domingo, 13 de março de 2016

Os meus mortos

            Já mencionei o suicídio da mãe de uma miúda do Liceu, foi o meu primeiro contacto com a morte. A seguir foi a do Rigoletto. Pouco tempo depois foi o Sr. Jorge, funcionário da portaria do Liceu que, à falta de um cabeça de giz, controlava o trânsito na avenida, os carros, os autocarros e a miudagem que atravessava aquela avenida perigosíssima de onde vinham os carros desembestados acabados de sair do viaduto Duarte Pacheco. Morreu em serviço a proteger as crianças.
          Também já referi que deambulava pelo Liceu entre as 8h e as 9h, hora a que as aulas da primária portuguesa começavam no Anexo. Mas antes dessa deambulação havia um ritual, telefonar para casa do tio Zé que estava doente. Pedia à Madame Lampreia para fazer a chamada e falava com a tia que nunca foi. Tantas foram as chamadas que fui chamada ao diretor Cardoso para dar uma explicação. O meu tio estava muito doente e eu queria ter notícias! Aí o diretor falou com a mãe que ficou a saber que, sem exceção, todos os dias ligava para casa do tio Zé, até ao dia da sua morte. Mas porquê? perguntava a mãe! Porque sim, porque talvez tivesse má consciência por um dia lhe ter falado muito mal, porque ele fez chorar a mãe... Dois dos meus tios a fizeram chorar, um deles ficou para sempre fora da nossa vida. O outro não, continuámos a ir ter com ele todos os sábados à farmácia, mas eu ia de trombas e acabei por deixar de ir. Porquê?, porque fizeste a minha mãe chorar. Éramos as únicas a ir visitar aquela tia que nunca o foi, nem sei o seu nome. Querem lanchar? Quero um chá da mãe e bolachas Maria, era sempre o meu lanche quando íamos visitar aquela senhora que teve um filho do meu tio mas com quem nunca chegou a casar. Ninguém a respeitava, ninguém a visitava, ninguém lhe falava, não havia cerimónias familiares para que fosse convidada, era uma não-tia, não-cunhada, não-pessoa. O filho deles já tinha morrido há muito tempo, chamava-se João, como o pai, morreu doente. O meu tio Zé andava sempre vestido de preto e tinha uma boina também ela preta, tinha sido anarquista em novo e isso tinha-lhe custado a audição de um dos ouvidos ao transformar um chapéu de chuva numa espingarda, a experiência correu, obviamente, mal. Dedicou toda a sua vida à farmácia de um dos tios proscritos, de cuja existência só soube mais tarde, aquele que era pai da minha madrinha, que nunca o foi, e que prometeu ao meu pai que a farmácia seria um dia dele se estudasse Farmácia e se fosse o seu Diretor-Técnico, o que, muito contrariado, acabou por fazer. O que não aconteceu foi o meu pai ter ficado com a farmácia, mas a palavra de uns, por vezes, de nada vale. Por isso, quando o tio Zé morreu, nunca mais soubemos nada da tia que nunca o foi, o pai foi buscar alguns remédios à farmácia, cortesia do outro dos tios proscritos, e da farmácia nunca mais ouvimos falar. 
       Pouco tempo depois, morreu o meu avô Luís. Fomos à missa de sétimo dia lá nos Olivais. A tia Lourdes estava grávida, nunca mais esqueci aquela fatiota que se usava na altura, calças e «blusa» de malha. Estávamos no outono, na primavera nasceu a Catarina. Um ano depois, na véspera do seu primeiro aniversário, morreu no colo da minha tia, a caminho do hospital com uma meningite. A tia nunca mais foi a mesma, nem ela nem ninguém...
         Anos mais tarde, já depois de abril de 74, melhor dizendo, em 75 quando andávamos todos em pé de guerra, o pai foi chamado a Madrid para lhe anunciarem que ao fim de mais de vinte e cinco anos de trabalho na Lilly o dispensavam com uma indemnização. Foi então pedido um qualquer favor ao tio proscrito e mandaram-me ir lá a casa. Toquei à porta, veio abrir a minha tia, irmã da minha mãe, casada com o tio proscrito, irmão do meu pai. Não saí da porta, não entrei em casa, o tio nem veio ver-me. Gente boa e muito educada... Depois, pouco tempo depois, ele morreu. E logo a seguir, um ano depois, foi a vez dela e a seguir o outro tio proscrito. 
         Foi uma época de mortes, quando fomos para os Olivais, falava-se daquele que se tinha atirado do terraço do prédio da frente, aquele que, mais tarde, seria o Monte, o irmão do Topa, quando andava de biciclete, caiu e morreu, o Ricardo num desastre de mota no Algarve, o Bicos que se envenenou, o outro que se enforcou na fita do estore... Foi horrendo, eram umas atrás das outras, depois começaram a desaparecer com overdoses, tantos que lhes perdi a conta. Tantos que nos fomos habituando a considerar aquelas mortes como naturais. Depois foi a vez do meu sobrinho, o segundo filho da minha irmã. Uma tragédia, não sei se anunciada. 
          Já não tenho tias, tios, o pai morreu em 84, a minha querida Noca em 2009, e a mãe no ano passado. 
             Ontem preenchi o meu testamento vital, apesar de já o ter comigo há uns tempos. Faltam-me os dados dos meus filhos para o ir entregar e deixar, bem claro, que a mim nunca me farão o que fizeram à minha mãe. 

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