«Professora, o que é apoquentar?», desatei-me a rir! Lembrei-me logo da Mãe, «Não me apoquentes!» Luís, imagina-me a «melgar» insistentemente a minha Mãe. Já imaginaste? Então, aí ela dizia-me, furibunda, não me apoquentes...
E era mesmo assim, se uma dizia branco, a outra dizia creme, cinzento, preto, se era carne, devia ser peixe, se era melhor dormir mais uma hora, eram horas de ir para a mesa, se era domingo, eram horas da missa. Nunca havia um consenso, era uma guerra pegada de manhã à noite. E durou anos, décadas, até 2010, aí, sei lá porquê, a coisa parou. Mesmo enquanto estive doente, havia discussões ao telefone, por tudo e mais alguma coisa, mas sobretudo por causa de uns monstros criados debaixo dos nossos tetos, dos nossos narizes, que cresciam a olhos vistos e eram alimentados diariamente à custa de um sofrimento incomensurável, indescritível, interminável. Tinha sempre uma boa desculpa, os malandros, os fulanos, os coitados... e lá ia mais uma dose de ajuda, para o telemóvel, para jantar fora, o marido fazia anos, para pagar o IMI do mesmo que fazia anos, pois ele não podia, coitado, não tinha trabalho, «vó, não tenho dinheiro para dar de comer à não sei quantas», «vó, não tenho dinheiro para os tratamentos do meu menino, tadinho», vó para cá, vó para lá, «não posso trabalhar, não tenho onde deixar a criancinha»... e por aí fora, sem dó nem piedade, sem apelo nem agravo, dia sim dia sim... Um calvário de décadas. Não se despediram de quem as sustentou a vida toda, não mostraram a mínima consideração por quem tudo fez, o que devia e o que nunca deveria ter feito. Uns monstros. «Eu criei uns monstros...».
Mas o não me apoquentes era para mim, e a maioria das vezes tinha razão para o dizer. Achei sempre que a única forma de me mostrar, de dizer que existia era contrariá-la, «eu não pedi para nascer, o mínimo que podias fazer era dar-me a porcaria do sutiã de que preciso!», «as meias caem-me pelas pernas abaixo, preciso de meias, eu não pedi para nascer, preciso de meias» e o argumento até ia resolvendo a coisa, porque, de facto, precisava das meias, das cuecas e dos sutiãs! Já a outra tinha direito a roupas da Migacho, casacos da Materna (que morriam por falta de uso no armário), calças Levi's (rotas até mais não, que o pai escondia no mesmo armário só para não a ver com aquilo vestido) e tudo o que quisesse, portanto se eu não reclamasse da vida, andaria com as cuecas e as meias a cair, porque era assim, «Não me apoquentes!». Sempre que era confrontada com uma daquelas verdades incontornáveis, a resposta era essa, não havia mais nada para dizer, portanto eu que não a apoquentasse.
Mais tarde, o não me apoquentes já não chegava, então rematava com «não tenho nada para te dizer». Foi a pior fase e não tinha mesmo, porque só falava da outra ou do fulano, e eu também já não aguentava tanta merda. «Mãe, não podes passar a vida a falar dessa gente, eu já não aguento», «Então não tenho nada para te dizer». E como não tinha, houve muitos períodos, longos períodos de um silêncio gritante. E se ia a Lisboa, não a ia visitar, e deixei de lhe falar várias vezes, ainda me descompôs na minha última gravidez, e por outras razões que nunca o foram. Sempre maldisposta, sempre amarga, transtornada, alterada, irreconhecível com as suas fúrias incontroláveis, «Mãe, está uma senhora vestida de preto na casa de banho!», «Ó filho, é a avó!». «É esta a imagem que queres deixar aos teus netos?», «Eu quero lá saber da imagem que deixo aos netos, não me apoquentes!»
Mas no fim, foram estes netos que a acompanharam, «não guardei os teus filhos para isto», «Pois, Mãe, mas é para isto que a família serve!», cada vez que eles chegavam a Mãe esticava as mãos para lhas dar e ficava de mão dada, sem largar, até ser substituída por outra mão que chegasse. «Olá, Vó!», e esticava os braços, sem falar, e agarrava-se a eles com toda a pouca força que ia tendo...
Ninguém se esqueceu do mau feitio, das amarguras, dos gritos, dos comentários desagradáveis, mas lembramos sobretudo as gargalhadas, as piadas que não compreendia, as politiquices, o ódio visceral ao Cavaco e a todos os malandros, as manhãs passadas no Parque de Santa Marta na Ericeira, ou nos Navegantes, o café, os pastéis de bacalhau, o carapau grelhado ou o peixinho frito, as Línguas de Veado, os Suspiros, os Babás, os seus pequenos grandes prazeres.

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