sábado, 9 de abril de 2016

Diamantino Alves Patrício ou a impossível viagem à Serra da Estrela

       -Está lá? Setor? Sou eu, Helena Vaz, é só para lhe dizer que já não vamos à Serra da Estrela.
      Coitado do homem! Deve ter ficado a pensar que raio de telefonema era aquele! Também tenho dúvidas que, em plenas férias do Natal, se lembrasse de quem seria a tal Helena Vaz! Tão burra, inexperiente, inconsequente, inconsciente...
        Então lá estava eu, feliz da vida no D. Diniz, eu, não era irmã nem prima de ninguém, era eu, só eu! E feliz! Então, com as recém colegas de Liceu, vai de «organizar» uma viagem à Serra da Estrela, a organização consistia, na cabeça de um cromo de onze anos, em dizer a um professor que ele tinha sido o escolhido para ir connosco, coisa fantástica!, e pronto, a coisa desenrolar-se-ia por obra e graça sabe Deus de quem. Ora o professor de Físico-química disse que sim , que iria connosco, só não nos disse que havia assuntos a tratar, camionetes, autorizações, acompanhantes, local onde ficar... Ingénua (burra) como era, achei que só o simples facto de convidar aquele professor, de quem guardo o nome pela estranheza que me causou quando tivemos o primeiro contacto, seria o suficiente para ter o meu primeiro passeio com as minhas recém feitas amizades, num lugar onde sempre queria ter estado, mas que por razões mais do que óbvias ainda não tinha chegado a altura para tal. Ora, chegaram as férias, passaram os dias e «cadê» o passeio? Achei que era tempo de perguntar à Mãe o que se passaria, foi então que um clique gigantesco soou na minha cabeça (oca, vazia...): não há passeio! Ninguém o organizou! Então, mais burra ainda, telefonei, por cortesia, ao professor a comunicar-lhe que não haveria qualquer ida à Serra da Estrela. Que humilhação, dupla, por assim dizer.  Mas passou. Regressámos às aulas em janeiro, não houve perguntas comentários, dúvidas, portanto estava tudo bem.
         Naquele ano tive três professores, o de História, um engraçadinho sem qualquer graça que me perguntava, vezes sem conta, Helena, Vaz ou não Vaz?, um de Música, mais ligado à Igreja do que à Música e este, um velhote, tipo Professeur Tournesol, super-simpático, de CFQ.

             Gostava dele, não pela disciplina, mas pelo simples facto de já ser muito velhote. Não faço ideia qual a sua idade, mas era mesmo velhinho, tendo em conta que, naquela altura, já os meus pais eram os mais velhos dos pais. As restantes disciplinas estavam entregues a mulheres, só guardo o nome da de Português, «Sou a Marina Alberty, vice-reitora e irmã do célebre escritor, Ricardo Alberty.». Realmente a noção de celebridade, ainda hoje, me causa constrangimentos. Sabia lá eu quem era o célebre escritor! Nesse ano passei chumbada a Português, está visto que não conhecer as celebridades tem o que se lhe diga... Anos, muitos, mais tarde, recebi de presente de Natal um livro com a seguinte dedicatória: «Com um beijinho do irmão da autora.». Pronto, está tudo explicado, tudo ao mesmo nível, nível zero da educação!
      Este foi, então, em 1972/73 o ano do grito do Ipiranga! Saí de um Lycée que me frustrava dia sim, dia sim, onde me sentia a mais, menos, menos do que as outras, menos do que as minhas irmãs, menos do que nada... e fui para um espaço normal, com gente normal, onde era fácil conviver, conversar, fazer amigos. Foi o principio de tudo, do bom, do mau, do péssimo, do acordar para a vida, despertar para um mundo totalmente novo, com tudo a que tinha direito. 

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