sábado, 5 de março de 2016

Em trânsito...

       Ainda na casa velha, assim denominada desde sempre, lembro-me, especialmente, de um banho, aquele depois de uma queda monumental na Boca do Inferno, naquelas rochas medonhas, numa correria desenfreada atrás das minhas irmãs... penso que esse terá sido sempre o meu mau fado! Escavaquei-me toda, «parti os queixos» era o que me ocorria dizer, e estive muito maltratada durante muito tempo. Nessa queda «ganhei» a minha primeira cicatriz, no lábio inferior, do lado direito. Mas retomemos o banho, encarnado de tanto sangue que aqueles joelhos deitavam, cheio de  lágrimas misturadas com as dores no corpo e na alma. Quando as feridas começaram a sarar, parecia-me que as crostas eram feitas de amendoim, tal eram grossas, duras e bicudas como os amendoins partidos, como aqueles restos que me ficavam nas algibeiras da bata azul quando ia às máquinas de moedas que havia no recreio enchê-las daqueles frutos secos e apetitosos.
         Recordo ainda o suicídio da mãe de uma colega nossa do Liceu Francês, foi a primeira vez que ouvi tal palavra, a dor de toda uma escola, o horror de saber que havia gente que, sabia lá eu porquê, se matava, deixando os filhos na maior das tristezas.
             E houve aquele dia, cheio de sol, em que fomos ver a casa nova, subimos ao 5º Esq. De lá via com todo o seu esplendor o Tejo! Os Olivais estavam a crescer mas ainda não havia prédios que tapassem aquela vista. O sol dava naquele lado do prédio de manhã, era o último andar e lembro-me, como se fosse agora, de a mãe dizer «Aqui só os passarinhos nos vão acordar!». Não sei o que se passou, mas fomos parar ao 3º Dtº. Não que me tivesse incomodado, mas aquela vista e o sol da manhã ficaram-me sempre atravessados. Acabaram por ir para o 5º Esq. as Coutinho, três miúdas queridas, filhas de uns pais queridos. 
           E depois chegou o dia da mudança. Cada uma tinha o seu quarto, ainda havia o quarto para a Floripes, a nossa Maria. Três casas de banho! Janelas grandes. Uma cozinha onde se podia correr e um corredor que atravessava toda a casa, o quarto da do meio, o da mais velha, o meu e desembocava no dos pais. Dava para fazer tudo ali, andar de patins, subir às paredes e saltar para o chão, andar à bulha... Não havia muita coisa para levar. Os nossos quartos só tinham os tais divãs, mais tarde substituídos por camas de ferro. Lembro-me dos ecos da casa vazia. A sala e a casa de jantar foram arrumadas e mantiveram essa arrumação a vida toda da minha mãe. Entre um espaço e outro colocou-se um armário em mogno envernizado, com portas de vidro, onde iriam ser organizados os imensos volumes da Enciclopédia Portuguesa-Brasileira que vinham da casa velha. Claro que fui eu que os arrumei até à altura em que me saltou de um dos volumes uma barata. Santo Deus, aquilo é que foi um susto, gritei desalmadamente, mas foi a última vez que vi tal bicho dentro de qualquer uma das minhas (futuras) casas.
              Nessa altura já andava na formação musical da Gulbenkian e ainda estava na parte francesa do Liceu. Não sei por que razão não me deixei ficar quieta! Estava na 10ème, o equivalente à 2ª classe, tinha uma professora que adorava. A mãe ia buscar-me ao liceu para irmos para a Gulbenkian que, entretanto, iria entrar em obras, o que me desalentou (imagine-se) e pior do que isso, não havia vagas para piano, que era o que eu mais queria! Só para violino. As mais velhas não perderam tempo, «vais ficar com a cabeça à banda!», ora não bastava ser a mais pequena, franzina, morena de olhos castanhos, o próprio fósforo queimado, ao pé de duas loiras de olhos azuis e verdes, ter umas orelhas saídas e não ser nem a preferida, nem do pai, que já tinha o coração tomado pela mais velha, nem da mãe que tomou para si as dores da do meio, ainda tinha de ficar com a cabeça à banda? Não, violino não. Ou piano ou nada. Então ainda se pôs essa possibilidade, mas era preciso ter um piano. A A., inimiga visceral da mãe, por razões perfeitamente aceitáveis, ofereceu-se para me dar o piano dela. Ninguém o usava e assim o problema deixava de o ser. Qual quê? Um piano vindo dali? Nunca, até porque não havia espaço, claro que não, a arrumação da sala estava feita para a vida, não era a vontade de um pingente encardido que ia fazer a diferença... E não fez. Abandonei a música e pronto. 
             

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