«- Sim, gostei de as pessoas se sentarem à volta dela e falarem. (...) um dia, quando for crescido, vou ter uma mesa grande como aquela para mim e para a minha família. Quero sentar-me à volta dela e conversar, como eles fazem.» O Fio do Destino, Laura Schroff, ASA, 2012
Uma casa de jantar é uma casa de jantar! Longe dos sofás, da televisão, um espaço privilegiado para se comer e conversar. Quando era miúda, a nossa sala era grande, mas dividida nos dois espaços distintos, o de estar e o de jantar, em casa do Domingos também! Quando me casei, as casas eram tão minúsculas que era impossível fazer essa divisão, apesar de a mesa, uma pequena camilha, estar num espaço definido, mas a televisão estava sempre lá e não a desligávamos. A primeira casa de jantar que tive foi nas Caldas, na Rua Fonte do Pinheiro, um prédio decrépito, mas que me serviu lindamente! A casa de jantar era muito pequena, dava para a mesa (já tinha podido comprar uma e o Domingos tinha desenhado umas cadeiras que custaram uma ninharia na altura) e para as cadeiras, não havia espaço para mais nada, as cortinas fi-las eu, com o tecido do Kilo Americano, em verde e cru. Tinha tanto gosto naquele espaço... Ainda hoje conservo o tecido, agora a cobrir as cabeceiras de um dos quartos vazios cá de casa. Em Montemor, a cozinha era tão grande que era lá que fazíamos as refeições, esporadicamente na sala, onde repousava a mesa nova herdada da Assunção, e que ainda hoje é a nossa mesa de jantar. Nesta casa, felizmente conseguimos ter o meu espaço de estar a comer, primeiro na divisão mais pequenina da casa, o sr. Luís dos móveis São Francisco, que acabou por nos ir fazendo ao longo de mais de uma década os móveis, dizia que a nossa casa de jantar parecia uma casinha de bonecas, e parecia mesmo. Hoje a casa de jantar é a divisão maior, forrada a papel de parede da Laura Ashley, comprado a preço de saldo no e-bay.
Nos Olivais, estar à mesa significava, sobretudo comer. As conversas normalmente não acabavam bem... Também não acabavam bem os jantares que implicavam explicações forçadas de Matemática! Por isso o estar à mesa não era aquele momento. Uma vez, de tão farta que estava do mesmo, levantei-me para ir acabar de «comer» na cozinha. Levei com os berros do costume e voltei a sentar-me. Variedade era coisa que não havia, nem nos assuntos nem na ementa, normalmente eram bifes com batatas fritas ao jantar, grão com bacalhau às quartas ao almoço, aos fins de semana havia feijoada, carne guisada, cozido, carne assada no Natal e peixe assado na Sexta-Feira Santa. Sopa, sempre, mas só para as magras, a Paula e eu. A mais velha estava dispensada, porque era gorda. Aos sábados, no tempo da Clarinda, faziam-se pastéis de massa tenra e rissóis, mas foi um tempo que acabou depressa. O arroz era uma espécie de «unidos venceremos» e a massa que a mãe fazia costumava ficar a nadar no prato, o ketchup ia disfarçando, mas só nos livrámos deles quando começámos a ser nós a cozinhar. Aí víamos o meu pai a pôr de lado as coisas esquisitas que queríamos fazer e dar a conhecer, não gostava de mistelas, de disfarçados, de esquisitices, de modernices e, às 19.30h, tinha de estar à mesa! Começava a olhar para o relógio com uma impaciência que dava dó! Até parecia que o Carmo e a Trindade cairiam se não almoçasse ao meio-dia e meia e jantasse às sete e meia! Encontrei isso, há vinte anos em Montemor-o-Novo, quando um dos nossos vizinhos, um senhor já de idade avançada apareceu à porta de casa a reclamar com a mulher que eram horas de jantar! Deve ser por isso que agora não me preocupo minimamente com horários, quando está pronto está pronto! Até parece que estamos em Évora, dizem os meus filhos quando, em Lisboa, em casa deles, almoçamos ou jantamos tarde.
Nos Olivais, estar à mesa significava, sobretudo comer. As conversas normalmente não acabavam bem... Também não acabavam bem os jantares que implicavam explicações forçadas de Matemática! Por isso o estar à mesa não era aquele momento. Uma vez, de tão farta que estava do mesmo, levantei-me para ir acabar de «comer» na cozinha. Levei com os berros do costume e voltei a sentar-me. Variedade era coisa que não havia, nem nos assuntos nem na ementa, normalmente eram bifes com batatas fritas ao jantar, grão com bacalhau às quartas ao almoço, aos fins de semana havia feijoada, carne guisada, cozido, carne assada no Natal e peixe assado na Sexta-Feira Santa. Sopa, sempre, mas só para as magras, a Paula e eu. A mais velha estava dispensada, porque era gorda. Aos sábados, no tempo da Clarinda, faziam-se pastéis de massa tenra e rissóis, mas foi um tempo que acabou depressa. O arroz era uma espécie de «unidos venceremos» e a massa que a mãe fazia costumava ficar a nadar no prato, o ketchup ia disfarçando, mas só nos livrámos deles quando começámos a ser nós a cozinhar. Aí víamos o meu pai a pôr de lado as coisas esquisitas que queríamos fazer e dar a conhecer, não gostava de mistelas, de disfarçados, de esquisitices, de modernices e, às 19.30h, tinha de estar à mesa! Começava a olhar para o relógio com uma impaciência que dava dó! Até parecia que o Carmo e a Trindade cairiam se não almoçasse ao meio-dia e meia e jantasse às sete e meia! Encontrei isso, há vinte anos em Montemor-o-Novo, quando um dos nossos vizinhos, um senhor já de idade avançada apareceu à porta de casa a reclamar com a mulher que eram horas de jantar! Deve ser por isso que agora não me preocupo minimamente com horários, quando está pronto está pronto! Até parece que estamos em Évora, dizem os meus filhos quando, em Lisboa, em casa deles, almoçamos ou jantamos tarde.
«P'ra mesa!», «Tou a ir», «Vou já» normalmente eram as respostas, agora em casa somos só os dois, não precisamos de gritar para nos chamarmos, estamos aqui, à mesa. Mas já lá vai o tempo em que era preciso chamar montes de vezes, «ou vens ou não comes!», «não chamo outra vez!»... Mas a mesa é a mesa! Pôr a mesa, com tudo no sítio certo, os lugares definidos, as horas mais ou menos concertadas. Nas Caldas era um horror, não havia horas para nada, só para mim e para os miúdos, tantas vezes sem o pai à mesa... Foram tempos muito difíceis, sobretudo para mim, porque para os miúdos era sempre fácil recompensá-los com a risota do costume.
Fico sempre fascinada com uma mesa cheia de gente, as conversas, as gargalhadas, o bem-estar e o bem comer, adoro! E tenho sempre saudades dos tempos em que juntávamos gente cá em casa e não saíamos da mesa durante horas. Mas já não digo a ninguém para vir... No inverno é muito frio, no verão muito calor, fico sempre a achar que as pessoas vêm contrariadas, quando ouvi a Graça a dizer que se era para trazer a mãe, havia mais gente... Perdi a vontade, disso e de muito mais. Mas tenho sempre a porta, literalmente, aberta! E arranja-se sempre qualquer coisa para aconchegar quem chega, apesar de chegarem poucas vezes...

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