Vinte e
nove anos de trabalho. Hoje. Se alguma vez pensei em ser professora, foi
quando, ainda bem pequena, era boa aluna, apesar de não saber o que eram
os «devoirs» (daí que nunca os fizesse)
e ter precisado de um esclarecimento por parte do avô Luiz, e quando dava
abraços gigantescos à minha adorada «maîtresse» das 1ª e 2ª classes, numa época
em que dar abraços significava ser graxista… Deixei, obviamente, de os dar, bem
como de achar que alguma vez poderia enveredar por esse caminho, o da escola. Não
me parecia que alguma vez encaixasse!
Não nasci
com o rabo virado para a Lua e todas as minhas aprendizagens foram feitas
depois de muito sofrimento, muitas cabeçadas, muitos desgostos. Havia aqueles
para quem nada era difícil, eu precisei de muitos empurrões, explicações. Deixei
muito rapidamente de ser boa aluna, nunca achei que me fizesse feliz, deixei
andar até, finalmente, chumbar. Havia coisas bem mais importantes, os amigos,
os fumos, as faltas às aulas, algumas pielas, os namoros, o desafiar a
autoridade, viesse ela de onde viesse! Como é que alguém assim poderia alguma
vez tornar-se numa professora? Mas aconteceu! Não havia outra saída
profissional quando acabei a Fac, era a época dos «miniconcursos» e assim
tornei-me paraquedista, como as nossas muito simpáticas colegas «definitivas»
chamavam às provisórias.
Nessa
altura, de facto, o Jaime até tinha razão: «Maria Helena, o que tu fazes para
não ires trabalhar!» isto depois de eu ter sido atropelada em 88, grávida do
Afonso! Mas tinha razão, o gosto era pouco, as imensas preocupações com a minha
recém-formada família e o ordenado era o que me movia.
Mas foi
exatamente a minha família que me ajudou a corrigir o meu percurso, o lema «não
faças aos outros o que não queres que te façam a ti» bateu forte quando os meus
filhos começaram a percorrer o mesmo caminho dos meus alunos. Se não tinha
vocação, o espírito de missão, esse, sempre o tive. Também ódios de estimação e
amores de perdição. Tem sido sempre assim, em tudo, na vida e na escola.
Este ano,
aos vinte e nove, decidi que estava na altura de fazer uma pausa. Estou farta!
Os últimos governos têm dado cabo da Escola, o ambiente que se criou nas
escolas é insuportável! As intrigas, a maledicência, as invejas, as mentiras… A
suposta avaliação de professores, isenta, objetiva, justa, arrasou os alicerces
mal fundados de uma classe desunida, com diferentes níveis de formação e
crivada de gente muito mal-formada que nunca deveria poder dizer que é
professora.
As
evidências deram cabo das aulas e das atividades feitas pelo prazer de fazer e de bem-fazer.
De repente, quem faz, porque gosta de fazer e porque faz bem, só quer é
«evidenciar-se», imagine-se! Se se faz uma festa de elevado nível, faz-se «para
as elites», Publicamos um livro, «lá está ela a evidenciar-se!» Chega! Estou
farta!
Adoro o que
faço, cada vez mais! Onde me sinto bem é na sala de aula, não é na sala de
professores! De quem eu gosto é dos alunos, não é dos colegas, apesar de ter
duas muito queridas amigas e algumas queridas colegas. E dou abraços aos meus
alunos, muitos, sem que eles corram o risco de serem chamados graxistas…
Por isso,
neste dia de aniversário, sob o mau presságio de ver o modelo de escola alemão
aplicado nos próximos tempos, correndo o risco de ver o 2º Ciclo desaparecer e
com ele o meu trabalho, deixo aqui o meu muito especial agradecimento aos meus
filhos, Inês, Afonso e Domingos que me fizeram ser melhor pessoa e melhor
professora (apesar de o Domingos achar que eu dou notas boas demais…) e aos
meus muito queridos alunos, aqueles que me fizeram crescer, chorar e amar o que
faço, tantos deles meus amigos facebookianos, eles sabem bem quem são!

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