segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Mais uma preciosidade do Brasil

BRASIL

Juão
22 /abril/2000


De branco tenho pouco.
Por dentro,
Sou negro e índio,
De uma mescla,
Que nem sequer se imaginou.
Sou rouco
De tanto cantar.
Minhas pernas,
Antes livres das matar usar,
Pesam presas do branco amarrar.
Minhas mãos tem calos
De tanto transformar,
E minha cabeça dói
De jacá carregar.

Foi sempre assim,
Negro e índio que sou:
Muito chicote no lombo,
Que nem sequer desejou.
Foi.
O destino ensejou
E Maira - Monan,
O herói civilizador dos Tupi
Visualizou.

Minha cabeleira caiu.
Cabeça raspada
Gingado no pé,
Grito na alma,
Expresso em Cazuza:
“Brasil,
Mostra sua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim...”,
Pelado de MATA,
Calado a FACA,
Matado no PEITO.


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BRASIL

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Cadê o dendê ?
Cadê Guaracilê ?
Cadê Dandara ?
Cadê Tupã?
Cadê as lagoas:
Piratininga,
Itapu?
E Inoã?
Cadê as serras?
Cadê as matas?
Cadê as águas?
Cadê as Terras?
Baía da Guanabara comida.
Rodrigo de Freitas?
Quase morta,
Totalmente ferida.

Sudeste combalido,
De mim,
Brasil,
Historicamente ferido,
Por 500 anos
“A ferro e Fogo”,
Do Warren Dean.
Mistura
De tudo que deu
E eu daqui do Rio,
Que segundamente
Cabral aportou,
Olhando isso tudo,
Dizendo
Sou,
Negro com índio,
Que o branco juntou,
Maltratou,
Adoeceu,
Matou.
Mas que do resto brotou,
Apesar da mentira
Da história torcida,
Que o europeu inventou.

“Sobrados e Mocambos”,
“Casa Grande e Senzala”,
As telas,
Pinturas,
Aquarelas,
As músicas,
As danças,
As reservas,
As comidas,
As casas erguidas,
Todas as mercadorias,
Por nossas mãos talhadas:
-Trabalho-
De negro e de índio
De mãos acorrentadas.
As cores pelas peles espalhadas?
- Raças mixadas.
E tudo isso,
Que aliás,
Sou,
Mesmo em mim
Ou no outro,
Que de mim brotou
E que o colonizador usurpou,
Lá fora,
Vale.
E finalmente
Sou.

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BRASIL

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Negro e índio,
Salpicada...
...Sim, porque Pau Brasil,
Também fêmea sou.
Vindo da árvore,
Que a mim apadrinhou,
Também amas, índias e mucamas
Pintaram de cor,
Os brancos em suas camas
Em muitas noites de amor...
...Salpicada,
De diversos tipos de branco,
Que se em número não o são,
Sempre foram
Mais potentes que nós,
Porque cruéis,
Feitores e senhores de engenho,
Escravagistas
De negros e de índios,
Comedores de quase toda Mata.
E que,
Historicamente fadados,
Encantados e possuídos,
Estúpidos e idiotas,
Cravaram sem saber,
Uma enorme cruz na história.
Apodreceram
O Planeta,
As espécies,
O futuro,
Sem choro e nem glória.


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BRASIL
BRASIL
BRASIL


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Foi assim que tudo se passou.

O começo?
Antes do povo chegar?
Era só eu,
E nem de índio e Brasil vinham me chamar.
Era só, pra tudo controlar,
As matas usar e fazer sustar,
As águas pro mundo lavar,
As plantas pra comer e curar,
E todos os outros seres,
Que como eu,
Nasciam, morriam,
E assim tudo iam a transformar.


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BRASIL!
BRASIL!
BRASIL!

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Antes de assim me tornar ?
Era gentio
E não gente
Que aqui estava a morar.
Hoje,
O restante do que sobrou,
Massacrado,
Esquecido,
Expropriado,
Mas ainda potente,
Que há milhões de anos
O continente gerou,
E muito bem administrou,
Foi posta pra fora
Da própria cidade que,
Há 500 anos atrás,
Quando eu ainda nem havia nascido,
Índio e branco,
Por primeiro se encontrou,
Muito mais civilizadamente,
Felizmente,
Do que no atual presente.
O Henrique,
Não o Infante,
Este último presidente,
Lá na Bahia,
Mandou cercar por fora
Os restantes índios reclamantes
Dessa história mal contada,
E que de mim sobrou.

O que de índio tenho,
Ainda sequer,
Pode ser senhor!


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BRASIL.
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Ao ocidente cambaleante,
Que sobre meus ombros carreguei,
Nos jacás,
Nas toras de árvores cortadas,
Nas riquezas extraídas,
No lucro extorquido,
No esgotamento dos recursos naturais,
Meu corpo em vida,
Fui eu que aqui chegou,
E tudo transformou.
De mim tiraram sem dó.
Mas estou aqui
- negro e índio -
Enlaçados num só,
Salpicado de branco,
E de todas as cores,
De samba,
De bumba meu boi,
Da fartura na mesa simples,
Da farinha,
Do copaíba,
Do gingado,
Da malemolência,
Do cuidado,
Que esse povo tem.

Povo eu,
Que em mim mesmo sou.


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BRASIL!
BRASIL!
BRASIL!


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