sexta-feira, 13 de março de 2015

Percebeste agora?

        Não, Mãe, não consigo perceber! Consegues falar mais alto, mais devagar, mais pausadamente, é que eu não consigo entender... «Vocês... é preciso... ele... buscar... entendeste agora?». Ó Mãe, não percebo. E se eu te desse um papel e um lápis? Consegues escrever? Não consegues segurar o lápis, escorrega da mão, não tens força, o que é que eu faço, Mãe? Não entendo, não percebo, eu quero saber... Se descansares à noite, vais ver que terás força para falar, amanhã dizes ao meu Afonso e ele ajuda-te a escrever se for preciso. «É complicado», pois é mãe, eu sei, é muito complicado, mas nós estamos aqui, os primos adoram-te, «é natural!», às vezes, os meus sobrinhos não me adoram, eu também não adoro os meus sobrinhos... Os meus filhos não desistem de ti, vêm ter contigo, o Afonso vem todos os dias, o Domingos e a Rita, também, «olá, Avó!», «Olá» de mãozinhas estendidas, «Hoje não vou ver a Avó, porque me dói a garganta, vou amanhã, está bem?», «Está bem» com as mãozinhas ainda estendidas como quem quer agarrar a fotografia do neto ao telefone. «Olá Vó!», Mãe,é o Afonso! Olha o António, «Olá!» mais uma vez! Não larga as mãos da Inês, agarra as duas mãos da neta com uma só para poder dar a outra mão ao Afonso. Voltamos amanhã, os netos. Eu não. Eu voltei para casa, com o coração nas mãos, os remorsos a crivarem-me toda. O que eu fiz, o que não fiz, o que devia ter feito. Porque é que deixei as coisas chegarem a este ponto? Como é que eu não vi? Ou como é que, tendo visto, não atuei, porque é que me limitei a gritar: «Não vês? Como é que não vês que a Mãe está a morrer? Não vês que está anorética? Não vês?» E se eu vi... porque é que nada fiz.
           Vou ficar por aqui, de coração partido, à espera que nada de horrível aconteça. Tudo desabou! Se me sinto mais próxima dos primos, cada vez me sinto menos ligada às minhas irmãs. «É muito complicado», pois é, Mãe. Mas os meus filhos, cada vez mais, estão mais próximos, a minha família, a que eu criei, é mais família. «Não foi para isto que eu guardei os teus filhos.», pois não mas eu sim, os meus filhos estão guardados para ajudarem a Avó, e para quem precisar deles, é o que fazem as famílias, ajudam-se, amam-se, estão uns para os outros.

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