sexta-feira, 4 de novembro de 2011

28 anos de trabalho, tantas vezes de dedo espetado!

Apresentei-me na Gaspar Correia há 28 anos. Era uma escola exactamente igual àquela em que hoje dou aulas. Era uma miúda, confundiam-me com uma aluna, quer as funcionárias, quer os professores e, no trato, a direcção...
No ano seguinte fui para a Cesário Verde, depois para a Malveira. Dali para Óbidos, quando deixei de ser paraquedista e passei a ser efectiva-provisória (!!!), e agora Évora.
Muita coisa mudou entretanto, as leis, as práticas, as pessoas, mas na essência a m... é a mesma. Tudo o que de mal nos aconteceu desde há seis anos (e não nomeio ninguém para não conspurcar o meu querido blogue!) é tudo da nossa inteira e exclusiva responsabilidade. Conferimos o direito a negociar àqueles que não o souberam fazer, mas que conseguiram benesses, umas atrás das outras, para quem pouco gostava de dar aulas, mas que se intitulava professor!
"É bom ser do Conselho Directivo, damos umas horinhas aqui e outras ali...", "tenho três dias livres, sou coordenador dos DT, DT,  mais não sei quantas horas de redução por antiguidade..."; redução aos seis anos de serviço, aos trinta de idade, quarenta... Esperavam o quê??? Milagres? A bomba estava prestes a estalar tal era a imoralidade. Mas sempre a coberto de leis redigidas por quem, supostamente, de direito.
Passou-se de um extremo a outro: agora não há tempo para a correcção dos testes, das composições, dos trabalhos! Horas perdidas na escola, reuniões até à noite, uma avaliação de professores que mete nojo de tão subjectiva e injusta. Gente irresponsável a avaliar quem sempre deu tudo aos seus alunos e à escola, gente arrogante que se "vinga" com a avaliação dos seus pares, gente que usa a avaliação como arma de arremesso contra quem faz frente aos poderes instalados...
Estou em Évora, podia estar em qualquer outro ponto do país, as queixas são as mesmas.
Esta não é a minha escola. Não é a minha escola, porque nunca o foi. É uma "quintinha" onde mandam os que podem, onde a prepotência grassa, onde a solidariedade desapareceu, onde o que conta é o parecer e não o ser. Onde as pessoas se tratam por Dr/Dra!!! Onde não se pode falar à vontade porque as paredes têm ouvidos, onde a simplicidade ou falta dela se confunde com brio, profissionalismo, rigor e transparência.
Sim, passo dos limites... e ai de quem não passe dos limites, porque os limites são para serem ultrapassados, para crescermos, para vermos para além do que existe, descobrir o que está para lá de uma visão provinciana, curta, tacanha, saloia! Sim, passo dos limites, o meu avô também o fez, foi preso pela PIDE por delito de opinião. Houve quem lutasse a vida toda pela liberdade de expressão, eu não precisei de o fazer, o 25 de Abril ofereceu-ma. Será que é agora, décadas passadas, que tenho de lutar por ela?
Queria acreditar que o nosso trabalho conta, que os nossos alunos apreciam e valorizam o que fazemos, gostava de acreditar que temos os pais ao nosso lado na construção dos saberes e dos valores dos nossos miúdos, para que se tornem pessoas de bem, porque é disso que precisamos: pessoas de bem.
Não contem comigo para esta escola sem valores, sem amor, onde se pede tudo aos professores, que abdiquem do seu tempo pessoal, aquele sagrado que dedicamos à nossa família, a nós próprios... em troca de um monte de papéis para encher o olho de quem é cego porque não quer ver. 
Não contem comigo para as tricas, fofocas e mentiras... para as feiras de vaidades das falsas evidências!
Mas para o trabalho em prol dos alunos, dos seus sucessos reais, por muito pequenos que sejam, para el@s, meus alun@s, estarei sempre pronta, disponível, porque é o meu saber, é o meu ser, sou eu.

2 comentários:

Helena Perdigão disse...

Mas que dizer de um texto tão bonito, tão sentido, tão emotivo... e tão magoado! No fundo, cheio de razão!
Tenho muito orgulho, minha querida Grilinha, de a ter como amiga! Já cá não tenho os meus pais, as minhas grandes referências, mas, felizmente, tenho grandes amigas como a LB que não é mais do que uma verdadeira pérola!

muitos beijinhos desta amiga de SEMPRE!

Lena Barreto disse...

Querida Lena, o privilégio é meu... por me ler e me entender! Não pretendo ser uma referência, era mesmo uma grande pretensão. Mas a liberdade de expressão é uma dádiva da qual não pretendo, em circunstância alguma, abdicar.
Obrigada por ser minha amiga.
Um beijinho grande