domingo, 29 de julho de 2018

Vira o disco e toca o mesmo

           Quero crer que um dia, nesse dia em que a minha cabeça estiver realmente arrumada, conseguirei seguir em frente, mas para isso tenho de saber conviver com todos os meus fantasmas que, como as bruxas, existem e atormentam!
         Não quero, como a minha mãe dizia, esquecer! Perder a memória ou torná-la tão seletiva assim seria esquecer parte da minha vida e sem memória não existimos plenamente. Mas queria saber conviver com dignidade com as memórias más, com as menos boas, aquelas que, cada vez mais, me incomodam, me atormentam, que, tantas vezes, me roubam o ar!
              A começar por aquelas em que o meu pai é o herói. Raras são as boas! Talvez as dos Natais de quando era pequena, em que apesar de tudo, com a companhia do tio António, o ambiente era mais festivo! Quando íamos beber as lambretas (hoje em dia, impensável), ou quando íamos comer fora, bitoque ou frango assado! Ou talvez quando íamos comer marisco! E quando íamos ao café em 78/79, não sei porquê, talvez porque com a saída da Paula de casa o ambiente se tornara diferente... Mas as coisas corriam sempre melhor fora de casa, os dias passados em casa eram, por norma, sem qualquer alegria. As rotinas, por vezes, eram penosas, sobretudo a partir do dia em que o meu pai foi «dispensado» do trabalho. Enfiou-se dentro de casa, percorria o corredor, para trás e para a frente, saía a determinadas horas para ir beber café, ia, às vezes, ter com o tio António à Baixa, mas não saía disto. Sentava-se a ver televisão e a fumar, de boquilha permanentemente na boca, uma nuvem sempre de volta dele. A mãe chegava do trabalho, a primeira coisa que fazia era ir dar-lhe um beijo na testa, sem resposta, mesmo que estivesse profundamente magoada com ele, e devia estar muitas vezes, nunca deixou de fazer o seu cumprimento. Nunca o vi dar-lhe a mão, um beijo, um carinho, um elogio, nada. Uma secura completa, um vazio... Ela dava-lhe o braço quando andavam na rua, mais nada. Os silêncios eram mais frequentes dos que as conversas, que, normalmente, acabavam mal, com um murro na mesa, com um «a culpa é tua» e depois seguiam-se meses de silêncio. Continuo convencida de que os seus segredos eram tão poderosos que, quando as coisas azedavam a sério, prevalecia a vontade da mãe. Apesar dos gritos, dos silêncios, nunca chegou a agredir fisicamente a mãe. Já eu e a Paula não podemos dizer a mesma coisa. Já referi o voo que fiz por lhe ter chamado urso, mas com quatro anos já não tolerava os seus gritos com a mãe, levei um tal estalo que voei da cadeira ao jantar, lembro-me como se fosse hoje. Nunca lhe perdoei, não pelo voo, mas pela recorrência dos berros. Era  um homem calado, mais  valia que não abrisse a boca, porque quando o fazia era só para magoar, insultar, rebaixar... Raras vezes o vimos rir, quando estava com os irmãos ou com os sobrinhos, sim. Connosco era raro. Era um homem de aparências. Escondido debaixo de um fato feito à medida pelo Lima, vivia um homem com um passado de que não falava, alguém que não tomou decisões, nem em relação aos seus estudos nem ao seu casamento. Deixou que o fizessem por ele. Cheio de rancores, viveu a sua vida a «castigar» os mais próximos, mas sobretudo as mais frágeis, a mãe, a Paula e eu. Porque na menina dos seus olhos ninguém tocava! 
         Enfrentei-o várias vezes, apanhei por isso! Não me arrependo, só me arrependo de não o ter enfrentado mais vezes, já que era para levar, então que fosse por tudo e não só por aquilo que muitas vezes nem entendia. Pontapés, estalos... Mas os pontapés eram mesmo o que mais parecia refletir o desprezo que ele sentia e que, finalmente, acabei também por sentir. Quando batia na Paula e a deixava estendida no chão... Incompreensível! Para! Não lhe bates mais! E a mãe a suplicar! Nada... Só pondo-me à frente, e isso a mãe não fazia. Claro que quem levava era eu, por me pôr à frente, mas, principalmente, por lhe fazer frente... Um monstro. Não era um urso, era mesmo um monstro. Teria continuado com os netos, disse-lhe várias vezes «não lhes bates!», vontade não lhe faltava. Não sabia falar, a violência era sempre mais segura e, seguramente, mais eficaz.
         
                

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