Teolinda Gersão – uma das nossas melhores escritoras por quem tenho admiração e amizade – escreveu "Redacção - Declaração de Amor à Língua Portuguesa". A leitura deste texto desagradou-me de tal modo que cheguei a julgar tratar-se de uma brincadeira da autora sob a forma de uma crítica sarcástica ao ensino do português.
Mas como nem todas as pessoas a entendem assim, pus-me algumas
perguntas: A quem se dirige esta brincadeira? Aos autores do programa de
português na parte que diz respeito à gramática? Aos manuais de que se
servem os professores, que podem conter erros por não haver a
certificação de correção e qualidade, decidida há uns anos e não
implementada? E já que o artigo assenta nas “ideias” de um estudante,
será que o que está em causa é um professor que não conhece o que
ensina?
Uma escritora do nível da Teolinda Gersão não pode aceitar como bons
todos os disparates que lhe são transmitidos pelo seu neto estudante.
Existem materiais de fácil acesso para refutar o que considera asneira.
Já conhece o Programa de Português do Ensino Básico? Já viu os
materiais que podem ser consultados pelos professores (ou pelos
pais/avós) para perceber como e porquê se analisa uma língua, como se
adequa esse ensino ao nível de escolaridade, o que deve ser transmitido
em cada ano e o que serve apenas para informação do professor? Já pensou
em como uma explicação da construção de um texto ou frase que o aluno
produz ajuda a desenvolver o seu raciocínio e aumenta o seu domínio da
oralidade e da escrita?
Os alunos não são tolos e têm curiosidade pelo ensino de qualquer
disciplina se forem estimulados a olhar crítica e criativamente o que
está por detrás das suas produções linguísticas e artísticas e dos
mistérios da natureza. É nisto que consiste a educação. Mas o que
verdadeiramente os desestimula é que alguém, que tem responsabilidade na
escrita de uma língua, diga que “vai deitar a gramática na retrete “
(as palavras são da escritora mas “as ideias são deles”). Considera a
Teolinda que não vale a pena estudar gramática? E aprender a fazer
operações de matemática ou conhecer a física nas suas diversas forças e
energias já vale a pena? Preparar materiais para o ensino do português
tem sido o trabalho criterioso e dedicado de equipas, tal como tem sido
feito para a matemática e para as ciências. Todas estas áreas têm tido a
sua atualização didática e implicam uma adaptação a novos conhecimentos
por parte dos agentes de ensino. E se um professor não sabe como
explicar a construção das frases, do texto, da entoação e sons com que
se constrói esta maravilha que é uma língua, é absurdo assacar ao ensino
da língua materna erros, dislates e desinteresse que sente um estudante
que julga que aprender português é só ter lido alguns livros (quando o
faz) e não dar erros de ortografia. Deste modo, ele nem sequer vai tomar
consciência da razão por que um texto literário é melhor do que outro,
ou por que uma instrução ou uma lei pode ser ou não ser ambígua. Uma
generalização da inutilidade e dos erros do ensino do português,
apresentada a sério ou a brincar, apenas mostra uma completa falta de
respeito pelos agentes desse ensino e por todos os que têm trabalhado
nesta área. E de certeza que não se trata de uma “declaração de amor”,
visto que o amor procura e proclama os aspetos bons do objeto amado.
Não desejo discutir aqui os exemplos dados pela autora do artigo
porque eles têm tanto de errado como de ridículo. Aconselho somente uma
consulta do Programa de Português do Ensino Básico e, já que tem uma
completa falta de conhecimentos de gramática, poderia também consultar o
Dicionário Terminológico destinado aos professores (e não aos alunos).
Dessa maneira ajudaria mais um estudante do que tornando pública uma
atitude que não é, certamente, recomendável num educador.
Maria Helena Mira Mateus
Professora Catedrática Jubilada da Faculdade de Letras de Lisboa
28 de junho de 2012

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