Já lá vai quase um ano... Já fiz 57! O Zé Pedro morreu logo a seguir! Já fui avó! Já me zanguei mais mil vezes! E não fiz qualquer registo de felicidade, angústia, tristeza. Já fechei o blogue aos olhos de quem me olha de esguelha, sobretudo para ter tempo de pensar no que tenho escrito, feito, sido...
Este é o meu «diário» que de diário tem sido pouco, mas é o espaço onde relembro e registo o que vivo e sinto. Às vezes a dor é enorme, a escrita alivia-a, mas, apesar de sentir essa enorme vontade de escrever, não sei se partilhar «tudo» neste mundo será o que quero. As minhas «coisas» são, de facto, minhas. Preciso de as escrever. Preciso de as processar, de as pôr em perspetiva. Não sei se as posso dar a ler a quem nada entende, a quem, como eu, faz juízos de valor, sem que consiga, minimamente, entender o que vai no coração e na cabeça de quem sofre mágoas de escola, mágoas de família, e, sobretudo, de uma solidão encapotada, longe de quem mais gosta, do que mais gosta, percebendo que muito dificilmente vai recuperar o que, aos poucos, vai perdendo, a autoestima e o amor próprio.
Houve cortes profundos, radicais. A família alargada deixou de existir. Deixou de fazer sentido. O corte foi tal que nem sei quem, dos mais velhos, ainda está vivo! Soube que a A., que tanto atormentou a minha mãe, morreu. Soube-o pela Mila que encontrei em Santana, onde ela tem uma casa de férias que conhecemos em miúdas, quando ela deixou de ir para a Várzea. Já do Armando nada sei. O Mário ainda me mandou um sms nos meus 57. Mais nada. A Paula, descaradamente, depois de anos sem uma palavra, ou sequer uma conversa sobre a morte da mãe, contactou-me para fazer o que sempre soube fazer, cravar! Dos meus sobrinhos nada sei... E, assim como assim, não quero saber! Anos de mentiras, intrigas, abusos, manipulação... Chega. Foi tudo demais. A minha mãe teve uma boa dose de responsabilidade nesta tragédia anunciada. Fez escolhas, escolheu proteger uns, porque sim, porque tinha de ser assim, deu no que deu! Imaginou que a vida dela seria na sua casa até morrer com a filha que nunca lhe tinha dado problemas. Dessa nem quero falar... Deu no que deu, um triste fim anunciado, a maior parte do tempo sozinha, em conflito constante, triste, triste, triste! «Fui muito infeliz» disse ela no dia antes de morrer. E foi-o. E todos nós contribuímos em larga escala para essa infelicidade. Eu tenho uma bela quota-parte na coisa. Corrigi muitos dos meus comportamentos nos últimos anos, mas não foi o suficiente para apagar o que nunca poderia ser apagado. Incompatibilidades viscerais minaram as nossas vidas, salvaram-se os netos, os meus filhos, que, apesar de tudo, nunca a rejeitaram e no final foi com eles que a avó pôde contar.
Olho para mim, não gosto do que vejo. Tenho razões, carradas delas, para inverter este percurso, mas deixo-me ir, engordo descomunalmente, como que para me castigar, porque me estou nas tintas para mim própria, e para muitos dos outros. Depois, vejo-me grega para emagrecer, até porque, como não me olho, nem vejo o estado lastimável a que chego, com a maior das facilidades, a não ser quando vou ao médico e me mandam subir para a balança. Aí... Não há como fugir da realidade, da vergonha, do peso...Fico em casa, escondida, longe dos olhares, dos comentários nas costas e, sobretudo, da pouca correção com que os outros acham que podem tratar quem é «diferente». Mas, convenhamos, só posso queixar-me de mim própria. Deixo-me ir abaixo por dá cá aquela palha, quando devia dar uns bons murros na mesa! Às vezes nem sei bem o que quero.
Já me aconteceram coisas inconcebíveis! Receber uma carta anónima foi uma delas! Mas depois quero acreditar no que sempre acreditei, no fundo ficam as dúvidas que nunca se dissipam e acabo por viver com elas todos os dias! E tudo aquilo que eu disse que nunca admitiria vou consentindo, na esperança que os dias sejam bons dias. Mas nem sempre o são. Porque a memória é viva e está sempre presente e, de repente, assalta-me como se eu precisasse de reviver o que mais me feriu...
Vim para o Alentejo para nos salvar das más línguas caldenses, de uma perseguição desenfreada à nossa família por alguém que assegurava saber de comportamentos menos próprios... Era a nossa família ou nada... Escolhemos a nossa família, o calor, a distância, a falta do mar, da praia na esperança que tudo passasse... Passaram-se anos... Os filhos saíram de casa, extraordinários! Apesar da minha inconstância, desequilíbrios, bipolaridade, são Pessoas de valores. A mãe dizia que tinham sido educados pelo pai... Por vezes, magoam-me! Oh como! Mas faz parte. Crescemos, com embates, com divergências, com muitas lágrimas e saudades. Mas faz parte.
Agora sou avó! Tenho uma Matilde. Linda, doce! Longe! Fiz casacos e casaquinhos à espera que ela chegasse, tal e qual como o fiz à espera da Inês. Conto os dias que faltam para a próxima visita, espero, ansiosamente, pela fotografia do dia, pelas novidades. Gostava de ser uma avó (p)Lena, presente, disponível. Para já, sou uma avó condicionada pela distância e pelo respeito que tenho pela privacidade dos pais. Não quero ser abusadora, invasiva... Seja lá o que isso for!
Tenho um longo trabalho pela frente: pôr a minha cabeça em ordem, a partir daí, se a saúde não me falhar, as coisas começam a encaixar umas nas outras. Não vou escrever sobre a escola, é uma angústia e não tenho solução, para já, para o que se aproxima! Em setembro penso no assunto, agora é só mais uma razão para andar deprimida.


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