quinta-feira, 29 de março de 2012

O grilo falante




Nunca gostei de mentirosos, apesar de, quando era pequena, volta não volta, pregar a minha dose de aldrabices. Também não adorava o Pinóquio! Para além  de mentiroso, era demasiadamente ingénuo, manipulável, fazia sofrer um velhote que o adorava e, ainda por cima, era de madeira. 
Toda aquela história, da Disney,claro, desenhos, bonecada, não me agradava! Os bons, os maus, os assim-assim, tudo aquilo não me seduzia, mas o que mais me enervava era mesmo o Grilo Falante!
Que coisa! Feioso, sempre ao ouvido a mandar palpites, como se adiantasse de alguma coisa! Aquele miúdo de madeira havia de fazer o quer queria, falasse o outro ou não!
Grilos, não lhes acho graça nenhuma! Nem nunca entendi por que raio de carga de água é que punham os pobres coitados numa horrível gaiola de plástico! São uns bichos pouco simpáticos, a atirar para o feio. Sim, está bem, têm a sua utilidade, e no verão gosto da presença deles no jardim, desde que não muito próxima de mim! 
Juntar ao grilo, feioso, a capacidade de falar, debitando a voz da razão, é um dois em um um  pouco agastante, como se diz por estas bandas alentejanas.
Ora que nome me foram arranjar numa formação que fiz há uns tempos: Grilinho/Grilinha! Nem mais!
Porquê? Porque, como Costa Santos que sou, não me consigo calar! É um bocadinho como o outro «A mim ninguém me cala!». E vai de vomitar razão por todos os lados, como se ter razão fosse algo de extraordinário!
Ganho alguma coisa com isso? Claro que sim, cada dia que passa mais gente se afasta... Não que me faça mossa, antes assim do que ter um séquito de hipócritas! Mas que os há, há! Como as bruxas. E com eles convivo numa base diária... 
A minha mãe, fiel seguidora do «A mim ninguém me cala!», foi posta de lado no trabalho, depois de carradas de anos de serviço público de excelência. Eu, para além das fuças cuspidas e escarradas dela, ainda fui herdar a mania de ter razão. C'os diabos! 
Não pretendo ser a consciência de ninguém, nunca pretendi tal coisa! A minha nem sempre está tranquila, como ser a consciência de alguém? Nem o queria, nunca! Ficar com a minha consciência pesada à conta de quem não a tem! Nem pensar! Só não calo injustiças e não defendo o que não tem defesa possível, o que, nos dias que correm, começa a ser raro. É bem mais fácil a omissão, o silêncio, os falsos sorrisos do que encarar a verdade, sendo-se frontal. 
E é assim que vamos ficando, mais sós, menos apreciados, mas de consciência, cada vez mais, tranquila.

Sensata? Talvez não! Porque os sensatos, por vezes, calam-se para evitar constrangimentos, não por serem sensatos! Confundir sensatez com comodismo é um erro crasso, que custará caro à nossa consciência...



1 comentários:

Helena Perdigão disse...

Grilinha: como já vem sendo hábito, adora lê-la! Os seus texto são uma delícia... e fazem-me um bem lê-los... é assim como que uma lavagem de purificação...


Muitos beijinhos!