No dia 15 de maio de 1992, grávida do Dominguinhos, de manhã disse «vou falar com o João e pedir-lhe para tratar do divórcio, estou farta e já não aguento mais isto.». A reação não foi exatamente a esperada, se é que esperava alguma. Lágrimas e promessa de mudança, vais ver... Penso muito em tudo, quando tenho tempo para pensar, que é o que mais tenho, e penso para além do que é, sobretudo sobre o que me leva a sentir como me sinto. E naquela altura já tinha pensado tudo, tudo o que havia para pensar, já tinha pensado na carta anónima, o teu marido anda com a cabeleireira do Couto, já tinha pensado no estou farto de peixeiradas, já tinha pensado nas horas de espera com o jantar ou o almoço na mesa, nos dias e dias sozinha, nas suspeitas de «traições», nos meses de abstinência sexual forçada, já tinha pensado no ódio que sentia àquela terra, ao Natal fechada no quarto, à chave, para não ouvir os horrores que me eram ditos, na divisão da cama, esta parte é minha, tinha tido tempo para pensar em tudo... Também tive tempo para pensar que ele era o amor da minha vida, mas a minha vida tinha dado uma volta, ou mais do que uma, de tal forma que eu já não sabia o que ela era. Fiz uma asneira, terrível, pelos vistos, e paguei caro, ainda hoje pago por isso, telefonei ao Zé Pedro, porque queria mostrar-lhe a Inês. O que fiz?! Quebrei toda a confiança, «também tu, outra...» o que remetia para uma traição anterior. E foi isso que eu fiz. Acabei por não ir. Não achei que tivesse feito algo de errado, estava muito sozinha na Malveira, acho que é a minha sina estar sozinha... E tinha tanto orgulho na minha filha que a quis mostrar a alguém que tinha feito parte da minha vida. Ainda me lembro do comentário da Amélia, fizeste isso? Qual é o mal? A partir daí foram altos e baixos, os baixos foram mesmo muito baixos. Daí que achei que o melhor era o divórcio, não sou fundamentalista, se não dá, paciência! Tentei, verbo terrível o verbo tentar, mas não estava a conseguir e as humilhações foram incontáveis. Aquele Natal foi uma coisa inenarrável, no 25 fomos para o Restelo como se nada tivesse acontecido na véspera... Tal era a desfaçatez, e eu devastada, destroçada a dar-lhe o presente de Natal como se nada fosse. Saímos das Caldas por meu desespero, as desconfianças eram imensas, havia quem assegurasse um envolvimento com a D. Elsa, haveria sexo na carrinha do serviço, a humilhação continuava e, ou saía dali ou teria de pôr um ponto final naquela vida. Optámos por vir para o Alentejo. Para o bom e para o mau, continuávamos juntos, mas eu sei porque é que aqui estou tão contrariada...
domingo, 22 de maio de 2016
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