terça-feira, 8 de novembro de 2011

Nils Holgersson


    
Domingo, 20 de março

         Era uma vez um rapaz de cerca de catorze anos, alto, desengonçado, de cabelos ruivos. Não se pode dizer que fosse grande coisa. As suas ocupações favoritas eram comer e beber; e também gostava de pregar a sua partida.
         Um domingo de manhã, os pais preparavam-se para ir à missa; em mangas de camisa, sentado numa das esquinas da mesa, estava todo satisfeito por os ver sair e pensava na delícia de ser seu senhor durante um par de horas: «Agora é que eu fico à vontade para ir buscar a espingarda do meu pai – pensava ele com os seus botões – e descarregar dois ou três tiros sem que ninguém dê por isso».
         Parece que o pai lhe adivinhou o pensamento, porque à saída, parou na soleira da porta e disse:
         - Já que não queres vir connosco à igreja, podes entreter-te a ler em casa. Prometes fazer isso?
         - Sim, se é essa a sua vontade… 
Os pais não estavam contentes; pelo contrário sentiam-se bem aflitos. Eram caseiros pobres e tinham muitas preocupações com o filho. O pai afligia-se por o ver tão preguiçoso: nada quisera aprender na escola; só se servia para guardar patos e mesmo assim!... A mãe não negava que isto tudo fosse verdade; mas o que sobretudo a entristecia era vê-lo mau, insensível, cruel, para com os animais, malévolo para com as criaturas. «Ai, Deus, ponha fim à sua maldade e lhe dê outros sentimentos, senão fica para aí um desgraçado e é a nossa desgraça também» dizia ela com a voz entrecortada de suspiros.
Depois de refletir por muito tempo, o gaiato decidiu que desta vez era melhor obedecer. Instalou-se comodamente na grande poltrona e pôs-se a ler, resmungando em voz baixa. O ruído da própria voz ia embalando-o e sentia que estava prestes a pegar no sono.
Lá fora fazia um tempo magnífico. Era a primavera. É verdade que as árvores ainda não estavam verdes, mas tudo irradiava alegria. O céu, de azul puríssimo, dava a impressão de estar muito alto. A porta da pequenina habitação ficara entreaberta e dava entrada aos cantos das cotovias. No pátio as galinhas e os patos esgravatavam a terra, todos contentes; as vacas, sentindo o sopro da primavera que penetrava até ao fundo do estábulo, deixavam ouvir de quando em quando um longo mugido.
 O rapaz lia, cabeceava, acordava sobressaltado e lutava contra o sono.
«Não quero adormecer, senão tenho a manhã toda perdida». Apesar do seu esforço, o sono venceu-o. Teria dormido muito ou pouco? Não sabia, um ligeiro ruído que ouviu atrás de si despertou-o. Mas que seria? Olhava e tornava a olhar, mas não queria acreditar no que via. No entanto, pouco a pouco, o que ao princípio parecia uma sombra, tomou corpo e ele teve de se convencer de que se tratava de uma realidade. Era, nem mais nem menos, um gnomo que se pusera sentado à beira da arca da sua mãe.
O pequeno ouvira muitas vezes falar destes gnomos, mas nunca pensara que podiam ser tão pequeninos. O que ele via media apenas um palmo de altura, tinha cara de velho, toda enrugada, e vestia-se com roupas pretas e compridas, calções e chapéu pretos de abas largas.
O gaiato admirava-se de ver o gnomo, mas não teve grande medo. Como havia de ter medo de um ser tão pequeno? O rapaz pensou que seria engraçado pregar-lhe uma partida. Mal viu a rede de caçar borboletas, pegou nela com ânsia, deu um salto, e lançou--se sobre a arca. Nils admirou-se com a sua sorte, porque tinha apanhado o gnomo. O pobrezinho estava no fundo da rede, de cabeça para baixo, incapaz de fugir.
A princípio o rapaz não sabia que destino havia de dar ao seu prisioneiro. Agitava com força a rede para impedir a fuga do gnomo. Este pôs-se a falar e suplicou-lhe comovidamente que o restituísse à liberdade. Nils, desde que se apoderara do gnomo, estava cheio de medo. Compreendia que estava a lidar com alguma coisa estranha e terrível que não pertencia a este mundo e sentia-se aflito, morto por sair da aventura em que se metera. Por isso aceitou libertar o gnomo e deixou de abanar a rede para que o homenzinho pudesse escapulir-se. Mas arrependeu-se, «que parvo que eu fui em o deixar fugir!» e pôs-se a agitar de novo a rede.
Mas, nesse mesmo instante, apanhou uma bofetada tão grande que até sentiu estalar a cabeça. Viu-se arremessado contra uma parede e depois contra a outra; por fim caiu por terra inanimado.
Quando voltou a si estava sozinho, não viu ninguém. Começou a tremer: compreendera, de repente, que o gnomo o enfeitiçara, transformando-o em gnomo.


Selma Lagerlöf
A maravilhosa viagem de Nils Holgersson através da Suécia
(adaptado)

0 comentários: