Duas entradas para uma casa escura, quartos interiores sem janelas, uma varanda para a rua com uma tabuleta «Dr. Joaquim Martins, Cirurgião» pertença de uma sala com mobiliário em pau-santo, escuro, uma marquesa, sala essa de acesso restrito ou proibido. À entrada, uma mesa com um telefone, um telefone que precisava de moedas de cinco tostões para trabalhar. Punha-se a moeda numa cavidade que se cobria com um mecanismo que a empurrava e a deixava cair num recetáculo. Depois era só ir lá buscar a moeda e fazer mais uns quantos telefonemas «sem pagar» para as contas nunca darem certo. Um quarto ainda mais escuro do que os outros, arrumado a meio do corredor, do lado esquerdo de quem entra. O quarto das Marias, porque eram todas simplesmente Marias, mesmo que não o fossem. Uma cama estreita, uma mesinha de cabeceira com o candeeiro e um roupeiro ao fundo. Ainda uma casa de banho com uma janela que dava para um saguão, um quintal onde morava o Rigoletto, com umas escadas de ferro que cheiravam a ferrugem, um vizinho chamado Tony que comia pão com banana ou com tulicreme, mas sempre apelidado de Toddy por dificuldades de articulação. Mais uma sala estreita, também ela com uma varanda que enfeitávamos com colchas coloridas em dias de procissão, com o teto de estuque com desenhos, onde via televisão, as touradas e o folclore da minha infância enquanto comia, deliciada, mioleira(!), sentada na cadeirinha alentejana, encarnada, à mesa, aquela de madeira que se abria e fechava como uma mala (hoje em dia nem mioleira nem touradas!). Não sei se foi nessa sala que voei, literalmente, depois de ter chamado urso ao meu pai, terei voado com razão, mas o nome ter-lhe-á ficado assente que nem uma luva. Talvez o nosso quarto fosse nessa sala, há alguma confusão nos espaços que eu consigo recordar. Três divãs que se abriam à noite e que se recolhiam durante o dia para dar lugar a outro espaço, penso que o das refeições.
O quintal era o meu lugar preferido, desde que o animal do meu primo João não estivesse lá, pois adorava fazer xixi para cima de nós! O cheiro da ferrugem era insuportável, mas o Rigoletto estava lá e isso chegava-me. A cozinha dava para o quintal, por isso havia luz, era o lugar cobiçado pelo gato Rigoletto que, em podendo, subtraía tudo o que podia. Daí, quando um dia soubemos da sua morte, a minha mãe não se apoquentou nem um pouco.
Depois havia o consultório, um local solene, onde se tiravam as falhas das pernas, ganhas nos fabulosos escorregas dos parques, ou onde íamos tratar das mazelas que íamos arranjando, como daquela vez em que eu estava com o lápis na boca e que aquela extremidade de latão que cobria a borracha se enfiou no céu da boca, deixando-me com um bocado de «carne» pendurada e que foi preciso cortar.
Mas do que não consigo esquecer-me é das baratas. Montes de baratas, em fila, em trânsito à porta da cozinha. O ódio, o asco, a repulsa que sinto por essas criaturas é tal que ainda hoje me enojo quando vejo uma.
Depois havia a rua, o café da frente onde comia as saborosas sandwiches de manteiga (as minhas irmãs comiam de queijo ou fiambre) e os deliciosos rebuçados da Heller, à vista naqueles frascos gigantescos nos respetivos expositores. Havia ainda a padaria das vianinhas e das arrufadas e uma loja onde a mãe me comprou um conjunto de camisola e casaco cor-de-rosa que eu adorava e estimava por ser o único que tinha.
Ao cimo da rua ficava o centro vacinação, detestava lá ir, mas gostava dos cubos de açúcar que me davam depois de engolir aquelas gotas horrendas que nos enfiavam goelas abaixo. Perto, do outro lado da rua, ficava a Praça Mouzinho da Silveira onde morava o meu tio preferido, o meu padrinho. Às vezes ia lá dormir, era o meu programa favorito, mas tinha de levar comigo o Cenoura e o Atarax, sem eles nada feito, a minha adição estava traçada... Lá ia o tio rua abaixo buscar-me as cenas, normalmente o Atarax, o Cenoura era o meu amigo inseparável, o meu primeiro peluche dado pelo meu pai, que ainda hoje guardo, escondido, para que não se «extravie»!
Lembro-me dos bitoques e das lambretas na Soberana, mas também das baratas que circulavam por cima das nossas cabeças nos candeeiros daquele espaço.
Poucas memórias tenho das minhas irmãs nesse tempo, lembro-me de a mais velha, porque sim, como sempre foi, me bater com uma colher de pau, e da outra pouco ou nada ficou.
Com quatro anos fui para o Liceu Francês, chorei o dia todo no primeiro dia, fiquei íntima do Toninho Coelho, que, como eu, chorava baba e ranho, e depois a coisa passou até chegar à 3ª classe, quando decidi mudar para a parte portuguesa, já depois de nos termos mudado para os Olivais, para a Rua Cidade de Moçâmedes, lote 256, 3ºDtº, telf: 314350.

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