Toca-me…
Há muito,
muito tempo, ainda a igreja era um convento e a vida vivida em Évora corria
devagar ao som dos sinos.
Nesse tempo
em que acabou a escuridão, em que as trevas se abriram para dar luz ao mundo, a
música ganhou forma com a construção de um instrumento maravilhoso, tão
poderoso que elevaria o som aos céus. Esse instrumento sou eu, o órgão da
igreja de São Francisco.
Ao longo
dos tempos renovaram-me, fui acrescentado, pintado, melhorado para que o som
fosse divino, suave, profundo e doce, assim como as vozes dos monges que me
acompanhavam.
«Toca,
organista, toca! Leva o meu som ao céu… Deixa-me falar com os anjos, acalmar a
dor dos que sofrem, lavar a alma dos tristes, iluminar os rostos dos meninos
que me ouvem! Toca, organista, toca!»
E o som
inunda o espaço, eleva-se através dos tubos, e as mãos do organista percorrem
as minhas teclas, que conduzem o som aos tubos, às minhas dezasseis flautas, libertando
os timbres, tantos… O do contrabaixo, do tambor, do flautado aberto e tapado, do
clarim, da oitava real, e o da voz humana que se mistura com a trombeta real, a
corneta real, o cheio e o cheio, a quinzena, a décima sétima, a dozena, e o
silêncio de quem ouve quebra-se perante a grandeza desta sinfonia melodiosa,
encantada…
«Toca, organista, toca! Deixa-me dizer o que penso, deixa-me
falar, deixa que me oiçam! Deixa-me gritar, chorar e rir…Toca, organista,
toca!»
Cada tecla é única, perfeita, pressionada perpetua o som e o
som perpetua a felicidade de se ser amado, de amar!
E as gentes vêm de longe e de perto, ao frio, ao calor, de
noite e de dia, pobres e ricos, só para me ouvir, no compasso das mãos que se
entrelaçam, que me elevam e libertam.
«Toca, organista, toca, mostra o que sabes fazer, faz a
nossa alma vibrar, leva-me ao céu e ao mar, leva-me às nuvens e à praia,
leva-me daqui, leva-me aonde nunca fui, mostra-me do que és capaz, tu e eu, os
dois num só! Toca, organista, toca!»
E eu cresço, aprendo, vivo, vivo nas mãos de quem me cria,
de quem me toca, de quem me estuda e mima compondo para mim, porque quem para
mim escreve, escreve para o mundo e o mundo avança com a certeza de que a
beleza é suprema e infinita.
Mas quando as portas se fecham, quando não vem ninguém,
quando o silêncio é profundo e prolongado… Quando as mãos não tocam nas teclas,
quando o som teima em não sair, então aí fico muito calado, quieto, à espera, à
espera daquele instante em que o organista regressa e me devolve a vida, o som
e a luz e digo «Toca, organista, toca, toca o que quiseres, toca como quiseres,
mas toca, organista, toca!»


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