segunda-feira, 7 de outubro de 2013

HISTÓRIA DA BALEIA, António Sérgio

            Há muito, muito, muito tempo, vivia no mar a baleia que comia peixes. Ainda ela, nesse tempo, podia comer peixes. Comia sardinhas e tainhas, gorazes e roazes, bugios e safios, pescadas e douradas, bacalhaus e carapaus. Todos os peixes que ia encontrando deitava-lhes a boca, – ão! Por fim só havia no mar um salmonete vermelhete, que nadava sempre atrás da orelha esquerda da baleia para ela não lhe fazer mal. Um dia, a baleia pôs-se a pensar muito séria, e disse assim:
             - Tenho fome!
              E o salmonete vermelhete, com a sua voz muito agudita, disse à baleia:
            - Nobre e generoso cetáceo: já experimentou comer homens?
            - Não – respondeu a baleia. A que é que sabe? Como é?
            - Bom, mas traquinas – respondeu o salmonete vermelhete.
            - Então, vai buscar-me três dúzias deles – ordenou a baleia.
            - Basta um de cada vez – disse o salmonete vermelhete. Se for à latitude de 60 graus norte e longitude 40 graus oeste (isto amigos, são umas palavras mágicas que o salmonete lá sabia) encontrará uma jangada feita de tábuas, e sobre a jangada um marinheiro náufrago, com calças de ganga azul, uma faca de ponta aguda e suspensórios encarnados (não se esqueçam dos suspensórios encarnados!). O marinheiro, devo dizer-lhe, é arguto, astuto e resoluto.
               A baleia, então, foi aonde lhe disse o salmonete vermelhete e, encontrou a jangada e o marinheiro. Aproximou-se, abriu a bocarra imensa, e engoliu a jangada e o marinheiro, com calças de ganga azul, com a faca de ponta aguda e com os suspensórios encarnados (nunca se esqueçam dos suspensórios!).
              E assim a baleia arrecadou tudo na despensa escura, quentinha e fofazinha, que tinha lá dentro do seu corpanzão. E como gostou, deu três estalos com a língua e três voltas sobre a cauda, levantando muita espuma.
           O marinheiro (que era arguto, astuto e resoluto) mal se viu dentro da baleia, na despensa escura, quentinha e fofazinha, pulou, saltou, rebolou, cambaleou, espinoteou, dançou, sapateou, fandageou, esperneou, gritou, berrou, cantou, estrondeou tanto, tanto, tanto, que a baleia se sentiu com enjoos, engulhos e soluços (já se esqueceram dos suspensórios?). E disse a baleia ao salmonete vermelhete:
            - O teu homem é muito traquinas, e dá-me engulhos. Que hei de eu fazer?
            - Diga-lhe que saia cá para fora – respondeu o salmonete vermelhete.
             E a baleia gritou pele garganta abaixo:
            - Saia cá para fora, homenzinho, e veja se tem juízo!
            - Isso é que eu não saio – respondeu o homem. – Leve-me primeiro para a minha terra, e depois veremos o que se poderá fazer.
            E pôs-se outra vez a saltar, a pular, a espinotear e a rebolar.
            - O melhor é levá-lo para casa – aconselhou o salmonete vermelhete – Eu já tinha prevenido a senhora baleia de que o marinheiro era arguto, astuto e resoluto.
  E a baleia nadou, nadou, nadou, nadou, dando à cauda e às barbatanas, mas sempre com soluços e muito enjoada. Quando avistou a terra do marinheiro, nadou para a praia, pôs a boca sobre a areia, abriu-a muito, e disse:
                - Cá chegámos à sua terra!
            O marinheiro que era na verdade arguto, astuto e resoluto, tinha durante a viagem puxado da sua faca de ponta aguda, e cortado as tábuas da jangada em fasquiazinhas muito estreitas, que ligou muito bem com tiras dos suspensórios (bem lhes disse eu que não se esquecessem dos suspensórios!) e fez com elas uma grade que empurrou, ao sair, contra a garganta da baleia.
            E, deixando a grade bem presa na garganta da baleia, saltou para terra e foi ter com a mãe, com a qual viveu muito contente.
            A baleia foi-se embora também muito contente, assim como o salmonete vermelhete; mas a grade é que nunca mais saiu da garganta da baleia. E por isso é que a baleia nunca mais pôde comer homens, nem meninos, nem sardinhas nem tainhas, nem gorazes nem roazes, nem bugios nem safios, nem pescadas nem douradas –, porque os peixes não podem passar pelas grades da garganta, mas só bichinhos pequeninos, como, por exemplo, as pulgas-do-mar.
              Pouco depois, o marinheiro casou e viveu muito feliz; tinha em casa as calças de ganga azul, a navalha de ponta aguda; mas não tinha os suspensórios, porque esses ficaram a atar a grade, muito apertada, que só deixa passar bichinhos pequeninos – como as pulguinhas do mar – na garganta da baleia. 


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