quarta-feira, 9 de março de 2016

As vozes e o escuro

          Quando era pequena, mesmo pequena, cresciam-me vozes na cabeça, não sei explicar melhor do que isto. Elas começavam como sussurros e iam crescendo, em gritos, até se tornarem insuportáveis. Lembro-me de segurar a cabeça com as mãos nas orelhas, mas o som ainda se tornava mais abafado, mais audível, mais ensurdecedor. Em desespero punha o gira-discos a tocar, fechava os  estores da sala e encolhia-me toda na mais profunda escuridão à espera que as vozes se calassem. Acabava, eventualmente, por adormecer e as vozes desapareciam. Era mínima, incapaz de explicar o que sentia, acho que nem nunca tentei. Nunca ninguém entendeu o porquê da escuridão em que me iam encontrando, quando a mãe chegava do trabalho e me encontrava assim na sala, desatava a barafustar comigo, a mãe nunca fechava os estores e detestava estar às escuras. Nem valia a pena tentar explicar. Depois eram as idas infindáveis à casa de banho, sempre cheia de vontade de fazer xixi, deitava-me, levantava-me, casa de banho, cama, casa de banho... até à exaustão. Nada que não fosse resolvido com Atarax, abençoado! E passou. De repente as vozes sumiram, deixaram de me atazanar. 

0 comentários: