Domingo, 20 de março
Era uma vez um rapaz de cerca de catorze anos, alto,
desengonçado, de cabelos ruivos. Não se pode dizer que fosse grande coisa. As
suas ocupações favoritas eram comer e beber; e também gostava de pregar a sua
partida.
Um domingo de manhã, os pais preparavam-se para ir à missa;
em mangas de camisa, sentado numa das esquinas da mesa, estava todo satisfeito
por os ver sair e pensava na delícia de ser seu senhor durante um par de horas:
«Agora é que eu fico à vontade para ir buscar a espingarda do meu pai – pensava
ele com os seus botões – e descarregar dois ou três tiros sem que ninguém dê
por isso».
Parece que o pai lhe adivinhou o pensamento, porque à saída,
parou na soleira da porta e disse:
- Já que não queres vir connosco à igreja, podes entreter-te
a ler em casa. Prometes fazer isso?
- Sim, se é essa a sua vontade…
Os pais não
estavam contentes; pelo contrário sentiam-se bem aflitos. Eram caseiros pobres
e tinham muitas preocupações com o filho. O pai afligia-se por o ver tão
preguiçoso: nada quisera aprender na escola; só se servia para guardar patos e
mesmo assim!... A mãe não negava que isto tudo fosse verdade; mas o que
sobretudo a entristecia era vê-lo mau, insensível, cruel, para com os animais,
malévolo para com as criaturas. «Ai, Deus, ponha fim à sua maldade e lhe dê
outros sentimentos, senão fica para aí um desgraçado e é a nossa desgraça
também» dizia ela com a voz entrecortada de suspiros.
Depois de
refletir por muito tempo, o gaiato decidiu que desta vez era melhor obedecer.
Instalou-se comodamente na grande poltrona e pôs-se a ler, resmungando em voz
baixa. O ruído da própria voz ia embalando-o e sentia que estava prestes a
pegar no sono.
Lá fora
fazia um tempo magnífico. Era a primavera. É verdade que as árvores ainda não
estavam verdes, mas tudo irradiava alegria. O céu, de azul puríssimo, dava a
impressão de estar muito alto. A porta da pequenina habitação ficara
entreaberta e dava entrada aos cantos das cotovias. No pátio as galinhas e os
patos esgravatavam a terra, todos contentes; as vacas, sentindo o sopro da
primavera que penetrava até ao fundo do estábulo, deixavam ouvir de quando em
quando um longo mugido.
O rapaz lia, cabeceava,
acordava sobressaltado e lutava contra o sono.
«Não quero
adormecer, senão tenho a manhã toda perdida». Apesar do seu esforço, o sono
venceu-o. Teria dormido muito ou pouco? Não sabia, um ligeiro ruído que ouviu
atrás de si despertou-o. Mas que seria? Olhava e tornava a olhar, mas não
queria acreditar no que via. No entanto, pouco a pouco, o que ao princípio
parecia uma sombra, tomou corpo e ele teve de se convencer de que se tratava de
uma realidade. Era, nem mais nem menos, um gnomo que se pusera sentado à beira
da arca da sua mãe.
O pequeno
ouvira muitas vezes falar destes gnomos, mas nunca pensara que podiam ser tão
pequeninos. O que ele via media apenas um palmo de altura, tinha cara de velho,
toda enrugada, e vestia-se com roupas pretas e compridas, calções e chapéu
pretos de abas largas.
O gaiato
admirava-se de ver o gnomo, mas não teve grande medo. Como havia de ter medo de
um ser tão pequeno? O rapaz pensou que seria engraçado pregar-lhe uma partida.
Mal viu a rede de caçar borboletas, pegou nela com ânsia, deu um salto, e
lançou--se sobre a arca. Nils admirou-se com a sua sorte, porque tinha apanhado
o gnomo. O pobrezinho estava no fundo da rede, de cabeça para baixo, incapaz de
fugir.
A princípio
o rapaz não sabia que destino havia de dar ao seu prisioneiro. Agitava com
força a rede para impedir a fuga do gnomo. Este pôs-se a falar e suplicou-lhe
comovidamente que o restituísse à liberdade. Nils, desde que se apoderara do
gnomo, estava cheio de medo. Compreendia que estava a lidar com alguma coisa
estranha e terrível que não pertencia a este mundo e sentia-se aflito, morto
por sair da aventura em que se metera. Por isso aceitou libertar o gnomo e
deixou de abanar a rede para que o homenzinho pudesse escapulir-se. Mas
arrependeu-se, «que parvo que eu fui em o deixar fugir!» e pôs-se a agitar de
novo a rede.
Mas, nesse
mesmo instante, apanhou uma bofetada tão grande que até sentiu estalar a
cabeça. Viu-se arremessado contra uma parede e depois contra a outra; por fim
caiu por terra inanimado.
Quando
voltou a si estava sozinho, não viu ninguém. Começou a tremer: compreendera, de
repente, que o gnomo o enfeitiçara, transformando-o em gnomo.
Selma
Lagerlöf
A maravilhosa viagem de Nils Holgersson
através da Suécia
(adaptado)

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