domingo, 18 de agosto de 2019

O que me faz feliz?



            Quando me lembro das férias dos Costa Santos/ Burnays na Ericeira só me lembro dos gritos da tia Lourdes e do tio Henrique e das queixas da tia Manela. Era assim todos os anos. Alugavam uma casa para estarem juntos e, ao fim de um dia, já estavam todos aos gritos! Com a minha mãe e eu era igual, no próprio dia já estávamos pegadas, valia tudo. Connosco não seria assim... Até porque não somos assim...
           Acho que somos piores... As férias são para a família, em família... Mas até que ponto queremos que assim seja...
          Adoro-os, ao ponto de deixar de ser racional. Fico em êxtase por pensar que vamos estar todos juntos, como imaginei a vida toda. Mas imagino que eles não o tenham imaginado assim. Sou uma boa ouvinte, muito boa, confirmado por uma opinião médica, para a minha idade oiço muito bem! «Estas não são as minhas férias», «Podemos dormir todos na sala», «Como não há pessoas a mais, estou a dormir num colchão!»... E por aí fora! Fico possessa, furiosa, furibunda! Porquê?
          Não li o artigo de opinião do MEC (que venero!), ele dizia que por pensar que as pessoas de quem gostamos só têm mais um dia de vida que nos tornaríamos melhores pessoas. Eu disse ao Domingos, penso que foi a primeira coisa que lhe disse depois de ser atropelada, que não queria que nos zangássemos mais, era terrível o pensamento de deixar de ver a pessoa que mais amamos neste mundo, para nunca mais a ver, depois de uma zanga. Sim... Mas, não... As zangas continuaram, continuam... E já veio um cancro para ajudar à festa! E mesmo assim, todos podem dizer o que querem, porque eu faço perguntas, presumo que não há assuntos tabu, que ser mãe é um posto que me dá o estatuto de poder dizer o quanto gosto e quero... Mas não posso. Não mo deixam. «Ó mãe, não é assim!», «Ó mãe, não pode dizer essas coisas!», «Ó mãe, já imaginou que ela pode não querer...»... Ó merda! Já pensaram que não têm esse direito? O tempo não vos pertence! Mas a vossa vida sim... E nessa eu não quero interferir. E, assim, escolho a distância, essa eu controlo, essa pertence-me... 
         Não sou uma católica fervorosa, mas sou intrinsecamente cristã, e obedeço religiosamente ao meu lema «Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti», até, porque, a mim, me têm feito muito do que eu agradecia que não me tivessem feito. Tenho sempre isso em mente, ponho-me no lugar dos outros com muita facilidade... E todas as noites, quando rezo, aquilo que eu peço, e peço pouco, é que Deus me ajude a ser uma melhor pessoa. Melhor professora, melhor ser humano, melhor mãe, melhor pessoa, no fundo. Tenho sempre dificuldade em rezar o Pai Nosso, sou mais devota de Nossa Senhora. No Pai Nosso devia dizer «perdoai-nos assim como perdoamos a  quem nos tem ofendido» e aqui  reside um problema, não consigo. Principalmente quando os que nos ofendem o fazem conscientemente, deliberadamente, por opção. Não consigo. Resisto quando se trata do meu marido, amor da minha vida, e dos meus filhos que adoro. Fico devastada, completamente devastada, magoada, de tal forma que demoro uma eternidade a reerguer-me, mas sei que o farei. Já os outros... Prefiro não rezar o Pai Nosso.

terça-feira, 30 de julho de 2019

Helena, obrigada por existir...

              Ouvir isto de alguém... É tão bom, tão comovente... Este ano foi difícil, mais um com dramas pessoais, tão duros, tão injustos. Perder um aluno, uma turma arrasada pela perda, miúdos pequenos para quem esta foi a primeira perda. Ir com eles à igreja, estar no mesmo espaço em que está um corpo de uma criança com quem convivemos, com os familiares inconsoláveis, um destroço de vida. Como explicar que a morte faz parte da vida a miúdos, principalmente a morte de um miúdo. 
          Sábado de manhã, toca o telefone, «Lena, está em casa? Posso ir aí?». Claro, vem... «O meu primo está em morte cerebral e eu não sei o que hei de fazer.». Ó miúda, não tens de fazer nada, só tens de ser como és, uma miúda querida... E correu bem. Foi para casa mais tranquila, já eu não, fiquei lavada em lágrimas mas orgulhosa por ela se ter lembrado de mim, quando quis sair de casa para arejar, porque já não aguentava mais. 
             Às vezes, sinto-me tão inútil, tão vazia... E depois há  estas coisas que me preenchem, que dão algum sentido à minha vida. 

Em tempo de férias


          26 de julho, dia dos avós. Um dos bons dias de 2019. Felizmente já houve vários, ao contrário do ano de 2018, um ano terrível. 
           O que me faz feliz? Estar com a minha neta. Estar com os meus filhos. Estar com o Domingos. Nem sempre é assim. Às vezes não é mesmo assim e é um desperdício. Tanto amor para dar, às vezes para nada... É verdade... Mas pondo as coisas em perspetiva, considerando o deve e o haver, há mais momentos de felicidade genuína do que os outros, que dispensava, oh como os dispensava... Mas é assim...
           Véspera de férias, novamente. As últimas foram das piores. Foi inacreditável. Tive férias horríveis na Ericeira, mesmo quando alugava, arrendava, assim é que é, lá casas, ainda foram alguns anos. A primeira vez, fomos para uma casa por cima de um restaurante e de um bar. Uma desgraça, noites mal dormidas e todos em cima uns dos outros, mas não fazia mal, porque foi a primeira vez que tivemos a possibilidade de ir de férias. Já estávamos no Alentejo, longe do mar, por isso qualquer coisa era boa. No ano seguinte, fomos para o último andar no prédio dos gémeos, a Teresinha e o Luís, alunos queridos anos mais tarde com uma história de vida, talvez das mais tristes alguma vez vividas. Nesse ano, nem sei bem porquê, as minhas expectativas estavam ainda mais elevadas, levámos a Noca connosco o que fazia com que a miudagem fosse lá a casa mais do que seria costume. Lembro-me dos gémeos a correr escada acima para ir ver o cão! Mas aquela coisa de irmos todos para a praia depressa se esvaiu... «Aqui só vamos para a praia ao meio-dia...» Pronto, percebi, não é para irmos juntos, pois com bom tempo ou mau tempo, nós respeitamos as horas em que não se deve estar na praia e ao meio-dia é hora de sair da praia e não de entrar. Por isso, «não tamos junto». E foi assim, à tarde, quando voltávamos à praia, estavam eles de saída e às vezes a praia «fechava», pura e simplesmente. Depois começaram as tricas entre as miúdas, os comentários: «meninos, escondam as carteiras», aquele que não paga o toldo, as conversas à parte, o corta na casaca, as bebedeiras à noite, os amigos importantes, aquilo que eu mais detesto... Fartei-me e decidi aproveitar as férias do Cofre, fomos para o Vau. No ano seguinte fomos para o Lago Azul, em Vilamoura, no outro para Vila Nova de Mil Fontes. E teria continuado por aí não fosse a postura irredutível da Inês, «não vou... eu vou para a Ericeira». Entretanto a sogra comprou uma quinta e pensei (mal...) que era para todos! A minha mãe, como de costume, meteu-se onde não era chamada e foi dizer-lhe que eu devia ir de férias para a quinta em agosto. O que ela foi fazer! E fomos, em 2004. O pior ano de todos, aquele em que fiquei a saber que nem para nora quanto mais para professora servia. Fui-me embora, jurei nunca mais voltar. Ainda lá fui uma vez almoçar, depois do cancro, e no ano em que a Noca morreu, mas as memórias assombram-me de tal forma que parece que rebento. Foi o ano em que as coisas correram bem na Ericeira com a mãe. Depois do ano horrível de 2004, chegou o ano horrível de 2005 e com ele o cancro, de mansinho, e o verão foi outra vez uma desgraça. As miúdas começaram a achar que não tinham de prestar contas a ninguém, vésperas de a Inês ir para os Olivais, para a  Faculdade. Chegavam a casa de dia, andavam a noite toda na rua, não davam cavaco a ninguém, não paravam em casa, não ajudavam a ponta de um corno e, ainda por cima, com a cobertura da avó, «despacha-te que a tua tia vem aí...». Disse à minha irmã que não aguentava mais e que me ia embora. A Inês, claro, ficou, e ficou para sempre. Ainda lá está...
             Então, estamos em 2006, em tratamentos, ficava a dormir na pensão Fortunato e os miúdos estavam com a avó. Em 2007 fiquei na Fonte do Cabo. Em 2008 fiquei no Martins, em 2009 numa casa onde mal cabíamos e a Noca morreu. Em 2010 no Martins, novamente, 25 anos de casada. 2011 ainda Martins e depois de o Calado emigrar, e já sem subsídio de férias, por conta do vigarista do Sócrates e das políticas horrendas do Passos Coelho, passei a ficar com a mãe para a Amélia ir trabalhar. Isto até 2014, ano de recuperação do subsídio de férias, ano do casamento da Inês, anos tranquilos na Ericeira, muito tranquilos até. As pazes com a mãe estavam consolidadas, apesar de as coisas com a Amélia já estarem azedas há uns tempos. Mas a mãe morreu e tudo desabou. 
                     

Famílias

          Faz agora um ano que recebi um telefonema em que a minha interlocutora, uma assistente social, me disse para eu não me alarmar, porque ela estava a ver uma luz ao fundo do túnel. Faltava dizer que o túnel era enorme, comprido, interminável...
          Perguntou-me se eu não ficava com os meus sobrinhos-netos para evitar a institucionalização dos miúdos. A minha alma perdeu-se, nesse momento... Fiquei sem pinga de sangue... Tinha sido a minha irmã a sugerir à Segurança Social o meu nome... Eu, aquela irmã... A única coisa que sabia e sei daqueles miúdos é o nome e pouco mais. O mais velho, o Tiago, fui vê-lo quando nasceu, levei fotografias à minha mãe. Desde aí, nunca mais o vi. Os outros, sim, são três, nunca os conheci, o Duarte e o João Pedro. Histórias de terror, gravidezes escondidas, pais por apurar, mãe incompetente, retirados, dados para adoção ou para instituições. A minha mãe daria voltas na sepultura, se estivesse numa! «A médica disse que eu era boa mãe...» teve o desplante de dizer à pobre velhota a propósito do mais pequeno, hiperativo, mais normalmente conhecido como mal-educado, quando ia às consultas com o miúdo, depois de o zurzir de pancada, às custas da avó. Como é que chegamos aqui? Como é que chegámos a este ponto? Não fiquei com os miúdos. Chegámos a pensar há uns anos, quando soubemos que as coisas estavam complicadas e já tinham sido entregues a uma instituição, mas acabámos por não o fazer, tinham visitas regulares dos avós e as coisas pareciam protegê-los. Mas voltaram para casa. E o inevitável chegou. Mas eu não os conheço, são familiares é verdade, mas são, somos estranhos. Não nos conhecemos. Receber estranhos em casa, com um historial de violência, de dependências em casa, de mentiras atrás de mentiras... Já estamos velhos, com receios, porque eles chegam... Fiquei de pensar e de falar com a minha família. «Não se meta nisso!», a decisão não é vossa, é nossa. Partilho com vocês as questões, mas somos nós que decidimos. Fica muito bem bater com a mão no peito, «por minha culpa, por minha tão grande culpa», mas depois nada... Que raio de gente somos nós? Voltei das férias, liguei à assistente social, já nem se lembrava de mim, não referiu o meu nome ao juiz e o processo estava em andamento. Não sei nada deles.
         A primeira vez que falei com a CPCJ, foi-me dito que a minha irmã teria dito que não tinha irmãs. A partir daqui haverá pouco a dizer ou a fazer, daí ter ficado espantada com o telefonema. Foi ela que disse para me ligarem para ver se ficava com os miúdos, os mais velhos.  Do mais novo, foi-me dito que já teria sido adotado... Espero que por uma família «como deve ser...»
           Tranquila? Nem por isso. Esta é a minha família.Três irmãs que não se dão. Sobrinhos que me envergonham. Primos que não se dão. Réplica daquilo que eu detestava ver quando era miúda. 
          O meu pai detestava as minha tias. A única de quem gostava era aquela com quem a mãe de dava pior. Crescemos num ambiente em que irmãos não se falavam, irmãs zangadas. O meu pai não falava com o tio Mário, um sacana de primeira. Deixou de falar ao tio Joaquim, que o considerava um caso patológico, que salvou a vida da minha mãe ao fazer-lhe um aborto, mas que lhe pagou com o silêncio para o resto da vida. E por aí fora... O tio Arsénio não falava com o Armando, a mãe detestava a Antonieta, o pai detestava a tia Ivone e a tia Lourdes, a Tia Manuela foi proscrita, o avô era maluco... E não há famílias perfeitas! Mas nunca pensei que connosco fosse acontecer o mesmo. Não falo à Amélia, irmã que literalmente nos tirou tudo, o pai, a mãe e todos os bens, menos aqueles que consegui trazer com a mãe viva e aquilo que a obriguei a prometer-me que me dava, a mesa e o espelho dourados. Não falo à Paula, mentiras atrás de mentiras a vida toda... 
          Aqui, as mentiras não são perdoadas. Mas existem... Também existem as omissões e muita hipocrisia... Como disse, não há famílias perfeitas. A minha também não o é.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Ainda no Sul, Sines








Onde não consegui ser feliz, Ilha do Pessegueiro, Porto Covo



domingo, 9 de junho de 2019

Rumo ao Sul, Zambujeira do Mar, Almograve







sábado, 8 de junho de 2019

As praias a Sul, Odeceixe e Amoreira





Altinho, Odeceixe, bom...

Camembert panado com molho de frutos vermelhos

domingo, 5 de maio de 2019

Aprender, segundo a UNESCO

Aprender a conhecer (valorização do conhecimento), aprender a fazer (competências), aprender a ser (realização pessoal, criatividade) e aprender a viver juntos/conviver (coesão social).

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Pensamento do dia


Aprendi que estou na Terra para ajudar os outros. O que ainda não percebi é o que estão os outros aqui a fazer!

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Ser professor, João Pedro Mésseder

Ser professor,
Se não houvesse espelhar de olhos no primeiro dia de aulas, ser professor não seria um sonho.
Se um fio de beleza não pudesse soltar-se daqueles dedos, daquelas vozes cantoras, daqueles corpos em movimento, ser professor não seria um sonho.
Se nunca um verso ganhasse asas no fresco dos seus lábios, ser professor não seria um sonho.
Se um livro, uma pintura, um ambiente virtual ou um filme não abrissem uma porta até então fechada, ser professor não seria um sonho.
Se o tédio não pudesse emagrecer, ser professor não seria um sonho.
Se o saber não construísse pessoas melhores, ser professor não seria um sonho.
Se Arte e Jogo, Língua e Ciência não pudessem ser nomes próprios, nobres palavras, ser professor não seria um sonho.
Se um certo olhar não sorrisse ao conseguir ler pela primeira vez uma frase, fazer uma descoberta, resolver um problema, ser professor não seria um sonho.
Se um rosto não se iluminasse ao ouvir “muito bem!”, “está bem visto!”, “um passe perfeito!”, ser professor não seria um sonho.
Se uma mão negra e outra branca e outra morena não pudessem tocar-se, ser professor não seria um sonho.
Se várias cabeças não conseguissem pensar melhor do que uma, ser professor não seria um sonho.
Se o silêncio e o asseio, a sobriedade e a ordem não pudessem ser aprendidos, ser professor não seria um sonho.
Se o medo e a violência, a solidão e a pobreza não pudessem ser combatidos, ser professor não seria um sonho.
Se justiça e democracia, fraternidade e autoridade não pudessem ser aprendidas, ser professor não seria um sonho.
Se na escola não pudesse germinar a paz e a entreajuda, em vez da competição, ser professor não seria um sonho.
Se a escola não ajudasse a reordenar o mundo, ser professor não seria um sonho.
Se a inteligência não pudesse guiar o sonho, se este não pudesse guiar a inteligência, ser professor não seria um sonho.
Quando nas lides te iniciaste, ser professor tinha a forma de um sonho? Se não tinha, o tempo deu-lhe essa forma. Para muitos, ser professor é tornar real um sonho. O de ajudar a crescer, a fazer do mundo um lugar melhor para se viver.
E não há ofensas, nem indignidades – provindas de efémeros poderes –, nem rankings, nem propagandas capazes de matar esse sonho.
Nem distâncias, nem sacrifícios, nem desassossego, nem noites em claro…
Sem vozes de crianças e jovens à tua volta, sem humana relação, ser professor não seria um sonho.
João Pedro Mésseder

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Pascoela, 4 anos, mãe...


domingo, 21 de abril de 2019

Páscoa 2019


sábado, 20 de abril de 2019

Beija-me burro *****



Beija-me Burro
R. Dr. António Patrício Gouveia 8 Loja B, 2780-185 Oeiras
961 620 947
https://maps.app.goo.gl/sUGb9eoZPFtrv6TS6
Batatas fritas especiais, bem boas, e tirinhas de carne (que não comi)
Bacalhau com puré de grão e grelos, uma maravilha
Queijo Camembert com geleia de pimentos, uma delícia 

sexta-feira, 19 de abril de 2019

Pode-se assinalar mais do que uma opção?


quinta-feira, 18 de abril de 2019

Dor

A dor que dói
que é dor que se sente
a dor que é dó
da gente que sente
a dor que não entende
a dor que é a falta da gente
a dor de ser gente com dor
de ser dor de gente
que só o quer ser
dor que é saudade
saudade de ter saudade
dor de quem tem medo
medo de sentir dor.

O Pocinho, em Évora 🍱

Boa, Sr. Augusto! Ambiente familiar, comida caseira, simpatia q.b.
Ficamos à espera dos pastelinhos de bacalhau 👍


Gastar as senhas e quanto ao lixo tóxico: detox.

            E cá estou eu outra vez!
        Se melhorei o estado de espírito? Sim... Não vou dizer que estou bem, mas estou melhor! E estar melhor é bom. Tive alta em oncologia, a melhor notícia do ano. Ver-me livre daquele ambiente de morte, de sofrimento, de tanta solidão, porque a maioria dos doentes sofre em silêncio, foi uma coisa preciosa. 
     Fiz escolhas difíceis. Reconheci a minha incapacidade financeira e tive de reverter comportamentos inaceitáveis para quem já ronda os sessenta! Tive de me disciplinar, parar de tentar agradar com presentes, deixar de «passear» para remediar conflitos latentes, enfrentar a realidade, não tenho, não posso! E, apesar de complicado, felizmente os filhos deram uma valiosa ajuda, tem sido bom, é como o regresso às origens, viver com que se tem, não fazer de conta...
      O fim do ano de 18 foi uma bela merda. Para variar, os momentos depressivos estragaram tudo o que de bom podia ter havido. Nos meus anos, um dia cheio de sol, em Sines a almoçar, a angústia chegou ao jantar. Tudo é uma complicação quando se quer complicar... E mais uma vez, engole-se em seco e chora-se depois, muito, acabei a chorar nos 30 anos do Afonso, estraguei-lhe a noite, e não foi só a noite... «Ou a mãe se trata ou eu...». E tinha razão! E tem razão. 
          O Natal foi cá em casa, o Natal é o Natal... Ser cá em casa é um privilégio. A Matilde estava doente, é sempre uma preocupação, febre e choro... Mas foi o melhor Natal de sempre. Fomos à Missa do Galo, nos Álamos, o padre Lavajo é uma simpatia e recebeu-nos com abraços, apertos de mão e beijinhos, Domingos, Afonso, António e eu. Às tantas, pediram-me para participar no peditório, coisa que nunca tinha feito, nem me passava pela cabeça fazer, aceitei, não sem antes perguntar: eu? Quando chegou a hora, muito solenemente, dirigi-me para a minha zona, sozinha, uma data de gente para «atender».O saco andava para trás e para a frente e eu sem dar conta do recado. Quando dei por mim, a pessoa que me tinha feito o pedido estava já em ação. A missa estava parada por causa de mim... Que vergonha. Mas foi o momento da noite, antes da troca de presentes e da ceia.
         O Natal nos Olivais não deixou saudades e o Restelo uma sombra do que foi e do que poderia ter sido. Olhando bem para trás, só me senti lá bem até 88, nesse ano percebi, com muita clareza, que não fazia parte, por isso, esse Natal foi a quatro nas Caldas. O Afonso com dias de vida, a Inês totalmente baralhada, e nós os dois com a certeza que dali para a frente nada seria como dantes. Graça teve ver a tia à porta de casa com um saco cheio de presentes, cheio de má consciência, com um ar de Mãe Natal tardia... Desde aí, o Natal nunca mais foi o mesmo. Sempre à espera do telefonema para saber se era para ir ou não... Fazer as malas a correr, para depois me sentir a mais. 
            Reconhecer a dor, falar dela, escrever sobre ela é assumi-la. Há anos que fazemos de conta, que faço de conta... Zango-me, fico zangada tempos e tempos e não resolvo nada. Nada? Não, também não é bem assim. Pus alguns pontos finais em alguns assuntos.
          Arrumar ideias, limpar a cabeça é meio caminho para libertar espaço para pensar e pôr em perspectiva a nossa vida. Vi-me metida num sarilho a que era totalmente alheia, fiz parte dele contra vontade, vi o pior da falta de ética e de escrúpulos, o vale tudo, o diz que disse, o entre amigas não há segredos, o cobrar... Se pensar bem, friamente, este filme desenrolou-se à minha frente durante meses, um enredo com contornos políticos, embebido da formação nas jotas, dos conluios, das reuniões secretas em que o bufo se acomoda mas não assume, em que se revelam verdades escondidas, relações tenebrosas de poder e contra-poder... A merda dos pequenos poderes que estragam a vida do mais incauto ser que quer viver em paz e sossego, sem alguma vez pôr em causa a sua dignidade, os seus valores, porque esses, sim, dão-nos a paz e o sossego de que precisamos, apesar de todas as contrariedades. Então, ao fim de um tempo, que parecia interminável, acabou... Este já foi o segundo episódio, mas também o último. Como disse já há uns tempos, não sou a consciência de ninguém, muito menos a de quem não tem nenhuma. Ser grilo falante não é para todos, «Let your conscience be your guide»  é um lema de que não prescindo. Agir em conformidade não é fácil, dizer-se o que se pensa nem sempre é politicamente correto ou bom, é mesmo só para o que convém, quando não convém, custa! Assunto encerrado.
           E quando, por opção, ignoramos os outros? Por opção! Não por qualquer outra razão. Porque queremos marcar uma posição. Há retorno? Volta a dar? Ah, estou em falta... Estás? Não me parece. Desculpa! O quê? O que foi feito em consciência? Um marcar de posição, uma demarcação? Não há mesmo volta a dar. Não faço mais de conta. O que está feito, está feito. Vive-se com isso, fica resolvido, porque não tem solução. E vive-se bem? Claro que não. Mas quando somos nós a definir o que é e não é importante, fica mais fácil. Decidimos que magoar os outros não é importante, por isso não faz muito mal, o outro que resolva. Ah, preciso de falar! Não me parece, não há nada que eu queira ouvir, não qualquer desculpa esfarrapada misturada com declarações de amizade profunda e longa, para mim é mais longínqua do que longa. Ficam, sobretudo, os laços de família, que de família pouco me enlaçam. Mas mais uma vez, não faz mal... Fim de vários capítulos. «É uma pessoa, essencialmente, boa», pois! Já eu... não. Mais do estilo rancorosa, que não esquece, que tem dificuldade em entender e, por isso, perdoar... Assunto encerrado. Chamemos-lhe um detox!
           Assim como assim, encerrei alguns assuntos. Mas há mais para resolver e encerrar, bem mais difíceis. Os que não sei como, são intrínsecos, estão de tal forma embrenhados em mim que fazem já parte do meu ser, sempre fizeram, aliás, têm estado em banho-Maria, a marinar, a adensar-se, a deixar-me sem ar. Esses, devagar, devagarinho, vão dando cabo de mim.