sexta-feira, 1 de abril de 2016

As verdades e as mentiras ou a verdade da mentira, cada um escolhe o que quiser...

            Recuemos, mais uma vez, no tempo. 
      A bomba tinha acabado de estalar em casa. Uma filha de 18 anos, acabados de fazer, grávida. Intencionalmente, grávida. Casou-se, contra a vontade de todos menos a dela. Sem rede, sem nada, só com uma Mãe capaz de mover mundos e fundos para resolver tudo o que não tinha, não teve, nunca teria solução. E assim foi. Uma cena de faca e alguidar em casa... E depois os abusos, abusos consistentes com a condição de grávida. E passei-me. Grávida ou não, grávida e tudo, preguei-lhe uma coça, uma valente coça, ainda hoje não sei como fui capaz! Anos e anos de mimo mal distribuído, de injustiças acumuladas e, agora, grávida, achava que tinha o rei na barriga? VIREI-ME  do avesso. No meio daquilo tudo, saiu a verdade das verdades, «tu só não estás grávida, porque tomas a pílula!» e contra factos não há argumentos...
         Houve uma daquelas conversas dispensáveis entre mãe e filha, inenarrável, e a confirmação, para desgraça completa de ambas. Nunca fui dada a mentiras e não valia a pena negar o óbvio.
            Foram precisos anos para o meu pai descobrir o óbvio, foi preciso que a minha primeira sobrinha mexesse nas minhas coisas e lá de dentro desencantasse aquilo que não era suposto um químico-farmacêutico encontrar: as minhas pílulas. Desgraça total, «se não queres que mexam nas tuas coisas, guarda-as.», mais nada, a não ser no dia seguinte. Um telefonema, de manhã: «Está?», «Puta, porca, cabra, vaca...», «Quem fala?», «Quem fala, cobarde?», as mesmas ofensas, os mesmos palavrões, em voz disfarçada, mas perfeitamente reconhecida, «Pai, como és capaz?», e ficou por ali. Acho que nunca mais nos olhámos de frente, ele sabia e eu também. Uma manhã, bem mais tarde, tomava eu o pequeno-almoço na mesa da casa-de-jantar, «parece uma puta de perna traçada», era o que ele sentia em relação a mim. Já eu só sentia desprezo por ele. Podia continuar a vida toda a insultar-me, como diriam os ingleses «...words can never hurt me!», a única coisa que crescia era o desprezo. 
          Houve muitos namorados, só dois frequentaram a nossa casa, um porque fazia «parte» da família, o outro, porque era o tal, não tinha quaisquer dúvidas, a bênção da Mãe (um rapaz de boas famílias que eu conheço, fui catequista dos tios) e já tinha 22 anos e era, de facto, senhora do meu nariz. Ainda houve um ou outro «frisson», mas já não podia fazer muito mais contra mim, já me tinha chamado o que nenhum pai pode chamar a uma filha, já tinha mostrado o quanto não gostava de mim, o quanto lhe causava repulsa, por isso, já só faltava morrer, o que aconteceu depois de eu lhe dizer que ia casar. Acho (mesmo) que se deixou ir, só de pensar que teria de ir ao meu casamento, conhecer pessoas «acima da sua condição», ter de estar à altura daquilo a que nunca esteve, como diria o Elísio, muito social para ele, seria demais. E assim foi, foi-se, não sem antes deixar um rasto de tristeza, de mágoa, de infelicidade. Foi um infeliz que causou montes de infelicidades a quem com ele teve de conviver. 

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