quinta-feira, 31 de março de 2016

Mentiras

        Nunca fui dada a mentiras, apesar de ter dentes de mentirosa, tinha medo de ser apanhada e se o fosse as consequências eram um problema. Mas às vezes, não era por uma questão de coragem, a mentira era mesmo uma necessidade.
           Numa casa onde o «sim» era uma raridade enquanto resposta a um pedido para sair, ir ao cinema, a um concerto, até a casa de algumas pessoas, ou viagens, o mais certo seria um «talvez» que significava sempre «não», uma e outra mentira teriam de fazer o serviço. 
            Tanto que eu pedi para ir ao concerto dos Genesis, «talvez», claro que não fui, ainda por cima no dia a seguir em parangonas no jornal podia ler-se, «Música, fumo e cheiro a droga», mais uma razão para eu não ter ido. Não fui a esse e a um monte de outros, enquanto toda a gente que era gente ia a tudo e mais alguma coisa, nós ficávamo-nos pela Festa do Avante, porque, normalmente, nos ofereciam as EP e, acima de tudo, porque, supostamente estávamos acompanhadas pelos nossos primos mais velhos (o que nunca impediu valentes pielas e outros excessos). 
             As restrições eram tantas e tais que cada saída, autorizada ou não, era sempre um desafio à normalidade, havia sempre que ir para além dos limites, do aceitável. Depois eram os horários impostos, às tantas horas com meia hora de tolerância, ou então, porque tinha havido alguma falta de pontualidade, sem qualquer tolerância. Se só podia sair por três horas, entrava e saía de casa tantas vezes que o pai lhe perdia a conta. Mais uma provocação do que outra coisa qualquer, mas irritava viver assim, silêncios alternados com gritos, ordens porque sim, não vais porque não! 
              Mas, mais tarde, a provocação não ficou sem resposta, nunca ficava, nem de um lado nem do outro. Davam-nos sempre algum dinheiro no Natal para podermos comprar presentes, nunca era muito e tinha de ser bem gerido. Nunca sabia o que havia de dar ao pai, sempre seco, sem nada para fazer ou dizer, já não lia, não ouvia música, andava para trás e para a frente naquele corredor horas a fio. O dia todo fechado em casa ou no carro ao sol, quando estava frio ou quando ia lá a casa uma das tias com quem ele não queria estar. Elas entravam por uma porta enquanto ele saía pela da cozinha. Por vezes saía para ir ter com os irmãos, outras nem nunca soube para onde ia. A casa era sua, entrava e saía quando assim o entendia, não dava cavaco a ninguém, nem se despedia, nem anunciava a chegada. Éramos estranhos. Um dia encontrei-o no regresso a casa no autocarro, o normal seria ir para o lado dele, sair com ele e com ele ir para casa. Mas não foi isso que aconteceu. Mas retomemos aquele Natal, comprei uma agenda. Não sei o que me passou pela cabeça, oferecer uma agenda a quem nada fazia, a quem gastava as solas dos sapatos num corredor andando para trás e para diante. Pois foi logo o que eu lhe dei no Natal. E soube dar-lhe uso, começou a anotar naquelas páginas as horas a que eu entrava e saía e para onde ia. Bem feito!
           

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