terça-feira, 30 de julho de 2019

Helena, obrigada por existir...

              Ouvir isto de alguém... É tão bom, tão comovente... Este ano foi difícil, mais um com dramas pessoais, tão duros, tão injustos. Perder um aluno, uma turma arrasada pela perda, miúdos pequenos para quem esta foi a primeira perda. Ir com eles à igreja, estar no mesmo espaço em que está um corpo de uma criança com quem convivemos, com os familiares inconsoláveis, um destroço de vida. Como explicar que a morte faz parte da vida a miúdos, principalmente a morte de um miúdo. 
          Sábado de manhã, toca o telefone, «Lena, está em casa? Posso ir aí?». Claro, vem... «O meu primo está em morte cerebral e eu não sei o que hei de fazer.». Ó miúda, não tens de fazer nada, só tens de ser como és, uma miúda querida... E correu bem. Foi para casa mais tranquila, já eu não, fiquei lavada em lágrimas mas orgulhosa por ela se ter lembrado de mim, quando quis sair de casa para arejar, porque já não aguentava mais. 
             Às vezes, sinto-me tão inútil, tão vazia... E depois há  estas coisas que me preenchem, que dão algum sentido à minha vida. 

Em tempo de férias


          26 de julho, dia dos avós. Um dos bons dias de 2019. Felizmente já houve vários, ao contrário do ano de 2018, um ano terrível. 
           O que me faz feliz? Estar com a minha neta. Estar com os meus filhos. Estar com o Domingos. Nem sempre é assim. Às vezes não é mesmo assim e é um desperdício. Tanto amor para dar, às vezes para nada... É verdade... Mas pondo as coisas em perspetiva, considerando o deve e o haver, há mais momentos de felicidade genuína do que os outros, que dispensava, oh como os dispensava... Mas é assim...
           Véspera de férias, novamente. As últimas foram das piores. Foi inacreditável. Tive férias horríveis na Ericeira, mesmo quando alugava, arrendava, assim é que é, lá casas, ainda foram alguns anos. A primeira vez, fomos para uma casa por cima de um restaurante e de um bar. Uma desgraça, noites mal dormidas e todos em cima uns dos outros, mas não fazia mal, porque foi a primeira vez que tivemos a possibilidade de ir de férias. Já estávamos no Alentejo, longe do mar, por isso qualquer coisa era boa. No ano seguinte, fomos para o último andar no prédio dos gémeos, a Teresinha e o Luís, alunos queridos anos mais tarde com uma história de vida, talvez das mais tristes alguma vez vividas. Nesse ano, nem sei bem porquê, as minhas expectativas estavam ainda mais elevadas, levámos a Noca connosco o que fazia com que a miudagem fosse lá a casa mais do que seria costume. Lembro-me dos gémeos a correr escada acima para ir ver o cão! Mas aquela coisa de irmos todos para a praia depressa se esvaiu... «Aqui só vamos para a praia ao meio-dia...» Pronto, percebi, não é para irmos juntos, pois com bom tempo ou mau tempo, nós respeitamos as horas em que não se deve estar na praia e ao meio-dia é hora de sair da praia e não de entrar. Por isso, «não tamos junto». E foi assim, à tarde, quando voltávamos à praia, estavam eles de saída e às vezes a praia «fechava», pura e simplesmente. Depois começaram as tricas entre as miúdas, os comentários: «meninos, escondam as carteiras», aquele que não paga o toldo, as conversas à parte, o corta na casaca, as bebedeiras à noite, os amigos importantes, aquilo que eu mais detesto... Fartei-me e decidi aproveitar as férias do Cofre, fomos para o Vau. No ano seguinte fomos para o Lago Azul, em Vilamoura, no outro para Vila Nova de Mil Fontes. E teria continuado por aí não fosse a postura irredutível da Inês, «não vou... eu vou para a Ericeira». Entretanto a sogra comprou uma quinta e pensei (mal...) que era para todos! A minha mãe, como de costume, meteu-se onde não era chamada e foi dizer-lhe que eu devia ir de férias para a quinta em agosto. O que ela foi fazer! E fomos, em 2004. O pior ano de todos, aquele em que fiquei a saber que nem para nora quanto mais para professora servia. Fui-me embora, jurei nunca mais voltar. Ainda lá fui uma vez almoçar, depois do cancro, e no ano em que a Noca morreu, mas as memórias assombram-me de tal forma que parece que rebento. Foi o ano em que as coisas correram bem na Ericeira com a mãe. Depois do ano horrível de 2004, chegou o ano horrível de 2005 e com ele o cancro, de mansinho, e o verão foi outra vez uma desgraça. As miúdas começaram a achar que não tinham de prestar contas a ninguém, vésperas de a Inês ir para os Olivais, para a  Faculdade. Chegavam a casa de dia, andavam a noite toda na rua, não davam cavaco a ninguém, não paravam em casa, não ajudavam a ponta de um corno e, ainda por cima, com a cobertura da avó, «despacha-te que a tua tia vem aí...». Disse à minha irmã que não aguentava mais e que me ia embora. A Inês, claro, ficou, e ficou para sempre. Ainda lá está...
             Então, estamos em 2006, em tratamentos, ficava a dormir na pensão Fortunato e os miúdos estavam com a avó. Em 2007 fiquei na Fonte do Cabo. Em 2008 fiquei no Martins, em 2009 numa casa onde mal cabíamos e a Noca morreu. Em 2010 no Martins, novamente, 25 anos de casada. 2011 ainda Martins e depois de o Calado emigrar, e já sem subsídio de férias, por conta do vigarista do Sócrates e das políticas horrendas do Passos Coelho, passei a ficar com a mãe para a Amélia ir trabalhar. Isto até 2014, ano de recuperação do subsídio de férias, ano do casamento da Inês, anos tranquilos na Ericeira, muito tranquilos até. As pazes com a mãe estavam consolidadas, apesar de as coisas com a Amélia já estarem azedas há uns tempos. Mas a mãe morreu e tudo desabou. 
                     

Famílias

          Faz agora um ano que recebi um telefonema em que a minha interlocutora, uma assistente social, me disse para eu não me alarmar, porque ela estava a ver uma luz ao fundo do túnel. Faltava dizer que o túnel era enorme, comprido, interminável...
          Perguntou-me se eu não ficava com os meus sobrinhos-netos para evitar a institucionalização dos miúdos. A minha alma perdeu-se, nesse momento... Fiquei sem pinga de sangue... Tinha sido a minha irmã a sugerir à Segurança Social o meu nome... Eu, aquela irmã... A única coisa que sabia e sei daqueles miúdos é o nome e pouco mais. O mais velho, o Tiago, fui vê-lo quando nasceu, levei fotografias à minha mãe. Desde aí, nunca mais o vi. Os outros, sim, são três, nunca os conheci, o Duarte e o João Pedro. Histórias de terror, gravidezes escondidas, pais por apurar, mãe incompetente, retirados, dados para adoção ou para instituições. A minha mãe daria voltas na sepultura, se estivesse numa! «A médica disse que eu era boa mãe...» teve o desplante de dizer à pobre velhota a propósito do mais pequeno, hiperativo, mais normalmente conhecido como mal-educado, quando ia às consultas com o miúdo, depois de o zurzir de pancada, às custas da avó. Como é que chegamos aqui? Como é que chegámos a este ponto? Não fiquei com os miúdos. Chegámos a pensar há uns anos, quando soubemos que as coisas estavam complicadas e já tinham sido entregues a uma instituição, mas acabámos por não o fazer, tinham visitas regulares dos avós e as coisas pareciam protegê-los. Mas voltaram para casa. E o inevitável chegou. Mas eu não os conheço, são familiares é verdade, mas são, somos estranhos. Não nos conhecemos. Receber estranhos em casa, com um historial de violência, de dependências em casa, de mentiras atrás de mentiras... Já estamos velhos, com receios, porque eles chegam... Fiquei de pensar e de falar com a minha família. «Não se meta nisso!», a decisão não é vossa, é nossa. Partilho com vocês as questões, mas somos nós que decidimos. Fica muito bem bater com a mão no peito, «por minha culpa, por minha tão grande culpa», mas depois nada... Que raio de gente somos nós? Voltei das férias, liguei à assistente social, já nem se lembrava de mim, não referiu o meu nome ao juiz e o processo estava em andamento. Não sei nada deles.
         A primeira vez que falei com a CPCJ, foi-me dito que a minha irmã teria dito que não tinha irmãs. A partir daqui haverá pouco a dizer ou a fazer, daí ter ficado espantada com o telefonema. Foi ela que disse para me ligarem para ver se ficava com os miúdos, os mais velhos.  Do mais novo, foi-me dito que já teria sido adotado... Espero que por uma família «como deve ser...»
           Tranquila? Nem por isso. Esta é a minha família.Três irmãs que não se dão. Sobrinhos que me envergonham. Primos que não se dão. Réplica daquilo que eu detestava ver quando era miúda. 
          O meu pai detestava as minha tias. A única de quem gostava era aquela com quem a mãe de dava pior. Crescemos num ambiente em que irmãos não se falavam, irmãs zangadas. O meu pai não falava com o tio Mário, um sacana de primeira. Deixou de falar ao tio Joaquim, que o considerava um caso patológico, que salvou a vida da minha mãe ao fazer-lhe um aborto, mas que lhe pagou com o silêncio para o resto da vida. E por aí fora... O tio Arsénio não falava com o Armando, a mãe detestava a Antonieta, o pai detestava a tia Ivone e a tia Lourdes, a Tia Manuela foi proscrita, o avô era maluco... E não há famílias perfeitas! Mas nunca pensei que connosco fosse acontecer o mesmo. Não falo à Amélia, irmã que literalmente nos tirou tudo, o pai, a mãe e todos os bens, menos aqueles que consegui trazer com a mãe viva e aquilo que a obriguei a prometer-me que me dava, a mesa e o espelho dourados. Não falo à Paula, mentiras atrás de mentiras a vida toda... 
          Aqui, as mentiras não são perdoadas. Mas existem... Também existem as omissões e muita hipocrisia... Como disse, não há famílias perfeitas. A minha também não o é.