domingo, 29 de julho de 2018

Agora, imagine-se...

           Com uns catorze ou quinze anos, a ordem foi a seguinte: 
«vens lavar-me as costas!»! Mas o que é que é isto? Isto é o quê?
          Olhei para ela? Para a minha irmã mais velha, a menina dos seus olhos, a mais inteligente, a mais sábia, a melhor em tudo? «O que foi? Vais!» E fui quando me chamou. Naqueles segundos antes de entrar na casa de banho pensei que o ia ver nu! O que é que ele me queria? Onde é que se via uma coisa daquelas, um pai a mandar uma filha adolescente entrar na casa de banho e ir lavar-lhe as costas... E pior! A outra, sem qualquer hesitação, a dizer-me para ir! E por que é que não ia ela? Fui. Aterrorizada. Entrei e dei com ele de cuecas, aquelas a que hoje chamamos boxers. Lavei-lhe as costas, uma treta! Saí dali o mais depressa que pude. Nessa altura não se falava em pedófilos, em abusadores, só havia pessoas más e lobos maus que comiam criancinhas. Havia também o meu avô Luís, maluco, a quem a minha mãe não podia fazer uma visita sozinha, porque ele não era bom da cabeça e nunca se sabe... No fundo, ele sabia bem de que matéria era feito. Via nos outros o que ele, de facto, era, um abusador, um agressor, um vexador... De quem não se podia falar, cuja imagem, com os fatos do Lima, era impecável. 
           Não me venham com merdas! A parva da minha irmã mais velha diz que não tem razão de queixa dele, porque ela sempre se portou bem... Pois eu portei-me mal e, por isso mesmo, devia ter tido um pilar que me orientasse, um pai que me desse colo e que me dissesse que, se tinha feito mal, havia de fazer bem, que ninguém nasce ensinado, que temos de cair e de nos levantar montes de vezes até conseguirmos andar... Nunca soube fazer nada disso. «Podias voar alto!», mas nunca me deu o balanço necessário para o fazer...
           Não se deve falar mal dos mortos... Porquê? Se foram eles que nos criaram os medos, as angústias, os que nos fizeram desejar a sua própria morte. Não se deve falar mal da família, porque lhes devemos tudo... O quê? A indiferença, o desprezo, o vexame? Ingrata! Se calhar, porque nem tudo foi mau. A escola foi sempre uma prioridade e, quando hesitei entre ir ou não para a faculdade, foi ele que me perguntou se eu quereria ficar a minha vida toda atrás de um balcão. E fui para a faculdade. 
            No batizado da Matilde, o Domingos leu um trecho, escrito pela Inês e pelo António, que se referia aos bisavós «para que sejam sempre exemplos de amor, de família, de amizade e de muita alegria na vida da Matilde», todos menos o bisavô Paulo.

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