domingo, 15 de dezembro de 2013

Reviver o passado em Vila Franca do Rosário



          Depois de tomada a decisão, de ter um anel lindo no dedo, veio a pergunta «Querem ir viver na quinta? Não pagam água, nem luz...» Podemos ter pensado, mas não foram duas vezes. «Sim! E seja o que Deus quiser!»
         Longe de tudo, de todos, com o carro do meu pai, mais ou menos emprestado, às vezes, em calhando, Vila Franca do Rosário esperava por nós. 
         Arranjámos a casa à nossa medida. Fizemos uma cobertura em madeira no teto, por causa do caruncho e do frio, alcatifámos a sala e o quarto, pusemos um revestimento giríssimo no chão da cozinha e da casa de banho, xadrez azul e branco, comprámos as mobílias, pintámos a casa, pusemos uma porta nova, oferecida pelo Mário, que já conhecia aquele espaço de outras andanças, e passámos fins de semana, uns atrás dos outros, a arranjar a nossa primeira casa.
          Como sempre, atirámo-nos de cabeça, depois logo se via... 
          Com imensa sorte, fiquei colocada na Malveira, horário de tarde, o Domingos ia para Lisboa todos os dias, de «carreira», não havia dinheiro que alimentasse o Ford Taunus 17m, que emborcava 17 litros aos 100. E assim foi, viagens em cima de viagens, para lá e para cá, sozinha o dia todo, à espera que chegasse a noite e com ela o Domingos. Quanto a mim, ia no autocarro que levava os miúdos à escola, pendurada com todas as delicadezas, o condutor tratava-me por diretora, coitado, pensava que eu o era, mas era só mesmo diretora de turma. Grávida, enjoada que nem uma texuga, numa estrada de curvas e contra-curvas, e os miúdos a comerem o almoço que não tinham comido à hora devida, sopa, bananas, mas o pior era mesmo o cheiro das laranjas e das tangerinas. Chegava a casa e era a hora de chamar pelo gregório e de me deitar. Que se lixasse o jantar! E o almoço! e tudo o que tinha cheiro, os canos da casa de banho, o cão (pobrezinha da minha primeira Noca, que me perdoe nunca ter sabido tratar dela...) e a comida que o Domingos lhe fazia na rua, pois tudo me era insuportável, até eu! 
           Acabámos por sair da quinta no Natal do ano seguinte, mas aqueles dias foram inesquecíveis: o bacalhau a assar no forno que não trabalhava há anos, as tardes passadas a fazer ronha, o nosso princípio de vida a dois, no campo, no meio de nada, cheios de vontade de tudo.
           Faria tudo outra vez, apesar de me ter apercebido, neste sábado, o quanto foi difícil, o quanto têm sido difíceis alguns momentos das nossas vidas, mas nunca desistimos, mesmo com todos os embates, vamos para a frente e ainda dizemos «Seja o que Deus quiser!»

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