terça-feira, 30 de julho de 2019

Famílias

          Faz agora um ano que recebi um telefonema em que a minha interlocutora, uma assistente social, me disse para eu não me alarmar, porque ela estava a ver uma luz ao fundo do túnel. Faltava dizer que o túnel era enorme, comprido, interminável...
          Perguntou-me se eu não ficava com os meus sobrinhos-netos para evitar a institucionalização dos miúdos. A minha alma perdeu-se, nesse momento... Fiquei sem pinga de sangue... Tinha sido a minha irmã a sugerir à Segurança Social o meu nome... Eu, aquela irmã... A única coisa que sabia e sei daqueles miúdos é o nome e pouco mais. O mais velho, o Tiago, fui vê-lo quando nasceu, levei fotografias à minha mãe. Desde aí, nunca mais o vi. Os outros, sim, são três, nunca os conheci, o Duarte e o João Pedro. Histórias de terror, gravidezes escondidas, pais por apurar, mãe incompetente, retirados, dados para adoção ou para instituições. A minha mãe daria voltas na sepultura, se estivesse numa! «A médica disse que eu era boa mãe...» teve o desplante de dizer à pobre velhota a propósito do mais pequeno, hiperativo, mais normalmente conhecido como mal-educado, quando ia às consultas com o miúdo, depois de o zurzir de pancada, às custas da avó. Como é que chegamos aqui? Como é que chegámos a este ponto? Não fiquei com os miúdos. Chegámos a pensar há uns anos, quando soubemos que as coisas estavam complicadas e já tinham sido entregues a uma instituição, mas acabámos por não o fazer, tinham visitas regulares dos avós e as coisas pareciam protegê-los. Mas voltaram para casa. E o inevitável chegou. Mas eu não os conheço, são familiares é verdade, mas são, somos estranhos. Não nos conhecemos. Receber estranhos em casa, com um historial de violência, de dependências em casa, de mentiras atrás de mentiras... Já estamos velhos, com receios, porque eles chegam... Fiquei de pensar e de falar com a minha família. «Não se meta nisso!», a decisão não é vossa, é nossa. Partilho com vocês as questões, mas somos nós que decidimos. Fica muito bem bater com a mão no peito, «por minha culpa, por minha tão grande culpa», mas depois nada... Que raio de gente somos nós? Voltei das férias, liguei à assistente social, já nem se lembrava de mim, não referiu o meu nome ao juiz e o processo estava em andamento. Não sei nada deles.
         A primeira vez que falei com a CPCJ, foi-me dito que a minha irmã teria dito que não tinha irmãs. A partir daqui haverá pouco a dizer ou a fazer, daí ter ficado espantada com o telefonema. Foi ela que disse para me ligarem para ver se ficava com os miúdos, os mais velhos.  Do mais novo, foi-me dito que já teria sido adotado... Espero que por uma família «como deve ser...»
           Tranquila? Nem por isso. Esta é a minha família.Três irmãs que não se dão. Sobrinhos que me envergonham. Primos que não se dão. Réplica daquilo que eu detestava ver quando era miúda. 
          O meu pai detestava as minha tias. A única de quem gostava era aquela com quem a mãe de dava pior. Crescemos num ambiente em que irmãos não se falavam, irmãs zangadas. O meu pai não falava com o tio Mário, um sacana de primeira. Deixou de falar ao tio Joaquim, que o considerava um caso patológico, que salvou a vida da minha mãe ao fazer-lhe um aborto, mas que lhe pagou com o silêncio para o resto da vida. E por aí fora... O tio Arsénio não falava com o Armando, a mãe detestava a Antonieta, o pai detestava a tia Ivone e a tia Lourdes, a Tia Manuela foi proscrita, o avô era maluco... E não há famílias perfeitas! Mas nunca pensei que connosco fosse acontecer o mesmo. Não falo à Amélia, irmã que literalmente nos tirou tudo, o pai, a mãe e todos os bens, menos aqueles que consegui trazer com a mãe viva e aquilo que a obriguei a prometer-me que me dava, a mesa e o espelho dourados. Não falo à Paula, mentiras atrás de mentiras a vida toda... 
          Aqui, as mentiras não são perdoadas. Mas existem... Também existem as omissões e muita hipocrisia... Como disse, não há famílias perfeitas. A minha também não o é.

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