quarta-feira, 9 de março de 2016

A febre de malta

       Depois da Páscoa doíam-me os joelhos. Era uma dor constante, permanente. Levava o tempo a queixar-me, mas não me ligavam nenhuma, até que um dia a mãe apareceu em casa com uma almofada verde, podia ser que assim eu parasse com os queixumes. Mas qual quê! As dores não passavam. Aí a mãe pensou que talvez eu tivesse razão para me queixar, coisa em que o pai nunca acreditou, achava-me fiteira, poucas vezes me levava a sério. Mas lá fui ao médico, ou melhor, lá foi o médico a casa, análises e resultado: febre de malta, a chamada brucelose, parece que causada por um queijo fresco, artesanal, que eu tinha comido na Várzea, na Páscoa. 
         O Dr. Pecegueiro, o médico que me acompanhava, era um simpático, atencioso, explicou-me que teria de ficar de cama, que teria de fazer muitas vezes análises e que uma enfermeira iria lá a casa fazer esse serviço, entretanto o pai teria de ver a febre com regularidade e fazer os registos para se poder avaliar a evolução/regressão da doença. Nunca tinha visto o meu pai assim, também nunca voltei a ver. De roda de mim a toda a hora, a fazer gráficos com os registos da febre, com horas, dias, tudo ali nos trinques para os mostrar ao médico. 



            Cada vez que a enfermeira lá ia a casa era uma festa, gritava só de ver o tamanho da p... da seringa! Gritava tanto que a nossa vizinha de cima ia lá abaixo ver o que se passava. Convenhamos que uma seringa daquelas metia medo a qualquer um, e, francamente, devia haver agulhas menos grossas para enfiar no braço de uma miúda franzina de oito anos! Depois de tanta gritaria, mudaram a criatura que lá ia a casa, passou a ir um enfermeiro com umas seringas bem mais pequenas assim como as agulhas, e a miúda acomodou-se, porque também não havia nada a fazer. 
           Os pais trabalhavam, as irmãs tinham aulas, por isso fiquei em casa sozinha e doente durante um tempaço. Ia, de vez em quando, lá acima a porteira, a Senhora Margarida, uma alentejana de Alcácer do Sal, que se tornou uma espécie de extensão da casa. Fazia de tudo, arranjos de costura, passava a ferro, ia às compras, tomava conta de nós e de quem vivesse no prédio e precisasse de ajuda. Quando precisávamos dela, tocávamos no trinco do telefone do prédio e falávamos com a Senhora Margarida. Foi então ela a minha guardiã na doença. Ia lá de manhã, de tarde, assegurava-se que eu estava bem e deixava-me com os meus lápis de cor e com os poucos livros que tinha. Ao fim de algum tempo, farta de estar sozinha, de cama, doente, comecei a achar que aqueles prédios que estavam em construção ao cimo da rua, baixinhos e de aspeto simpático, seriam o local ideal para mim, era ali que eu gostava de morar. Então, fui buscar um saco de plástico, das compras, daqueles que eram usados, lavados, estendidos como uma peça de roupa, para serem reutilizados, enfiei lá as minhas coisas, não eram muitas, obviamente, já que só enchiam um saco, e encostei-o à parede, atrás da porta do quarto. Quando a mãe entrou, perguntou-me o que era aquilo e eu respondi que quando estivesse boa ia morar para aquele prédio ali ao fundo...

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