domingo, 12 de junho de 2011

Não, não é a história da Carochinha

Há muitos anos, noutra terra, noutra escola, noutro tempo, uma menina, como tantas outras, ia no transporte cedido pela autarquia à escola para ir para casa. 
Até aqui nada de extraordinário, extraordinário era o facto de esta criança sofrer de uma doença do foro neurológico e ser a última a ser "entregue" à família, pois a sua casa era a mais distante da escola. Nada disto seria extraordinário se o condutor da camioneta que fazia o transporte fosse uma pessoa decente, como qualquer outra a quem nós confiamos diariamente os nossos filhos. Mas não, este era um predador, um monstro... Aquele que apanhava a sua vítima indefesa, duplamente indefesa por ser frágil e diferente.
Soube-se o que se passava porque estas coisas não se podem manter em segredo durante muito tempo. Houve um dia em que ela não aguentou mais, contou, em segredo, à amiga que contou, em segredo à directora de turma, que me contou a mim, em segredo! Ora eu não sou de segredos! Muito menos deste calibre! Apanhei a minha boleia do costume para casa e corri os três andares até ao telefone "SOS Criança"... arfava de tão enervada e cansada. Mas estava à vontade, nem sabia o nome da miúda, tinha porém todos os dados para a denúncia, que não foi anónima, só pedi para não divulgarem o meu nome na escola, para evitar as cenas subsequentes e previsíveis! A falta de lealdade para com as direcções às vezes sai caro! Saí dessa escola nesse ano e não devo ter deixado muitas saudades, também não as levei comigo!
Cheguei à escola no dia seguinte, a direcção tinha sido confrontada com a situação (não temos nada com isso, foi fora da escola...) os pais já tinham sido chamados (não queremos que se saiba, a nossa filha é doente, o que vão dizer dela...), o condutor foi preso... Mas e a miúda, como ficou?
Numa época em que a maldade se sobrepõe aos valores com que fomos educados, basta ver a m... das novelas da 4, como são conhecidas, desta geração morangos, que só pensa no que não deve por não ter nada para fazer, o que fazemos nós enquanto educadores, pais e professores! Não podemos compactuar com este modo de estar na vida! Não podemos mesmo... 

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