dado pelo meu pai, que ainda hoje guardo, escondido, para que não se «extravie»!
Lembro-me dos bitoques e das lambretas na Soberana, mas também das baratas que circulavam por cima das nossas cabeças nos candeeiros daquele espaço.
Poucas memórias tenho das minhas irmãs nesse tempo, lembro-me de a mais velha, porque sim, como sempre foi, me bater com uma colher de pau, e da outra pouco ou nada ficou.
Com quatro anos fui para o Liceu Francês, chorei o dia todo no primeiro dia, fiquei íntima do Toninho Coelho, que, como eu, chorava baba e ranho, e depois a coisa passou até chegar à 3ª classe, quando decidi mudar para a parte portuguesa, já depois de nos termos mudado para os Olivais, para a Rua Cidade de Moçâmedes, lote 256, 3ºDtº, telf: 314350.
terça-feira, 1 de março de 2016
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