Caligrafia
Manoel Carlos
Leio nos jornais que o ensino da “letra de mão”, ou cursiva, será opcional em Indiana, nos Estados Unidos, mas acredita-se que o processo logo se espalhará por todo o país. Argumentam os que são a favor da medida que a matéria está ultrapassada e que ninguém mais precisa escrever no papel, com lápis ou caneta. Afinal, o computador está aí mesmo, ao alcance de qualquer bolsa. Além disso, o próprio governo fornece às escolas o equipamento necessário. Sendo assim, o que interessa a uma criança (garantem eles) é aprender a escrever com letra de forma e a digitar com rapidez e precisão. É com ela que as pessoas vão lidar no decorrer da vida. Obviamente, há quem conteste a medida. O próprio presidente Barack Obama, que muitas vezes se comunica por escrito, em letras cursivas, já demonstrou sua desaprovação.
No Brasil, a caligrafia não foi extinta oficialmente, mas perdeu a força e não é — salvo engano — matéria de reprovação. Cadernos especiais já não existem, e as crianças não são mais alfabetizadas em cursiva. O ensino não morreu, certo, existindo apenas uma nova metodologia.
Apesar de a medida continuar em discussão, com seus prós e contras, a notícia me trouxe de volta, embrulhada às minhas lembranças, a figura do meu professor de caligrafia, padre Manuel Campelo agostiniano espanhol, que a todos encantava com sua habilidade na matéria, que consistia — antes de tudo — em interromper o que escrevia no quadro-negro, com a mão direita, para continuar com a mão esquerda, sem que se percebesse alguma diferença entre uma escrita e outra. O que parecia um truque era tão somente, segundo ele mesmo, produto de muito treino, muita dedicação. Tentamos imitá-lo — eu e muitos
companheiros —, mas nada conseguimos. Ele ria, zombava de nós, e contava histórias do seu tempo de aluno, quando apanhava fortemente nos dedos para melhorar a letra. Nesse ambiente descontraído, as aulas de caligrafia do padre Campelo se transformavam em diversão, da qual participávamos com alegria. E, graças a isso, muitos acabaram dando à matéria a mesma importância que davam à história, geografia, matemática etc. E eu, aluno desinteressado que sempre fui, saí do internato sabendo quase nada de tudo, mas com a caligrafia bonita. Não penso se ganhei ou perdi. Afinal, nesse assunto, até hoje se discute se a ignorância para atingir a felicidade é um caminho mais curto ou mais longo do que o conhecimento.
Sou do tempo em que a pessoa que exercia o magistério, homem ou mulher, estava entre os mais respeitados cidadãos. Não era classificada como de classe A, B ou C. Ou de classe baixa, média, alta. Não. Professor era professor. E isso era valorizado por todos. E o que ele dizia era ouvido com atenção. Magister dixit: o mestre disse. E ninguém discutia. Hoje, nem a língua em que a frase ficou conhecida — o latim — é ensinada ou transmitida. Língua morta, como está caracterizada. Morta, mas ainda assim língua da sabedoria. In aeternum. Para sempre.
Até a entrada no ginásio, o ensino era exercido, na maior parte das vezes, por mulheres. Lembro-me, com carinho, de muitas delas:
Margarida, Adélia, Cotinha, Leonor, Yolanda, Judite… E eu mesmo sou filho de professora, modéstia à parte. Durante toda a minha infância, juventude e nos primeiros tempos de trânsito na idade adulta, o
magistério era uma referência, uma grife, uma recomendação. Uma vez — eu tinha uns 15 anos — desci do ônibus na esquina de casa e fiquei ajudando duas senhoras que desciam com dificuldade. Eram moradoras do nosso bairro e nos conhecíamos de vista. Depois de me agradecerem, ainda ouvi os comentários que fizeram:
— Que menino educado — disse uma.
E a outra:
— Tinha de ser. A mãe é professora!
Até hoje me orgulho da minha mãe. Um orgulho simples, sem ostentação, como ela mesma. Aos 70 anos, ainda alfabetizou, pacientemente, uma sacristã da Igreja Santo Antonio, portuguesa e quarentona. Sentavam-se as duas à mesa da sala de jantar, diante de uma cartilha, papel e lápis à mão. Em pouco mais de um ano, dona Guilhermina, como se chamava, já sabia o necessário para ler o catecismo. E ainda aprendeu
a escrever bonitinho, com letra redonda, feminina.
— Agora você vai poder escrever para sua família, no Porto — disse
minha mãe ao final da tarefa.
E dona Guilhermina, sorrindo, grata e estourando de orgulho:
— Parece um sonho!
E beijou as mãos da professora.
Manoel Carlos
Leio nos jornais que o ensino da “letra de mão”, ou cursiva, será opcional em Indiana, nos Estados Unidos, mas acredita-se que o processo logo se espalhará por todo o país. Argumentam os que são a favor da medida que a matéria está ultrapassada e que ninguém mais precisa escrever no papel, com lápis ou caneta. Afinal, o computador está aí mesmo, ao alcance de qualquer bolsa. Além disso, o próprio governo fornece às escolas o equipamento necessário. Sendo assim, o que interessa a uma criança (garantem eles) é aprender a escrever com letra de forma e a digitar com rapidez e precisão. É com ela que as pessoas vão lidar no decorrer da vida. Obviamente, há quem conteste a medida. O próprio presidente Barack Obama, que muitas vezes se comunica por escrito, em letras cursivas, já demonstrou sua desaprovação.
No Brasil, a caligrafia não foi extinta oficialmente, mas perdeu a força e não é — salvo engano — matéria de reprovação. Cadernos especiais já não existem, e as crianças não são mais alfabetizadas em cursiva. O ensino não morreu, certo, existindo apenas uma nova metodologia.
Apesar de a medida continuar em discussão, com seus prós e contras, a notícia me trouxe de volta, embrulhada às minhas lembranças, a figura do meu professor de caligrafia, padre Manuel Campelo agostiniano espanhol, que a todos encantava com sua habilidade na matéria, que consistia — antes de tudo — em interromper o que escrevia no quadro-negro, com a mão direita, para continuar com a mão esquerda, sem que se percebesse alguma diferença entre uma escrita e outra. O que parecia um truque era tão somente, segundo ele mesmo, produto de muito treino, muita dedicação. Tentamos imitá-lo — eu e muitos
companheiros —, mas nada conseguimos. Ele ria, zombava de nós, e contava histórias do seu tempo de aluno, quando apanhava fortemente nos dedos para melhorar a letra. Nesse ambiente descontraído, as aulas de caligrafia do padre Campelo se transformavam em diversão, da qual participávamos com alegria. E, graças a isso, muitos acabaram dando à matéria a mesma importância que davam à história, geografia, matemática etc. E eu, aluno desinteressado que sempre fui, saí do internato sabendo quase nada de tudo, mas com a caligrafia bonita. Não penso se ganhei ou perdi. Afinal, nesse assunto, até hoje se discute se a ignorância para atingir a felicidade é um caminho mais curto ou mais longo do que o conhecimento.
Sou do tempo em que a pessoa que exercia o magistério, homem ou mulher, estava entre os mais respeitados cidadãos. Não era classificada como de classe A, B ou C. Ou de classe baixa, média, alta. Não. Professor era professor. E isso era valorizado por todos. E o que ele dizia era ouvido com atenção. Magister dixit: o mestre disse. E ninguém discutia. Hoje, nem a língua em que a frase ficou conhecida — o latim — é ensinada ou transmitida. Língua morta, como está caracterizada. Morta, mas ainda assim língua da sabedoria. In aeternum. Para sempre.
Até a entrada no ginásio, o ensino era exercido, na maior parte das vezes, por mulheres. Lembro-me, com carinho, de muitas delas:
Margarida, Adélia, Cotinha, Leonor, Yolanda, Judite… E eu mesmo sou filho de professora, modéstia à parte. Durante toda a minha infância, juventude e nos primeiros tempos de trânsito na idade adulta, o
magistério era uma referência, uma grife, uma recomendação. Uma vez — eu tinha uns 15 anos — desci do ônibus na esquina de casa e fiquei ajudando duas senhoras que desciam com dificuldade. Eram moradoras do nosso bairro e nos conhecíamos de vista. Depois de me agradecerem, ainda ouvi os comentários que fizeram:
— Que menino educado — disse uma.
E a outra:
— Tinha de ser. A mãe é professora!
Até hoje me orgulho da minha mãe. Um orgulho simples, sem ostentação, como ela mesma. Aos 70 anos, ainda alfabetizou, pacientemente, uma sacristã da Igreja Santo Antonio, portuguesa e quarentona. Sentavam-se as duas à mesa da sala de jantar, diante de uma cartilha, papel e lápis à mão. Em pouco mais de um ano, dona Guilhermina, como se chamava, já sabia o necessário para ler o catecismo. E ainda aprendeu
a escrever bonitinho, com letra redonda, feminina.
— Agora você vai poder escrever para sua família, no Porto — disse
minha mãe ao final da tarefa.
E dona Guilhermina, sorrindo, grata e estourando de orgulho:
— Parece um sonho!
E beijou as mãos da professora.

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