26 de julho, dia dos avós. Um dos bons dias de 2019. Felizmente já houve vários, ao contrário do ano de 2018, um ano terrível.
O que me faz feliz? Estar com a minha neta. Estar com os meus filhos. Estar com o Domingos. Nem sempre é assim. Às vezes não é mesmo assim e é um desperdício. Tanto amor para dar, às vezes para nada... É verdade... Mas pondo as coisas em perspetiva, considerando o deve e o haver, há mais momentos de felicidade genuína do que os outros, que dispensava, oh como os dispensava... Mas é assim...
Véspera de férias, novamente. As últimas foram das piores. Foi inacreditável. Tive férias horríveis na Ericeira, mesmo quando alugava, arrendava, assim é que é, lá casas, ainda foram alguns anos. A primeira vez, fomos para uma casa por cima de um restaurante e de um bar. Uma desgraça, noites mal dormidas e todos em cima uns dos outros, mas não fazia mal, porque foi a primeira vez que tivemos a possibilidade de ir de férias. Já estávamos no Alentejo, longe do mar, por isso qualquer coisa era boa. No ano seguinte, fomos para o último andar no prédio dos gémeos, a Teresinha e o Luís, alunos queridos anos mais tarde com uma história de vida, talvez das mais tristes alguma vez vividas. Nesse ano, nem sei bem porquê, as minhas expectativas estavam ainda mais elevadas, levámos a Noca connosco o que fazia com que a miudagem fosse lá a casa mais do que seria costume. Lembro-me dos gémeos a correr escada acima para ir ver o cão! Mas aquela coisa de irmos todos para a praia depressa se esvaiu... «Aqui só vamos para a praia ao meio-dia...» Pronto, percebi, não é para irmos juntos, pois com bom tempo ou mau tempo, nós respeitamos as horas em que não se deve estar na praia e ao meio-dia é hora de sair da praia e não de entrar. Por isso, «não tamos junto». E foi assim, à tarde, quando voltávamos à praia, estavam eles de saída e às vezes a praia «fechava», pura e simplesmente. Depois começaram as tricas entre as miúdas, os comentários: «meninos, escondam as carteiras», aquele que não paga o toldo, as conversas à parte, o corta na casaca, as bebedeiras à noite, os amigos importantes, aquilo que eu mais detesto... Fartei-me e decidi aproveitar as férias do Cofre, fomos para o Vau. No ano seguinte fomos para o Lago Azul, em Vilamoura, no outro para Vila Nova de Mil Fontes. E teria continuado por aí não fosse a postura irredutível da Inês, «não vou... eu vou para a Ericeira». Entretanto a sogra comprou uma quinta e pensei (mal...) que era para todos! A minha mãe, como de costume, meteu-se onde não era chamada e foi dizer-lhe que eu devia ir de férias para a quinta em agosto. O que ela foi fazer! E fomos, em 2004. O pior ano de todos, aquele em que fiquei a saber que nem para nora quanto mais para professora servia. Fui-me embora, jurei nunca mais voltar. Ainda lá fui uma vez almoçar, depois do cancro, e no ano em que a Noca morreu, mas as memórias assombram-me de tal forma que parece que rebento. Foi o ano em que as coisas correram bem na Ericeira com a mãe. Depois do ano horrível de 2004, chegou o ano horrível de 2005 e com ele o cancro, de mansinho, e o verão foi outra vez uma desgraça. As miúdas começaram a achar que não tinham de prestar contas a ninguém, vésperas de a Inês ir para os Olivais, para a Faculdade. Chegavam a casa de dia, andavam a noite toda na rua, não davam cavaco a ninguém, não paravam em casa, não ajudavam a ponta de um corno e, ainda por cima, com a cobertura da avó, «despacha-te que a tua tia vem aí...». Disse à minha irmã que não aguentava mais e que me ia embora. A Inês, claro, ficou, e ficou para sempre. Ainda lá está...
Então, estamos em 2006, em tratamentos, ficava a dormir na pensão Fortunato e os miúdos estavam com a avó. Em 2007 fiquei na Fonte do Cabo. Em 2008 fiquei no Martins, em 2009 numa casa onde mal cabíamos e a Noca morreu. Em 2010 no Martins, novamente, 25 anos de casada. 2011 ainda Martins e depois de o Calado emigrar, e já sem subsídio de férias, por conta do vigarista do Sócrates e das políticas horrendas do Passos Coelho, passei a ficar com a mãe para a Amélia ir trabalhar. Isto até 2014, ano de recuperação do subsídio de férias, ano do casamento da Inês, anos tranquilos na Ericeira, muito tranquilos até. As pazes com a mãe estavam consolidadas, apesar de as coisas com a Amélia já estarem azedas há uns tempos. Mas a mãe morreu e tudo desabou.