O sol batia-me de chapa na
cara, eram para aí duas da tarde, «não adormeça!» dizia-me quem ia ao meu lado
e eu só me lembrei de perguntar se a ambulância não tinha telefonia, assim não
adormeceria de certeza. Mas não, não tinha, tinha uma sirene ensurdecedora que
ao aproximar-se de Lisboa começou a tocar sem parar, pareciam gritos! «Não pode
desligar essa coisa?», «Não, senão podemos não chegar lá a tempo!» Lá era o
hospital de São José, onde a equipa do Dr. Gomes da Silva me recebeu. «Vou
morrer?», «Vamos fazer tudo para que isso não aconteça…»
Entretanto chegou o Domingos, era preciso fazer uma escolha,
eu ou o Afonso, caso a coisa desse para o torto. Grávida de seis meses,
politraumatizada com um escalpe que me cortou as pálpebras, a coisa podia
correr mesmo mal. Fui levada, tratada, cosida e entregue aos cuidados
intensivos.
Quem pensa que está a salvo, engana-se. Duas, supostamente,
enfermeiras, fizeram-me a vida num autêntico inferno durante a minha primeira
noite no hospital! Contado ninguém acreditaria, e foi o que aconteceu quando
falei aos médicos de serviço. Uma dava pelo nome de Vicência, da outra não sei!
Única opção: gritar! Gritei a noite toda, chamei pela médica que estava de
serviço, gritei só para me ver livre daquelas mulheres horrorosas que se riam
do sofrimento de quantos estávamos ali: uma mulher tinha sofrido um acidente
quando evitava que a sua filha fosse levada por um homem mais velho; outro,
operário da construção, tinha ficado tetraplégico por uma queda numa obra; os
choros, os lamentos, as horas que demoram a passar… Um horror! No meio de tanta
desgraça, aconteceu um milagre, um homem que deu uma queda imensa, um monte de
andares, sobreviveu sem um arranhão! Há sempre uma boa notícia…
Tanto gritei que, tendo estado muito agitada (segundo aquela
médica de serviço…) fui transferida para o serviço de cirurgia, um ambiente
tranquilo e confortável. Verdade absoluta. Fiquei na cama mais próxima da
janela com vista sobre Lisboa, horas sem fim a olhar para a minha cidade, que
eu decidira abandonar.
Naquela sala enorme, havia sempre quem se pudesse levantar
para ajudar quem mais precisava, um espírito solidário reconfortante, nada a
ver com aquele local sinistro de onde me tinham tirado. Mas ainda estava longe
de estar bem, uma anemia galopante obrigou o médico de serviço, um homem alto,
enorme, de uma ternura comparável ao seu tamanho a decidir por uma transfusão
de sangue. Não havia tempo de chamar o Domingos para ver se havia
compatibilidade, e isto passou-se na altura do sangue contaminado, o drama por
que passaram os hemofílicos. O médico ficou ao meu lado a maior parte do tempo,
e parecia que eu contava as gotas que saíam daqueles sacos de sangue, enquanto
chorava, rezando para que o sangue não estivesse contaminado… «Sabe que tem uns
olhos lindos?»

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