-Está lá? Setor? Sou eu, Helena Vaz, é só para lhe dizer que já não vamos à Serra da Estrela.
Coitado do homem! Deve ter ficado a pensar que raio de telefonema era aquele! Também tenho dúvidas que, em plenas férias do Natal, se lembrasse de quem seria a tal Helena Vaz! Tão burra, inexperiente, inconsequente, inconsciente...
Então lá estava eu, feliz da vida no D. Diniz, eu, não era irmã nem prima de ninguém, era eu, só eu! E feliz! Então, com as recém colegas de Liceu, vai de «organizar» uma viagem à Serra da Estrela, a organização consistia, na cabeça de um cromo de onze anos, em dizer a um professor que ele tinha sido o escolhido para ir connosco, coisa fantástica!, e pronto, a coisa desenrolar-se-ia por obra e graça sabe Deus de quem. Ora o professor de Físico-química disse que sim , que iria connosco, só não nos disse que havia assuntos a tratar, camionetes, autorizações, acompanhantes, local onde ficar... Ingénua (burra) como era, achei que só o simples facto de convidar aquele professor, de quem guardo o nome pela estranheza que me causou quando tivemos o primeiro contacto, seria o suficiente para ter o meu primeiro passeio com as minhas recém feitas amizades, num lugar onde sempre queria ter estado, mas que por razões mais do que óbvias ainda não tinha chegado a altura para tal. Ora, chegaram as férias, passaram os dias e «cadê» o passeio? Achei que era tempo de perguntar à Mãe o que se passaria, foi então que um clique gigantesco soou na minha cabeça (oca, vazia...): não há passeio! Ninguém o organizou! Então, mais burra ainda, telefonei, por cortesia, ao professor a comunicar-lhe que não haveria qualquer ida à Serra da Estrela. Que humilhação, dupla, por assim dizer. Mas passou. Regressámos às aulas em janeiro, não houve perguntas comentários, dúvidas, portanto estava tudo bem.
Naquele ano tive três professores, o de História, um engraçadinho sem qualquer graça que me perguntava, vezes sem conta, Helena, Vaz ou não Vaz?, um de Música, mais ligado à Igreja do que à Música e este, um velhote, tipo Professeur Tournesol, super-simpático, de CFQ.
Gostava dele, não pela disciplina, mas pelo simples facto de já ser muito velhote. Não faço ideia qual a sua idade, mas era mesmo velhinho, tendo em conta que, naquela altura, já os meus pais eram os mais velhos dos pais. As restantes disciplinas estavam entregues a mulheres, só guardo o nome da de Português, «Sou a Marina Alberty, vice-reitora e irmã do célebre escritor, Ricardo Alberty.». Realmente a noção de celebridade, ainda hoje, me causa constrangimentos. Sabia lá eu quem era o célebre escritor! Nesse ano passei chumbada a Português, está visto que não conhecer as celebridades tem o que se lhe diga... Anos, muitos, mais tarde, recebi de presente de Natal um livro com a seguinte dedicatória: «Com um beijinho do irmão da autora.». Pronto, está tudo explicado, tudo ao mesmo nível, nível zero da educação!
Gostava dele, não pela disciplina, mas pelo simples facto de já ser muito velhote. Não faço ideia qual a sua idade, mas era mesmo velhinho, tendo em conta que, naquela altura, já os meus pais eram os mais velhos dos pais. As restantes disciplinas estavam entregues a mulheres, só guardo o nome da de Português, «Sou a Marina Alberty, vice-reitora e irmã do célebre escritor, Ricardo Alberty.». Realmente a noção de celebridade, ainda hoje, me causa constrangimentos. Sabia lá eu quem era o célebre escritor! Nesse ano passei chumbada a Português, está visto que não conhecer as celebridades tem o que se lhe diga... Anos, muitos, mais tarde, recebi de presente de Natal um livro com a seguinte dedicatória: «Com um beijinho do irmão da autora.». Pronto, está tudo explicado, tudo ao mesmo nível, nível zero da educação!
Este foi, então, em 1972/73 o ano do grito do Ipiranga! Saí de um Lycée que me frustrava dia sim, dia sim, onde me sentia a mais, menos, menos do que as outras, menos do que as minhas irmãs, menos do que nada... e fui para um espaço normal, com gente normal, onde era fácil conviver, conversar, fazer amigos. Foi o principio de tudo, do bom, do mau, do péssimo, do acordar para a vida, despertar para um mundo totalmente novo, com tudo a que tinha direito.


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