sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Mais poesia vinda do Brasil! Obrigada Tânia!

Diante de uma criança

Como fazer feliz meu filho?

Não há receitas para tal

Todo o saber, todo o meu brilho

De vaidoso intelectual


Vacila ante a interrogação

Gravada em mim, impressa no ar

Bolas, bombons, patinação

Talvez bastem para encantar?


Imprevista, fartas mesadas

Louvores, prêmios, complacência

Milhões de coisas desejadas

Concedidas sem reticências?


Liberdade alheia a limites

Perdão de erros sem julgamento,

E dizer-lhe que estamos quites,

Conforme a lei do esquecimento?


Submeter-se à sua vontade

Sem ponderar, sem discutir?

Dar-lhe tudo aquilo que há

De entontecer um grão-vizir?


E se depois de tanto mimo

que o atraia ele se sente

pobre, sem paz e sem arrimo,

alma vazia, amargamente?


Não é feliz. Mas que fazer

Para o consolo dessa criança?

Como em seu íntimo acender

Uma fagulha de confiança?


Eis que acode meu coração

E oferece como uma flor,

a doçura dessa lição:

dar a meu filho meu amor.


Pois o amor resgata a pobreza

Vence o tédio, ilumina o dia

E instaura em nossa natureza

A imperecível alegria.


Carlos Drummond de Andrade

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