Gosto de chá, sempre gostei. Nos dias frios, de chuva, de nevoeiro cerrado, de cacimba, até nos de calor, um chazinho sabe sempre bem. Vai com tudo, pão, bolo, bolacha, mas o que fica mesmo bem é a bela da torrada, crivadinha de manteiga que escorre (ou não, consoante o pão) por entre os dedos quando a mergulhamos no chá. É assim que eu me lembro dos lanches em casa, nos fins de semana.
Quando íamos de passeio para algum lado, raras eram as vezes em que não enjoava no carro, havia sempre desgraça, tinha de ir à janela para poder pôr a mão de fora, para fúria imensa das outras que cobiçavam esse lugar, e havia sempre uma banana, parecia que era a única coisa que eu tolerava depois do grande momento que me obrigava a sair do carro para não o sujar todo. Mas quando chegava a casa era premiada com o chazinho e a torrada!
Quando ia visitar as tias e me perguntavam o que eu queria, a resposta era sempre a mesma: chá da Mãe. Não era um chá especial, mas também não era um qualquer, era o único que eu conhecia, o que eu bebia com a Mãe, chá preto, forte, fumegante, cheio de açúcar, era assim que eu o bebia. Era o chá do pacote amarelo, tínhamos de esperar que as folhas ficassem no fundo do bule, passávamo-lo pelo passador, mas mesmo assim as folhinhas persistiam em aparecer na chávena. Não sabia a marca do chá, não era importante, nem sabia lê-la no pacote, mas sabia reconhecê-lo, era o único que havia lá em casa, mais tarde percebi que havia muitos chás e marcas, o nosso era o Li-cungo, para mim era o chá da Mãe.
«Professora, é um chá?», «Sim, é um chá da Mãe... Obrigada.»



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