Percorria-se um caminho ladeado de árvores, canteiros com flores para se chegar ao limite do edifício onde ficava o ginásio e a 12ème. Havia duas salas, contíguas e com uma porta a separá-las. A maior humilhação era, quando nos portávamos mal, ir de castigo, virados para a parede no «coin» da outra sala, não da nossa. Era insuportável, calhou-me isso uma vez, depois de ter pregado um estalo num imbecil que resolveu tirar-me a cadeira quando me ia sentar. Claro que fiquei no chão, mas no imediato ele não se ficou a rir. Talvez mais tarde...
O nosso recreio não era o mesmo que o dos «grandes», estávamos resguardados. Foi lá que tirámos as fotografias com os fatos lindos em papel que fizemos, com pedraria colada, enfeites para a cabeça, tudo «comme il faut» para a festa de Natal, uma dança à maneira ao som do «Minuet» de Boccherini. Um espetáculo, memorável, guardado como uma relíquia nas minhas memórias. Eu e o meu companheiro inseparável, o Toninho Coelho, um miúdo lindo, querido e meu amigo, o primeiro.
Depois 11ème, pequenos, muitos, A entrada no edifício obedecia a normas muito claras, fazíamos uma fila, dois a dois à frente das janelas correspondentes à nossa sala, no rés do chão. A professora encaminhava-nos, então, para a sala de aula. O almoço era na cantina, à sexta sempre peixe, mas havia a compensação de um biscoito em forma de um paralelepípedo comprido, grosso, que acompanhava um iogurte. A minha irmã mais velha nunca soube o que era comer peixe na cantina, davam-lhe dinheiro para ir com as amigas comer bitoques... Depois havia a hora da sesta, corriam-se as cortinas pretas de flanela e deitávamo-nos sobre a mesa a descansar. E os dias repetiam-se sem grandes embates.
10ème, A. Gomes, a professora que nos dava Português à tarde, penso que não seria todos os dias, mas não me lembro. Lembro-me, sim, que não achei muita graça, depois de ter feito um trabalho sobre o bairro para onde eu tinha ido morar, feito com amor e carinho com a preciosa ajuda da mãe, ao comentário que não teria sido eu a autora do trabalho. Ainda hoje o guardo: capa e contracapa em cartolina encarnada, com umas folhas pautadas preenchidas com fotografias de um bairro em início de vida, legendadas com tinta permanente. O remate «mais lindo» era a fita que atava as folhas, uma daquelas de embrulho que havia na altura, com uns fios de aço para dar consistência e as letras desenhadas a dourado. O pai tinha umas coisas que funcionavam como decalcomanias com as quais se escrevia a ouro. O máximo, aos olhos de uma miúda de sete anos que não achou nada bem aquele comentário. Deve ter sido por essa e por outras que me decidi a sair da parte francesa, queria fazer como as minhas irmãs, ter aulas no anexo, por que havia de ser diferente? Seria preciso um exame de admissão. Está bem! Qualquer coisa para ir para a parte portuguesa! Ia perder os meus colegas, amigos, o Toninho! Não faz mal. Eu quero. E queria mesmo...
Mal sabia eu o que me esperava. A A. Gomes ao pé da Madame C. era um anjo. Nunca conheci ninguém tão amargo como aquela senhora. Naquele liceu não era permitido bater nos alunos, éramos repreendidos pelos surveillants, surveillant-général, pelo proviseur, pelo diretor, íamos para o canto, virados para a parede, mas um estalo, uma palmada? Nunca. Perguntem lá se com aquela senhora era assim? Levávamos todos os dias, estalos na testa, sabes? Toma! Não sabes? Toma. Sabias e não disseste? Então toma, podias ter evitado que as outras levassem... Vi uma a ser arrastada pelos cabelos até à casa de banho, ouvia-se o autoclismo a correr sem parar e os gritos da desgraçada, que nada tinha feito ao chegar à sala depois do almoço. A outra que fazia coleção de lápis, borrachas e afias, quando entrava a pasta dela chocalhava por todo o lado. Um dia, mal entrou, viu a pasta despejada no chão, tudo espalhado pela sala, lágrimas, humilhação, gritos, vergonha...
Uma vez, estava a brincar, vi-a a vir, fui a correr para dentro e avisei a turma da sua chegada. Levei um par de estalos. Sabes porquê? Sei. Nunca soube... Mas não dei parte fraca.
As minhas aulas começavam às 9h, íamos numa das muitas camionetes do liceu, saía da porta do nosso prédio às 7h, éramos as primeiras a entrar, depois íamos aos Olivais Norte, Encarnação e percorríamos o resto do trajeto a recolher a miudagem toda até chegarmos às 8h ao Liceu. Ficava uma hora a deambular por aquele espaço que era cada vez menos meu. Um dia, com uma das amigas, andava pelo campo de jogos, do outro lado lá estava o animal do meu primo com um dos seus amigos. Claro que dali só podia vir merda e veio! Começaram à pedrada e no foge que foge a pobre criatura que estava comigo apanhou com uma pedrada em cheio na cabeça. Cabeça partida, claro, e eu um estalo, o que estavam ali a fazer? Não sei se aqueles dois foram castigados, cobardes como eram, cavaram a sete pés, deixando a desgraçada da miúda cheia de sangue.
Já por essa altura estava farta daquele liceu, queria sair dali! Por favor, não quero mais isto, detesto aquela gente, detesto andar no Liceu. As minhas irmãs nunca se chegavam a mim, só a mais velha é que ia ter comigo no fim das aulas de culinária, patrocinadas pela Vaqueiro, porque sabia que eu nunca comia os bolos que fazíamos, eu só gostava de pão-de-ló, nem tocava nos outros, por isso, religiosamente, ela e as amigas lá estavam à espera dos docinhos.
No regresso a casa havia dois horários de saída, às 4.30h e às 5.30h, só este permitia viagem de camionete até casa, quando era às 4.30h, ficávamos no «Relógio» e ou o pai nos ia buscar de carro ao «Relógio» ou íamos de autocarro, no 10. A maioria das vezes íamos às 5.30h, aí era ver as minhas irmãs a correr rua abaixo, aflitas, sempre, para fazer xixi... E chegavam sempre tarde demais, era sempre no elevador que a desgraça acontecia! Lá ia a mãe de balde e pano lavar chão!
Uma vez, estava o meu pai fora de Lisboa em trabalho, (quando isso acontecia, muitas vezes, o carro ficava com o meu tio A.) a Madame C. num dos seus ataques de fúria, fez-nos perder a todas as inúmeras camionetes que faziam fila à porta do Liceu, de uma ponta a outra do edifício. Tirando aquelas cujos pais as iam buscar, todas as outras, eu incluída, ficaram em terra, sem transporte. Lá telefonei para casa, o tio foi buscar o carro e lá me foi buscar. Horas de espera, porque uma megera sem sentimentos de gente usava e abusava do seu estatuto de mulher enjeitada que descarregava dia sim dia sim em cima de um monte de miúdas.
O martírio com essa senhora só acabaria no ano seguinte. Na 3ª classe tive «febre de malta» e fiquei de cama três meses. O 3º período foi o princípio das minhas férias.




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