Os Portugueses têm algo de figadal contra todos os que tenham algo de
fidalgal. Como as crianças, confundem muito a fidalguia, que é uma
simples condição social, com a aristocracia, que é um sistema político
em que o poder pertence aos nobres. E, no entanto, como diria
Chesterton, não há mérito automático em ser fidalgo, nem vergonha em
pertencer decididamente (como eu) à ralé.
Em Portugal a nossa civilização deve muito a duas classes minoritárias.
Ambas são gente simples, com posses reduzidas e educação informal.
Refiro-me, obviamente, à plebe e à nobreza. O pretensiosismo dominante,
seja proletário ou possidónio, seja triunfalista ou disfarçado,
encontra-se nas classes restantes, que constituem a grande maioria da
população. Mas um pastor ou um pescador é tão senhor como um fidalgo.
Como ele, vê o mundo de uma maneira antiga, em que cada coisa tem o seu
lugar, o seu sentido e o seu valor. O pior é o operariado, a pequena,
média e alta burguesia: enfim, quase toda a gente. É esta gente que se
preocupa com a classe a que pertence. Enquanto o pastor e o visconde se
ocupam, os outros preocupam-se. Os primeiros não querem ser o que não
são. Os outros adorariam. Os primeiros aceitam o que são, sem vaidade.
Os outros têm sempre um bocadinho de vergonha e por isso disfarçam,
parecendo vaidosos.
Quem é fidalgo e quem é que quer ser?
Em Portugal existem três classes distintas. Há a classe dos fidalgos –
os meninos “bem”. E depois há duas classes falsamente afidalgadas. Há os
meninos “queques”, filhos de pais “queques” mas com avós que não. E há
os “betinhos”, filhos de pais que, simplesmente, não.
O “menino bem” é aquele que não sabe muito bem em que século começou a
fortuna da família. Geralmente é pobre, com a consolação irritante do
passado rico. É muito bem-educado e jamais se lembraria de lembrar aos
outros que é “bem”. O “queque” sabe perfeitamente que foi o avô ou o
bisavô que abriu a fábrica ou a loja que enriqueceu a família.
Geralmente é bastante rico. Embora tenha frequentado os colégios
correctos, tem sempre um enorme complexo de inferioridade em relação aos
“meninos bem”, o que o leva a fazer-se mais do que é. De bom grado
trocaria grande parte da sua fortuna pela antiguidade e pelo prestígio
de um bom título.
Finalmente, o “betinho” é aquele cujo pai nasceu pobre,
indesmentivelmente operário. O betinho procura dar-se, em vão, com
queques e meninos bem, mas a sua educação é formal e institucional, não
familiar. É o mais rico de todos, mas é também o mais envergonhado. O
betinho por excelência é aquele que não suporta a vergonha de um pai
nascido entre o povaréu. Evita apresentá-lo aos amigos. Tudo faz para
ocultar a sua proximidade genealógica ao vulgacho.
Tanto o queque como o betinho são o resultado de self-made man, homens
que se levantaram pelas próprias mãos, quantas vezes rudes e calejadas e
tudo o mais. O menino bem, em contrapartida, nem sequer compreende o
conceito de self-made man. Porque é que um homem se há-de “fazer a si
próprio” quando houve sempre pessoal, criados e caseiros, para se ocupar
dessas tarefas desagradáveis?
Distinguem-se em tudo. A falar, por exemplo. O menino bem usa todas as
formas de tratamento, desde “a menina” – A menina vai levar o Jorge ou
vai sozinha no Volvo? – até ao “Psst, tu que fumas”.
O queque, por ser menos seguro, trata toda a gente por “Você”, incluindo
os criados e as crianças (o que não é correcto, mas parece). O betinho,
a esse respeito, está em absoluta autogestão. Tenta tratar mal aqueles
que considera inferiores (demasiado mal) e bem aqueles que considera
superiores (demasiado bem). No fundo é um labrego engraxado que julga
sinal de aristocracia dizer os erres como se fossem guês.
O que caracteriza o menino bem é o seu total à vontade no mundo. Nunca
se enerva, nunca hesita, nunca está muito preocupado. Haja ou não
dinheiro. O menino bem dá-se bem com a pobreza e encara o sobe e desce
da sorte com a naturalidade com que aceita a circulação do sangue pelas
veias. Por isso dá-se bem com toda a gente. Nada tem a perder ou a
ganhar.
Os queques não são assim. Pensam que nasceram para o brilho baço do
privilégio. Vivem obcecados pelo dinheiro já que é o dinheiro que lhes
permite comprar todos aqueles adereços (relógios Rolex, automóveis
Porsche) que consideram indispensáveis ao seu estatuto social. Um menino
bem, em contrapartida, nunca usa relógio – porque é que há-de querer
saber as horas? O queque só se dá com pessoas “do seu meio”. Enquanto o
menino bem tem aquele rapport feudal com caseiros, varinas e pedreiros,
que constitui uma forma multissecular de intimidade, o queque aflige-se
em “manter as distâncias” com esse gentião, precisamente por serem tão
curtas.
O betinho é uma pilha de nervos. Ninguém o respeita. Dá-se quase
exclusivamente com outros betinhos, do mesmo ramo de importação de
electrodomésticos ou da construção civil. Não gostam de sair da sua
zona. Os de Lisboa, por exemplo, só quando há uma emergência é que saem
do Restelo. Ao contrário dos queques, evitam falar em dinheiro porque se
sentem comprometidos. Esforçam-se mais por serem meninos bem do que os
queques, que julgam já serem meninos bem. Andam sempre vestidos pelas
lojas mais tradicionais (camisa aos quadradinhos, casaquinho de malha,
jeans novinhos e mocassins pretos com correiazinha de prata ou berloques
de cabedal), ao passo que os queques compram roupa mais moderna na
boutique da moda. Escusado será dizer que os autênticos meninos bem
andam sempre mal vestidos, com a camisola velha do pai e as calças
coçadas do irmão mais velho. A única diferença é que as camisolas e as
calças que têm em casa duram cem anos. Os avós já compram camisas a
pensar que hão-de servir aos netos. Aliás, os fidalgos são sempre mais
forretas que a escória.
No que toca aos hábitos alimentares, os meninos bem comem sempre em
casa. Como as famílias são geralmente muito grandes (de resto, como
sucede com o populacho), a comida é quase sempre do tipo rancho, ou
sempre servida com muito puré de batata.
Os queques estão sempre a almoçar e a jantar fora, em grupos grandes com
muitos rapazes e raparigas a exclamar: “Ai, já não há pachorra para o
quiche lorraine!” Aqui se denunciam as suas verdadeiras origens sociais.
Para um menino bem, comer fora é uma espécie de solução de emergência,
quando não dá jeito comer em casa. Para um queque é um prazer.
Nas casas bem, a qualquer hora do dia, há sempre uma refeição a ser
servida a um número altamente variável de crianças, primos, criadas,
motoristas, tias, etc.
Nas casas queques as refeições variam conforme os convidados. Nas bem
são sempre rigorosamente iguais. Os queques têm a mania dos restaurantes
– conhecem-nos tão bem como os meninos bem conhecem (e odeiam) as
cozinheiras. E os betinhos? Os betinhos tentam evitar as refeições o
mais possível. Comem sozinhos em casa (os betinhos tendem a ser filhos
únicos) ou levam betinhas a jantar. Porquê? Porque têm a paranóia de
serem “descobertos” através dos modos de estar à mesa. Mas, na verdade,
só são descobertos pelo seu excesso de boas maneiras. Um betinho à mesa
está sempre “rijo”, atento, receoso de tirar uma azeitona por causa do
terror de não saber lidar com o caroço. Os queques comportam-se como
animais, espetando garfos nas mãos estendidas dos outros, soprando pela
palhinha para fazer bolinhas no Sprite e atirando os caroços para
martirizar o cocker spaniel. Quanto aos meninos bem, encaram as
refeições como uma simples necessidade fisiológica. Comem e calam-se.
Falam só para dizer “passa a manteiga” ou “Parece que houve uma
revolução popular em Lisboa, passa a manteiga”.
Não são, portanto, os fidalgos que dão mau nome à fidalguia – são os
queques e betinhos. Estes cultivam ridiculamente os “brasões” e as
“quintas”, fingindo que não gostam de falar nisso. Em contrapartida, nas
casas fidalgas, os filhos das criadas experimentam os lápis de cera nos
retratos a óleo dos antepassados. E ninguém liga…
In “Os meus Problemas”
Miguel Esteves Cardoso
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
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